A poesia me encontrou. Encontrei-me na poesia! Concedo-lha portentosas asas para alçar longínquos voos e disseminar sonhos nos corações cúmplices e sensíveis. Que ela logre fabulosos rasantes em vastos mundos prenhes de luz e encontre, por fim, felizes e aconchegantes moradas em almas renovadas.

Simone Moura e Mendes

MURILLO MENDES


Lembranças
         (numa solitária e modorrenta noite de sábado)

Murillo Rocha Mendes
Lembro-me,
                      como se hoje fosse...
Olhar-te, seguir-te
ver-te ao longe
agasalhar-te, furtivamente, em meus olhos
até o esvair-te de meus olhares.
 
Foi assim que tudo começou...
Pelo menos do meu lado
sob o meu ângulo de ver
e de sentir
e de querer
 
Mesmo assim,
               mesmo ao longe
na brevidade do tempo fátuo
nessa exiguidade
no vazio da breve distância
na mudez da tirana timidez
tudo realmente começou...

Ainda assim,
rendi-me diante de ti
aprendi a querer-te
como te via
como tu eras
irresistivelmente como eras
e que depois foste
e continuaste sendo

Meu projeto envolvia-te,
esgotava-se em ti
eras tu, era a vida
de descontraído diálogo
de ameno colóquio
de convivência amorável
de troca de ternuras e cariciais

Uma conexão feliz,
sólida
inquebrantável
sem fim...

Tu eras meu projeto,
inclusive ele se resumia em ti
como eras na vida
como tu eras.

Um desígnio de doce colóquio
de convivência mansa e pacífica
uma permuta de sentires
uma fértil conexão, sólida e frutuosa
indesfazível ...
constante e perene
 
Falar-te, ouvir-te
em todos os instantes
argumentar,
convergir
permutar emoções
sentidos e sentimentos

Construir o mundo nosso
bem nosso
para nós
e para os que viessem de nós...
E que vieram
Para amar-te incondicionadamente
e ser, por ti, também amado

Enfim,
palmilhar o mesmo futuro
caminharmos, juntos, o mesmo futuro
amplo
capaz de abraçar nosso querer
longo
para o desfrute pleno do nosso querer...
Como anseiam os que se amam

Uma busca possível da infinitude
uma união indissolúvel
monolítica
mútua e recíproca
linda
como a que logramos concertar
preenhe de amor
sem prazo para esgotar-se
sempre viva
como a que concertamos
sem dúvida, destinada à eternidade...

________________________________________________________
Ofertórios
( 58 anos de aprendizados)

-Murillo Rocha Mendes
Membro da Academia Alagoana de Cultura

Ofereça-se à vida
Faça da esperança
Sua forja, sua lança
Cultive sua vida pura
Como nos idos de sua infância
Como exaltação à coerência.

Valorize, sempre, sua vida
Dádiva da Divina Providência
Da suprema Presença
Em sua finita penitência
Agradeça, sempre, ao bondoso Deus
Por sua dadivosa existência

Encante-se e eleve-se, sempre
Ao passar de seus dias
Durante ocorrer dos tempos
No fluir- e no fruir- de sua idade
Agradeça, sempre, a Deus
Por sua dadivosa existência

Lembre-se, de que a vida é intensa busca
Uma arraigada procura
Uma apaixonada aventura
Pelo encontro, pela conquista
Pelo desfrute da felicidade

Procure ser sábio, sempre
Nos seus julgamentos
Veja-se do outro lado, sempre
Não se arvore dono da verdade
Ou provedor dos elementos

Respeite o próximo, sempre
(E o que está distante, também)
O que pode ver e o que está ausente
Aprenda o elementar...
Aprenda a ser gentil
A existir e ser em paz
Aprenda a perdoar

Faça-se corajoso, justo e forte
Como exaltação à vida
Como destemor à morte
E sonhe, sempre e sempre
Converta-os em projetos
E os realize, freneticamente

Veja-se, na criança que você foi
(E que, ainda, está viva em você)
E nunca desista de aprender a viver
De ir em frente, sempre
De caminhar e caminhar, sempre

Viva, intensamente, a sua vida
Siga a VIDA que venceu a morte
Pois, a vida vivida a dois é sacramento
Torna-se mais forte do que a morte
E, se dela, você for diligente construtor
Ela será encantos e felicidades
Jamais prantos e desencantos
Será sempre amor, indestrutivamente

Faça-a, assim, de sonhos e projetos
Sua bendita e ingente realidade
Converta-a em substancioso desfrute
Da tão ansiada e perseguida felicidade

Por fim
Ame, ame sempre e sempre
Sua esposa, mulher e amada
A ela entregue todo o seu amor
Assídua, febril e ardentemente
Faça da vida frutuosa jornada
Pois, nessa tríade germinativa e esplendente
A vida, vivida a dois, é sacramento

Então, compartilhe com ela a ventura de viver
Com todo o seu ansiar e querer
De forma inextinguível
Converta-lhe em única e para sempre
Sua constante, definitiva e eterna namorada.

_______________________________________________________________

VIVER E EXISTIR
(Murillo Rocha Mendes)
Ah! do que vale a vida nua...
sem amor e sem ternura,
- insípida aventura,
despojada de alegria,
sem ritmo, sem harmonia,
sem horizontes, sem rebeldia,
proscrita de sonho,
oca, vazia: - um projeto bisonho,
falto de fantasia...

Ah! do que vale a vida nua...
sem carinho e sem afago,
sem o caminhar lado-a-lado,
despida de vontade,
alienada, desarmada,
ancorada na abolia...
sem o canto enamorado
da romântica lua,
povoada de saudade,
abatida, arredia
- vencida na nostalgia...

