A poesia me encontrou. Encontrei-me na poesia! Concedo-lha portentosas asas para alçar longínquos voos e disseminar sonhos nos corações cúmplices e sensíveis. Que ela logre fabulosos rasantes em vastos mundos prenhes de luz e encontre, por fim, felizes e aconchegantes moradas em almas renovadas.

Simone Moura e Mendes

SANDRA MAGALHÃES SALGADO


Colheita


Ainda que não saiba
 Anseio pelo que latente
 Espera germinar
 Ainda que o sinta
 Predador de mim
 O caminho estreito
 Fá-lo-á irromper
Ao tempo do agora
 De uma hora
 Que não sei precisar












DIVERSIDADE DO SER



Arvoro-me em desvendar novos caminhos
em terras áridas de um solo gasto
numa clausura que parece me tolher
Em terras secas, a estiagem assola
a paisagem cinza embacia a aquarela dos sonhos
nesse cenário, redesenho meus caminhos
Em terras áridas de um solo gasto
redescubro minha diversidade
e passo a repensar a liberdade tão sonhada
outrora tão encadeada, refém das memórias recorrentes
Nesse palco inóspito,
a clausura passa a ser a liberdade
a liberdade, cada elo aprisionado
e passo a deixá-lo cada um desobrigado
Nessa paisagem desertificada
a inteira liberdade não mais me assusta
é o elo que me leva da caatinga à terra preta amazonense
da vegetação em extinção a um vasto solo frutificado
com recursos sustentavelmente utilizado





REVELAÇÃO DO MEU MUNDO


Quero o mundo vivo
Pulsante, visto e sentido
Cada mistério
É só uma questão de prisma
Um mundo  preconcebido
Não cabe numa película sensível
Capto o não concebido
Transformo o que já de antemão
Revelo o mundo
Pelos contornos dos meus olhos
Sem fixador
Meu negativo é metamórfico
Sem ácido acético
Sem sala escura
Meu projetor de luz
É minha alma








TECENDO TEIAS

Foto de Sandra Magalhães Salgado



Como uma aranha quero tecer meus fios

sem pausas, sem repousos, tecê-los sem parar.

Há teias para captura, cópula, refúgio e muda.
Sábias, as aranhas tecem suas teias
para atender a todas as suas necessidades.

Não há pausa para reflexões

nem mesmo para mudar o foco.

As aranhas cuidam só de mudar seus esqueletos
E continuam com a mesma essência.

Quero tecer meus fios

novos fios em lugar dos rompidos

novos fios para sustentar novos valores.
Quero tecer sem parar
fios de novos sonhos
fios de uma nova esperança.

Só mesmo as aranhas

parecem não mudar o foco

minhas teias não são de aracnídeos.
Quero delas a sapiência
não posso ficar sem teias.
Quero sustentar minha vida
em fios fortalecidos.





REENCONTRO

(foto de autor desconhecido)


Apenas sei de ti
o que te imagino
apenas sinto de ti
o que te ofereço
não te espero mais que isso
mas te quero muito mais

Nosso encontro nada tem de acaso
e quando chegar a hora
veremo-nos como jamais
pudemos imaginar
somos mais que nossas fantasias
já éramos antes um para o outro
um grande reencontro.






 MALDITA PALAVRA

(foto de Tatica Guerra)


Tenho medo das palavras
que o silêncio emudece
distanciam a proximidade
Tenho medo da omissão
que fala e ensurdece
fragiliza e desfaz os afetos
Melhor seria que não existisse
a palavra maldita
melhor seria que não existisse
a omissão insensível
Melhor seria que o silêncio
falasse a palavra omissa
que rumina e corrói
a alma dos orgulhosos







OMISSÃO SUICIDA






O que as palavras disseram
o instinto não foi capaz de assimilar
o que a omissão dos iguais silenciou
fez lançar ao precipício não só
as vidas ensandecidas pela discórdia.
mas a possibilidade de se fazer ouvir a sensatez.




O OLHAR ALÉM DA ÍRIS






Não era a forma
era a inspiração
não era o perfume
era a insinuação


Um desejo natural
reprimido ou permitido,
estaria sempre à margem
da ótica de alguém


Não era a forma
era a imaginação
não eram as palavras
era o indizível


Não era a razão
era mesmo o prazer
a paixão que aprisiona
e faz cegar


Não era só o olhar
era o mistério além da íris
o toque além da pele
além da paixão, era o início de um grande amor






AH! ESSA INQUIETUDE!


Foto de autor desconhecido



Ah essa inquietude!
que me aflige se está tudo bem
que me maltrata se está tudo mal


Às vezes me pergunto
se inquietude ou falta de gratidão
ao tempo tão precioso que é o agora


Inquietude ou ansiedade
ambos querem saber do amanhã
queria domar esse estado de insensatez


Desfrutar o presente, pode não ser fácil
às vezes com tantos nós ainda apertados
tantos laços mal acabados


Mas, e o que há por vir, se não se sabe esperar?
Antever as possibilidades
se fechando ao que já é.


Ah! Essa inquietude!



QUANDO O ANJO FALA


Foto de autor desconhecido



Entre ir e vir
percorri o que desejei
entre ir e me arriscar
permaneci onde estive


Entre ficar e me arrepender
pensei ter deixado de descobrir novos caminhos
até entender que sempre que escutei meu coração
fiquei no exato lugar onde deveria estar.
foi quando deixei meu anjo falar






O FALSO EQUILIBRISTA








Já fui equilibrista


mas tombei


malabarista


e tudo derrubei


contemplador


mas nada enxerguei


faltava mesmo saber


que rumo queria seguir.







PORQUE NÃO SOMOS FLORES




Foto de Suzana Salgado e poesia de Sandra Salgado

Porque não somos flores
nos apressamos em renovar as pétalas já sem viço
porque não somos flores
sofremos a ânsia de um novo polinizar

Porque nos falta a sabedoria da natureza
botões a desabrochar logo murcham
sempre à espera do verão e da primavera
perdem a riqueza do outono e do inverno

As folhas que caem e levam consigo o que já sepultado
a água que lava, leva, rega, nutre e traz novos gomos.
Porque há tanta pressa, difícil sermos flores.





O REAL E O IMAGINÁRIO

Eu simplesmente sinto
Com a imaginação
Não uso o coração
Já disse Fernando Pessoa

E aqui estou a sentir
o que imagino
com o coração
não importa se o vivi

Seria como dizer que não sinto
a dor que alguém diz sofrer
seria como criar um mundo irreal
quando tudo é possível e acontecido

Eu simplesmente sinto
e embora meus ventrículos trabalhem
desconhecem o real do fictício
tenho até meus medos imaginários

Eu simplesmente sinto
absurdamente tudo com o coração
eu simplesmente sinto tudo completamente





PERTENCIMENTO
Foto de autor desconhecido e poesia de Sandra M Salgado

Já me doeu
um dia perdido em lágrimas
a tristeza cultivada

Já me doeu
ver fechadas as portas
esquecer-me em casa

Já me doeu
percorrer o caminho do adeus
ser companheira da solidão

Já me doeu
entender que estar encomendada a Deus
é aceitar a finitude de tudo

Fez-me sofrer aprender o desapego
se titubeio, sinto que mais me dói ser refém das pessoas, situações e coisas
e volto à vigília, como um aluno desatento, mas determinado.

O sabor do desapego é a liberdade,
a relevância, a certeza de que só pertenço a mim.
Toda passagem é solitária. 





DESAPEGO
Foto de Tayra de Macedo Mendes e texto de Sandra Salgado

Somos tantos nós
Iremos sós e queremos muito
Até que a vida diz,
Tudo nunca te pertenceu
Teu, só você.

AMADURECIDOS DE VEZ

Amadurecidos de vez
Foto de Tayra de Macedo Mendes e poesia de Sandra Salgado

Escondidos em cercas
da exclusão ou prematura
inclusão social,
na mendicância,
ou trabalho escravo,
crianças e adolescentes,
crescem sem amadurecer
sequer vivem seus sonhos

inocentes e irreverentes.

Amarelinha, Escravo de Jô,
Roda, Cinco Marias,
Batata-quente,
Uni duni tê,
Já cantou o Trem da Alegria e dizia
“Sonho encantando onde está você?”

Escondidos em cercas
sem a magia do lúdico
amadurecem de vez
e seguem em clausura os adultos.
O que fizeram de suas crianças,
se libertos, o que teriam sido seus adolescentes?