Ah! do que vale a vida nua...
desapossada, avessa ao humanismo,
sem perspectiva, sem solidarismo,
atrelada à maldade,
sem orientação, sem fecundidade,
escondida, enfurnada
- órfã de luminosidade,
toldada, isolada, exilada,
distante dos refulgentes cantos
da provocante, da inconstante,
volúvel e aturdida lua...

Ah! do que vale a vida nua...
defraudada, sem fantasia,
sem sonhar todo o santo dia
- indigente, ausente de utopia...
Pois que, sem fazê-la sua
(um fecundo e germinativo dia-a-dia),
a vida é fria,
realmente nua...
modorrenta, desértica calmaria, sem esperança,
sem beleza, tolhida, sem bonança
- inamativa, sem alegria...
__________________________________________________________

Poemeto da afirmação
Murillo Rocha Mendes
Membro da Academia Alagoana de Cultura

Tudo fiz
Para ser a marca
Que mais lhe marcaria
Em sua exuberante vida

Tudo fiz
Para apagar a maldita marca
Entalhada, em você, por insidiosa doença
(Então desconhecida)
Que se abatera sobre você
Inclementemente, sobre sua infância
Irremissívelmente, em seu físico

E tudo foi feito, diligentemente
Graças ao nosso amor
E tudo, somente, se fez no amor
Pois que, sempre, juntos no amor
No nosso amor incondicionado, prevalecente
E fez-se de modo esplendente
E tudo foi feito, com a graça de DEUS

Nosso amor fez-se marca preponderante
E nos marcou -a nós dois-, indelevelmente
Com uma redentora marca
Mais do que qualquer outra marca
Visível ou não
Existente em mim ou em você
Sobrepondo-se a elas, alijando-as

Assim, nosso solidário amor
Fez-se imorredouro
Vivo para sempre
Em nossa compartida existência
Para além de nossa finita vida
Fez-se eternidade...
__________________________________________________________________

AMAR - CONJUNGAÇÃO E COMPLEMENTOS

Murillo Rocha Mendes
Membro da Academia Alagoana de Cultura

Entre nós, no nosso relacionamento
Em nossa amorável jornada
Nunca foi tarde demais
para nossas constantes procuras
para nossas reiteradas entregas.

Nem as esporádicas e irrelevantes desavenças
resíduos do dia a dia, das oxidantes rotinas
Desfizeram o verniz do nosso amor
que se fez vitorioso, triunfante.
Nem seus asfixiantes garrotes
Nem seus apertados nós
reduzidos à sua futilidade
Prevaleceram ou prosperaram em nós.

Pois que, conscientes e na unidade
Os reduzimos à insignificância
às suas conhecidas impotencialidades
a um isolado irrelevante
que não se impôs sobre nós.
Condenadas, abatidas
Essas dissensões vazias
Morriam no correr do mesmo dia
asfixiadas por sua mesquinhez
em sua maldita asfixia.

Esses horizontais confrontos
Logo se desfaziam
Eram, por nós, desfeitos
no amor, os vencíamos
E fortes e firmes
Lográvamos, sempre e sempre, essa travessia.

Fomos, sempre, terna e solidária união
Vida presente, bem vivida
uma compartida vida
mais do que satisfeita
Coautores de benditos feitos
Fomos amantes mais do que perfeitos.

Fomos sobretudo e sobremodo
No então presente e para todo o futuro
Incondicionados e decididos namorados
Recíprocos amantes / amados
sempre conjugados
Amando e sendo amado
Em ansiadas e repetidas conjunções...

Éramos e fomos Sol
do nascer do dia
ao deitar da tarde
Éramos e fomos Lua
em nossos aconchegos das madrugadas
no ilimitado de nossas intimidades
Em síntese:
éramos, fomos, continuamos sendo
amantes satisfeitos, amantes saciados...

______________________________________________________


CELEBRAÇÃO  DO  LUAR
        OU  PLENILÚNIO


Era noite clara, prateada
era alegria incontida, liberdade
lá no alto, redonda, imoderada
estava a lasciva e fugidia lua
luminosa, ampla, deslumbrante
destacando-se imponente, fulgurante
despida de nuvens, seus diáfanos véus
expunha-se cheia, plena, esplendente
nos imperscrutáveis e ilimitados céus

Aos nossos olhos, transeuntes da puberdade
uma libidinosa tentação, em nossa idade
ela era nossa inalcançável namorada
ao exibir-se impudicamente nua
frívola, mas por todos ansiada
avultando-se no firmamento, inquieta e bela...
Essa era nossa sempre desejada lua
fermento de santos e profanos intentos
ao agigantar sentidos, desejos estonteantes
em todos nós, ainda impúberes adolescentes...
Mas, era também confessáveis sentimentos
o descortino de tão inolvidável tela

Aqueles, foram tempos inocentes
povoados de luares mitigantes
palco de cobiças incipientes
(ou de apetites insipientes?)
de culto a uma exibida amante
esquiva, escorregadia, distante
uma ofuscante e quimérica fantasia
altiva, imaculada, flutuante
exuberante na noite, recatada de dia
dos boêmios, volúvel e perseguida namorada
hipotética, intocada, severa amada
excitação de todos no cio da madrugada

Oh insensata e presunçosa lua!
Inclemente, egoisticamente sua
despojada, lúbrica, provocantemente nua
abandonava-nos insaciados; fugia
insensivelmente, ao raiar do dia
cumprindo, estóica, sua jornada
postergando-nos, não nos via
para, decadente, transitoriamente pálida
indiferente ao nosso melancólico incitar
imolar-se, declinante, minguada
esvaindo-se de beleza e luz
deixando-nos órfãos de luar.





Nenhum comentário:

Postar um comentário