GLORIOSA GLÓRIA

Gloriosa Glória
Foto de autor desconhecido e poesia de Sandra Salgado

Dói-me saber de tua escolha
tão grande foste a lutar por tantos
chega tua hora de brigar pela vida
e ouço-te dizer, adeus

Briga por mim,
briga por todos que te amam
não te deixas ir assim
mesmo sendo direito teu

Glória, que já me acolheu
agora deixes que eu lute por ti
Glória, motivo de orgulho
auréola de tantos

Permita que a divina bem-aventurança
derrame sobre teu caminho
as dádivas que mereces
és o arco-íris de telas vivas de tuas mãos
de tantas vidas coloridas por tuas lutas

Dói-me saber de tua escolha
haverei de lutar por ti e contra ti
insana tua escolha, talvez a minha
de não te deixar ir sem abrir fogo
e pedir passagem para mais caminhar nesta vida.

Glória a Deus nas alturas, seja feita a vossa vontade.

ENLAÇADOS LAÇOS

Enlaçados laços
Foto de autor desconhecido e Poesia de Sandra Salgado

Renderam-se mais uma vez
aos mais nobres sentimentos
subjugando tudo que sentiam

Perderam-se em nome
da certeza de que jamais
se deixariam.
Laços divinos e infinitos
haveriam sempre de uni-los

MEMÓRIAS DE UM FALSO TEAR

Memórias de um falso tear
Foto de Tayra de Macedo Mendes e Poesia de Sandra Salgado

Sem pedir consentimento
minhas memórias traziam-me você
como se fosse possível atar
o que já em fiapos

Em fiapos, já desfeito
não era mais amor
era mesmo a dor
não por não tê-lo
por não senti-lo
esse estado de plenitude
chamado amor

Dor em fiapos
fiapos de amor
assim voltei a tecer-me
e me dei conta
sou eu meu estado de graça
depois, todo o mundo
você foi só um ponto no tear
desatado facilmente
ali não era seu lugar

A METADE INTEIRA DE MIM

A metade inteira de mim
Foto de autor desconhecido e poesia de Sandra Salgado

A inquietude me toma
como a dizer que
o mundo não para
sou só um pedaço de mim
a outra metade vagueia

Nem sei o que procuro de mim
Além dessa outra metade
e procuro em ti o que me quero
tu és quase inteiro, cheio de si

E eu procuro uma metade
inteira, que saiba ser
para o outro
o que quero ser para ti

Esse querer ser ao outro
não existe n´algum lugar
mas em mim,
acho que isso é amor.

PAPAI NOEL PÁTRIA MÃE GENTIL

Papai Noel Pátria mãe gentil
Foto de autor desconhecido e poesia de Sandra Salgado

Já esperei Papai Noel
E minha felicidade
Seriam brinquedos
Fossem de papel ou não
Hoje essa tal felicidade
Sei que é fugaz como a ventania
Continuo a esperar
Não mais pelo Papai Noel
Agora pela Pátria mãe gentil
Que acorde e, em seu berço,
Embale seus filhos excluídos
Dando-lhes não a tal felicidade
Mas tão-somente a dignidade.

MEU NINHO, MEU CERNE

Meu ninho, meu cerne
Poesia de Sandra Salgado

Perco-me sempre que me encontro
nalgum lugar que não é meu
encontro-me sempre que me
perco no aconchego do meu ninho

Esse ninho que me mostra donde vim
para onde quero ir,
o que faço de mim
e pelos que me cercam

Minhas reminiscências, minhas memórias,
meu ninho, eis meu cerne
não sou ninguém, basta-me ser para mim
e serei para os outros.

MARIA DE TODAS AS MARIAS

Maria de todas as Marias
Foto de Alvinho e Poesia de Sandra Salgado

Maria das Graças,
dos Prazeres, da Saúde,
tantas vidas de muitas Marias,
mulheres, mães, companheiras,
desbravadoras, trabalhadoras.


Marias de todos os sonhos
de tantos amores e desamores,
Maria do Perpétuo Socorro,
das Dores, das Mercês,
do socorro calado, das dores sofridas,
a mercê da sorte, da desilusão e da omissão.
Maria da Penha, violentada,
destemida e precursora.


Maria de todas Marias,
da Penha, ceifaram-lhe as pernas
mas não sua fortaleza.
Não por ocaso seu nome é rocha e penhasco,
e deste, não por acaso,
luta para salvar tantas outras Marias.

AMNIÓTICO LÍQUIDO CHAMADO MÃE

Amniótico líquido chamado mãe 
Poesia de Sandra Salgado

Amniótico fluido que já me envolveu
a tentar me proteger de externos choques
Amniótico líquido que já me amparou
na medida exata do que precisei

Etéreo líquido que me conduziu à vida
a minha ótica me mostra tua verdadeira natureza
não és fluido nem líquido
És esse ser chamado MÃE

Sem mais fluidos
envolve-me em tuas noites de vigília em oração
MÂE etérea e terrestre
deixa-me ser frágil se precisar
deste-me a demonstração de tua fortaleza
e dela não descuidarei
deixa-me ser, vou crescendo na dor
deixe-se ser mais liberta de teus cordões
jamais me perderei de ti.

JUSTIÇA À POESIA, A SENTENÇA DE TÊMIS.

Justiça à Poesia, a sentença de Têmis.
Foto e texto de Sandra Salgado

Pareciam folhas presas no varal...
A Justiça silenciou e deu voz à poesia
Têmis apareceu sem vendas nos olhos.


Viria a face do litígio
e sem baixar a espada
lançaria versos embalados numa doce voz.


Pareciam folhas presas no varal...
eram vidas expressas em versos
era Têmis conclamando a paz. 

BORDADOS VIVOS

Bordados Vivos
Releitura da foto de Tereza Carnaúba (por Sandra Salgado) Poesia de Sandra Salgado

Bordadas e rendadas pela natureza,
não eram as mãos,
eram as linhas que se expressavam.
Não eram de fios de algodão,
não eram de fios de seda,
eram de vida seus trabalhos.

À vida que se rendeu,
rendou de amor cada ponto cruz,
entrelaçado, cheio, pétala.
Rendou sem parar,
parou sem mais rendar.
Aquele vivo bordado,
fiquei ali a apreciá-lo.

MINHA TELA

Minha tela
Foto de autor desconhecido, texto de Sandra Salgado

De todas as cores
quero o colorido da alegria
do preto, a dignidade,
do branco, a pureza.

De todas as cores
quero o colorido da esperança
do verde, a eterna juventude
do vermelho, a paixão, o amor,
do azul, a lealdade e fidelidade

De todas as cores
quero o colorido da prosperidade
do castanho, a maturidade e responsabilidade
do roxo, a nobreza e respeito.

De todas as cores
quero o colorido da minha vida
quero retocá-la sempre
quero o prateado da inovação
minha tela não tem fim. 

RITUAL SAGRADO

Ritual sagrado 
Foto de Tayra de Macedo Mendes e texto de Sandra Salgado

O ritual mais sagrado
que existe é quando, resignados,
entendemos os contornos que a vida faz.
Sem conformismo, mas com a lucidez e a
sensibilidade próprias de quem
entendeu o sentido do crescimento.
 

O MULTIVERSO E MEU MUNDO

O multiverso e meu mundo
Foto de Delaide Scolni e texto de Sandra Salgado

A integração do multiverso,
da Via Láctea, da Terra.
de todos os seres.

Chama que incessantemente queima
e em todos os cantos exala vida.
Renovação, reinvenção, extinção?

Interligados,
do quark ao átomo, das células
a um conglomerado de organismos.

Coexistem naturalmente os universos?
A ciência deles se ocupa.

Nenhuma equação para decifrar
meu mundo,
talvez alguns versos.
Multifacetado e por vezes inconexo
Multicolirido e por vezes sombrio.
Quem sou neste multiverso?



CONVITE À VIDA

Convite à vida
Foto e texto de Sandra Salgado

O mar me convida
para em suas águas me envolver
com o sal e a vida marinha.

O sol me convida
a aquecer com seu raios

minha alva pele.

A vida me convida

E daqui fico a observá-la,
como sobrevivente de um naus
espero a hora de sair.

PAIXÃO

Paixão
Foto: www.mundoafora.com

Entre nós, só esse desejo sequioso.
Não há tempo, não há outro mundo
só esse que mal nos cabe
tão grande é a volúpia que nos envolve.

AS EXPRESSÕES DO AMOR

As expressões do amor 

A concretude da racionalidade
dissipa-se e dá espaço
a um só sentimento -
o amor.

O REGISTRO DA VIDA

O registro da vida
Foto e texto de Sandra Salgado

Parou e ali ficou.
Até parecia pousar
sem mesmo dar conta da presença do
estranho fotógrafo que o
o perseguia através das lentes
imperceptíveis de alguns megapixels
que jamais registraria seus sentidos
e sua percepção da vida.
Parou e simplesmente ali esteve,
o que ficou da captura dos megapixels,
a beleza da vida.

DESPIDA DE CERTEZAS

Despida de certezas 
Texto de Sandra Salgado

Tentei deixar pelo caminho
o que não queria sentir,
despi minha alma e
pude vê-la num terreno árido.

Resgatei o que deixei pelo caminho
para deixá-lo em algum lugar
com todos os propósitos
a que viera.

Sou toda interrogações
e não desisto de encontrar
as certezas ainda que só apareçam incertezas.

Quero todas as partes de mim
ainda que meia, meia parte com outras tantas
hão de me formar o todo.


Só o todo será o terreno fértil
só o terreno fértil fará florir
só florindo, volto a me despir.


PERFUME DO AMOR

Perfume do amor 

Perfume sutil que já envolvi em seu corpo
de uma delicada tez que percorreu e foi percorrida.
Naquele instante, éramos o exalar de uma flor desabrochando.
Encanto, desejo, paixão, amor.

MINHAS JANELAS

Minhas janelas
Foto e Texto de Sandra Salgado

Minhas telas opacas e sem brilho
revelam um pouco a vida que pintei por outra janela.
Deixei de dar o colorido exato ou aproximado
estive com minhas janelas fechadas.

Reabro-as sem receio do clarão
ofusco-me com a vida
intensa, imprevisível.
Rotas são esperanças
elas se concretizam sem nos avisar

Sou enorme e posso ser nada
prefiro mesmo ser do meu tamanho exato.
Consciência é a palavra de ordem,
é sua expansão que pode me guiar

Decifrar as impressões do escuro e do opaco
que ali ficaram registradas,
a cega visão que vi do mundo,

opaca e sem brilho,
é o recomeço para voltar a colorir minhas telas através de minhas janelas.

SAUDADE

Saudade
Foto e texto de Sandra Salgado

Se é energia existe
se é sentimento é energia
como então dizê-la amorfa?

Não há como entendê-la
beira o injustificável.
Melhor seria nunca tê-la conhecido
seria o antídoto que me protegeria.

Mas quem prefere ficar imune
sofrerá de mal maior
secará sua essência
jamais saberá o que é o amor, jamais saberá o que é saudade.

QUERO SER

Quero ser
Foto e texto de Sandra Salgado

Já não tenho só 20 anos,
quero mesmo meus tantos anos.
Aprendi a ser quem sou
ora menina ora mulher.
Aprendi que a maturidade
é a eterna renovação, nunca o conformismo
Ora sã ora uma louca
sou mulher que chora
sou menina que me dá colo

Já tenho meus frutos
e haverei de tê-los mais.
Quero ser o espelho que reflete
força e sonhos
mas nunca o desencanto.
Quero meus tantos anos,
é minha digital.
Entre acertos e desacertos
quero a lucidez para sabê-los
quero tudo, só não quero passar em vão.

OS AMANTES

Os amantes
Foto e texto de Sandra Salgado

Esperei o por do sol dos amantes
e em banhos quentes no mar da Pajuçara
não esperei a chegada da lua
nem seus desenhos prateados me encobrirem

Esperei o por do sol dos amantes
e ali me enamorei sem pudor
só mesmo os murmurinhos ditos
e sentidos ali no mar de Maceió
ecoaram em algum lugar

Quem assistiu ao por do sol dos amantes
decerto testemunhou as mais lúdicas juras de amor
o mais belo cenário
os mais enamorados de todos os amantes.

NOSSOS ÂNGULOS

Nossos ângulos
Foto e texto de Sandra Salgado

Buscava o melhor ângulo para retratar o que aquela tarde chuvosa e cheia de memórias registrava em seu ser.
Cada ângulo parecia se esconder, não havia foco.
A ansiedade dominava seu estado de espírito. E o que seria a ansiedade senão um estado de descontentamento com o presente?
Ela continuou a buscar o melhor foco, como a tentar vencer o tempo. Esperava então que chegasse o futuro e desse por finda a ansiedade. Esse futuro passou e não foi visto, ele era sempre um presente não esperado e não vivido, não havia ângulo para ele, nenhum foco seria capaz de capturá-lo.
Esperou em vão, sequer pode entender a grandeza de cada segundo presente, continuou a esperar o futuro, desfocada e ansiosa.

NOSSOS FILHOS

Nossos filhos
Foto de Luciana Barradas e texto de Sandra Salgado

Ainda estou em 1985 com meu menino no colo
mas esse menino já é um homem e logo cedo escolheu seu caminho.

Precisei resgatar as minhas memórias para entendê-lo.
Também cedo escolhi o que queria ainda que tivesse que correr
em busca de transformar os atropelos cometidos e deixá-los tão naturais
como se nada tivesse acontecido.

Ainda estou em 1985 com meu menino no colo.
É mesmo a saudade que sinto daquele tempo
que confesso foi tão corrido que mal o tive no colo.
Meu menino já é um cidadão do mundo
homem capaz de romper seus medos,
solidário, sensível, determinado, sua busca maior é por um Brasil mais justo
sem desigualdades sócio-econômicas.
Decidiu ser Sociólogo para contribuir mais diretamente com este mister.

Não posso mais estar em 1985.
É que o saudosismo me pega e às vezes me maltrata.
Estou em 2010 e meu menino homem Sociólogo já tem uma companheira igualmente guerreira que recebo como uma filha.
A você meu filho não só há um coração e colo de mãe
que o acolherão sempre, mas a lucidez de quem é capaz de
incentivá-lo sempre nesse caminho que escolheu seguir.


Que assim seja.

A DOR DO MUNDO

A dor do mundo
Foto tirada em Madri por Liana Barradas e texto de Sandra Salgado

Essa dor que fere os corações dos jovens idealistas
é a dor capaz de transformar o mundo
de impulsioná-los a reinventar e reconstruir um mundo mais justo.

Essa dor que não é uma cena qualquer de filme
é real, são pessoas dormindo ao relento, num gélido cimento, a 3 graus de temperatura.
Essa dor não há só de comover,
mas há de instigar, maltratar os corações dos sensíveis,
de se tornar verbo, ação e de promover mudanças globais.
Essa dor que pode passar impune não passará a menos que queiramos.
Essa dor maltrata meus filhos.
Essa dor me faz repensar a vida e meus valores.
Essa dor quero senti-la sempre como proposta de uma primeira mudança.
As demais virão pelas ações continuadas e conjuntas. 

REFLEXOS DE UMA CLARA ALMA

Reflexos de uma clara alma
Foto de Théo Fortes e texto de Sandra Salgado

Refletia sua beleza singular, como os escritos que selecionava e guardava em delicadas caixinhas e que ficavam a espera para serem lidos quando incorporados ao dia-a-dia.
Refletia uma beleza rara ainda em ascensão, entre lidos e letras, expressava a sensibilidade de enxergar a vida em sutis gestos e falas, o encanto capturado sempre incomum.
Refletia em águas turvas ou cristalinas, um brilho próprio, raro e seguro, sem distorções.

TECENDO TEIAS

Tecendo teias
Foto e texto de Sandra Salgado

Como uma aranha quero tecer meus fios
sem pausas, sem repousos, tecê-los sem parar.
Há teias para captura, cópula, refúgio e muda.
Sábias, as aranhas tecem suas teias
para atender a todas as suas necessidades.

Não há pausa para reflexões
nem mesmo para mudar o foco.
As aranhas cuidam só de mudar seus esqueletos
e continuam com a mesma essência.

Quero tecer meus fios
novos fios em lugar dos rompidos
novos fios para sustentar novos valores.
Quero tecer sem parar
fios de novos sonhos
fios de uma nova esperança
só mesmo as aranhas
parecem não mudar o foco.
Minhas teias não são de aracnídeos
quero delas a sapiência.
Não posso ficar sem teias
quero sustentar minha vida
em fios fortalecidos

MINHAS PIPAS

Minhas Pipas
Foto de Delaide Scolni e texto de Sandra Salgado

Já empinei pipas e ficava a observá-las
faziam lindos desenhos no céu, soberbos e libertos.
Sempre empinava pipas com pedidos
ou talvez empinava pedidos com pipas.


Não queria ser testemunha de desarmonias,
queria ser criança, não queria aquela lucidez.
Empinava minhas pipas
e os pedidos me alentavam.

Não estava fugindo,
colaborava como podia.
Empinava pipas e
fazia minhas súplicas aos céus.

Algum anjo haveria de lê-los
algum anjo daria uma providência
queria só um pouco de paz no meu lar
que me permitisse ser criança
sem pensar como gente grande.

Meu mundo imaginário
era minha felicidade.
Depois eu voltava para casa
feliz por ter cumprido uma missão.
Precisava ser feliz todos os dias
e era ali, empinando minhas pipas
e fazendo meus pedidos.

REFÚGIO

Refúgio
Foto e texto de Sandra Salgado

Refugiou-se para não mais fugir,
fugiu para se encontrar
num longo monólogo
e consigo dialogou.


Se houve consenso,
melhor foi a falta de senso
bastaria se ter inteira
qualquer outra certeza
seria duvidosa.

Era mesmo fugir pra se encontrar,
se encontrar para se perder do que já foi.
Não haveriam cobranças.
Dar-se-ia o direito de sair ilesa.

Como numa erosão,
cuidou de eclodir sentimentos.
Como numa construção de um alicerce,
cuidou de juntar seus valores
e foi a partir deles
que saiu inteira de volta à vida.

TRAVESSIA

Travessia
Foto e texto de Sandra Salgado


Atravessaria caminhos ignorados, mas era destemida e cuidou de guardar o medo envolto na fé de colher bons frutos. Até perdeu a noção do tempo se é que ele não parou.
Na escuridão se viu só, o medo já não lhe fazia companhia, onde quer que fosse só se deparava consigo. Percorreu longos caminhos que até pareciam um labirinto.
Encontrou um lugar único, o seu eu, era o todo que o mundo tinha a oferecer, aquele cantinho enorme donde poderia ver o vasto campo de possibilidades, pode ver campos floridos e áridos, fontes de luz e de escuridão.
Havia só uma saída, aceitar o seu eu como o todo, a única porta do labirinto que a levaria a todas as outras. Chegou ao seu centro e se viu inteira embora multifacetada.
Era seguir dali a outras travessias, a escuridão seria agora seu guia, o medo, seria o impulso para buscar novas saídas.
Enfim, encontrou um estado de equilíbrio e plenitude.

PESCA

Pesca
Foto e texto de Sandra Salgado


Várias tentativas e a rede voltou quase como lançada, não fosse a certeza de que, em algum lugar, procriavam e se alimentavam. Era essa certeza que movia o retorno à âncora. Haveriam de levar esse achado ao lar mas não a desesperança.


NOSSAS MÁSCARAS

Nossas máscaras
Foto de Paulo Carvalho e texto de Sandra Salgado


"Tanto riso, oh quanta alegria, mais de mil palhaços no salão, Arlequim está chorando pelo amor da Colombina, no meio da multidão..."
Quantos segredos guardam as máscaras de todos nós. Não precisamos tirá-las se sabemos de nossos espinhos. Guardá-los é uma forma polida de deixar o outro ver um pouco as nossas pétalas.


DIAS PASSADOS

Dias passados
Foto e texto de Sandra Salgado


As janelas cerradas, a sombra do sol que sinaliza a passagem de mais um dia. Quantos dias assim se findaram. Janelas cerradas, dias passados e a vida por onde passou?


ESPECTADOR DA VIDA

Espectador da vida
Foto e Texto de Sandra Salgado



Cada vez que me permito ficar como espectador da vida, passo a acreditar que tudo não passa do tamanho que eu queira dar.


ESPERA

Espera
Foto e texto de Sandra Salgado


Enquanto esperava o ônibus, exercitava a paciência já quase perdida. Esperava a esperança em dias melhores, esperava rever a pessoa amada que deixou em casa entristecida. A pessoa amada, não poderia tê-la deixado triste em casa. Seriaessa uma longa espera.


RETIRANTES

Retirantes 
Foto de Paulo Carvalho e texto de Sandra Salgado


Os mesmos caminhos são sempre desiguais, há sempre quem possa atravessá-los com coloridos sonhos a perseguir.


CATARSE

Catarse
Foto e texto de Sandra Salgado


Esperei passiva os ocasos encerrarem ciclos. Numa catarse, compreendi que sou eu o meu ocaso, sou eu o meu amanhecer. (texto e foto de Sandra Salgado)


LIBERDADE

Liberdade
Foto de autor desconhecido e texto de Sandra Salgado


Essa nossa liberdade que mal cabe em nossas mãos. Essa falsa liberdade que não nos diz o que é de hoje o que será do amanhã. Essa tal liberdade é mesmo a fé


À DERIVA

À  deriva
Foto e texto de Sandra Salgado


Às vezes, ficamos à deriva fechados, até perdemos o ar. É só o tempo de rever o que precisa ir, para que fiquemos libertos, presentes.


ALMA LAVADA

Alma lavada
Foto de autor desconhecido e texto de Sandra Salgado


Já corri da chuva, já me guardei embaixo das cobertas sentindo-a de longe, esperando-a passar. Hoje corro enquanto ela me chama. Abro os poros, a mente, deixo levar o que não me serve. Leve e solta, fico a esperá-la mais uma vez.


O QUE SE VÊ?

O que se vê?
Foto e texto de Sandra Salgado


Em todos os espelhos enxerguei só uma maneira de me ver inteira, em nenhuma deles.


CONSCIÊNCIA

Consciência
Foto de autor desconhecido e texto de Sandra Salgado


Quero a lucidez dos que enxergam com a consciência social, quero sentir a dor alheia como minha, quero a fortaleza dos que estão à margem e não perdem a dignidade.


O PRIMEIRO AMOR

O primeiro amor
Foto de Gift Cartões e texto de Sandra Salgado


O primeiro amor uma doce magia envolto em nobres sentimentos, expressão divina da alma. Crescidos, envolto no ciúme, na posse, em normas, o amor engessado, um jogo de domínio.


VIÇO

Viço
Imagem de Gift cartões e texto de Sandra Salgado


E a natureza sábia a fez desabrochar. E logo perdeu o viço. Desabrochar constantemente.


O TEMPO

O tempo
Foto de autor desconhecido e texto de Sandra Salgado


Queria poder parar o tempo, mas o quero vivo. Queria esticar o tempo, mas todo momento é único Queria mesmo eternizar o tempo naquele exato instante em que enlaçamos nossos corações.


CAMINHOS

Caminhos
Foto de autor desconhecido e texto de Sandra Salgado


Esse caminho meu que não é seu, esse caminho teu que não é meu. Nosso, o caminho de partilhar o de cada um de nós.


DESENLACE

Desenlace
Foto de autor desconhecido e texto de Sandra Salgado


Já não há mãos enlaçadas, em paralelo insistem no que se foi. Os reflexos, como dissipá-los, Talvez vivendo.


RENOVAÇÃO

Renovação
Foto de autor desconhecido e texto de Sandra Salgado


Absorta em mim como um gélido inverno, me reinvento sempre, volto a brotar minha primavera e mais uma vez sem flores no meu outono, volto a semear. E vem a luz, é verão.


ÓCIO

Ócio
Foto de autor desconhecido e texto de Sandra Salgado


Como parar o tempo e esperar novas primaveras se mesmo adormecidos estamos a semear novos campos?


O AMOR

O amor
Imagem do youtube, texto de Sandra Salgado


Que dança é essa de tantos ritmos, sem prévia coreografia, cada passo, um improviso, uma incógnita o final.


ADEUS

Adeus
Foto e texto de Sandra Salgado


Caminho a horas
procuro outro ponto de partida.
Caminho por lindas lembranças
chego a caminhos tortuosos
procuro a volta
não encontro.
Trôpega, ensimesmada,
persisto na caminhada, vejo outros caminhantes
cada um segue seus caminhos

Caminho a horas
procuro outro ponto de partida.
São tantos, não há mais aquele
só vejo os rastros já concretizados
não há como redesenhá-los.

Caminho a horas
o caminho é só meu.
Caminhantes passam
só os vejo, não os sinto.
Ao meu lado, uma saudade liberta
dona de mim.

Caminho a horas
procuro outro ponto de partida,
mas ele não existe
não é concreto
é sentimento que corrói

Caminho a horas
a horas que não passam.
O adeus não é um ponto
não é uma partida.
É mesmo uma erosão
só o tempo comanda
sou só uma refém