A poesia me encontrou. Encontrei-me na poesia! Concedo-lha portentosas asas para alçar longínquos voos e disseminar sonhos nos corações cúmplices e sensíveis. Que ela logre fabulosos rasantes em vastos mundos prenhes de luz e encontre, por fim, felizes e aconchegantes moradas em almas renovadas.

Simone Moura e Mendes

OBRAS PUBLICADAS




EU MESMA NUA - 1997


PREFÁCIO

A poesia de Simone

Pedro Onofre


Estava absorvido em meus pensamentos quando alguém me desperta para a realidade. Voz suave, mas impositiva. Um volume de folhas digitadas é posto sobre a escrivaninha.
- Quero que leia e comente!
Era Simone.
Folhas soltas, páginas de um livro de poesia. Peguei o caderno e, rapidamente, li alguns poemas. Foi como se beduíno eu fora, errante e sedento sob o sol do Saara, e de repente, me jogasse numa fonte de águas cristalinas e refrescantes, num oásis perdido na imensidão desértica.
Conheço os versos de Simone e jamais escondi minha profunda admiração pela inteligência e a sensibilidade dessa jovem senhora de ares discretos e introspectivos, livre no seu bosquejar poético, purista no seu linguajar, sem, contudo, perder-se em preciosismo estéril.
Sempre me esquivei de opinar sobre poetas e poesia, especialmente das novas gerações. Alguns críticos afirmam que a poesia está em crise, que os versos se acumulam, multiplicam-se, e, de pronto, são jogados ao esquecimento. Poucos lêem poesias.
A poética moderna, atingida pelo concretismo, deu ensejo, ao longo do tempo, a tal fermentação que, se por um lado revelou tesouros imensuráveis, por outro, produziu um mar de sandices. Hoje não é fácil separar-se o joio do trigo, a gema perdida no cascalho.
Na verdade, não é a poesia que está em crise, mas a cultura de um modo geral. E isso tem a ver com a massificação que despreza a elaboração cuidadosa, a honestidade artística, a construção objetiva, subjetiva e ética do que se pretende.
Mata-se a alma do povo, esmagam-se-lhe as raízes mais profundas de sua identidade, confunde-lhe a percepção da realidade, torna-o estéril, manipulável, violentado em seu senso crítico, em seu paladar físico e espiritual, para que permaneça dócil, subjugado, inerte e resignado à mais abjeta de todas as formas de dominação.
Poesia é alma. Todo ser humano a tem. Fazer versos é dar forma à poesia, corporificá-la, materializá-la. Muitos foram feitos e se amontoam esquecidos nos acervos bibliográficos, justamente porque nem todo verso possui poesia. Versejar é um exercício literário, mas fazer poesia é um extravasamento do espírito, vaticínio e sensibilidade do homem.
Por isso não considero a poética por escolas ou técnicas. Seja o poema parnasiano, modernista, concretista, ou esteja rotulado com outra classificação mais à vanguarda, procuro nele a poesia que possa conter, aquele vaticínio assim considerado pelos antigos romanos, a vidência premonitória dos que enxergam além do horizonte perceptível, o pulsar recôndito que revela sentimento verdadeiro e transcendente.
Concordo com a afirmação de que há evidente equívoco em equiparar a renovação poética à natureza ou personalidade de seus produtores: a poesia -diz Seffrin - não se renova por ser "negra" ou "feminina" - renova-se quando mulheres e negros escrevem poesia de qualidade.
Dizem que a arte é antidemocrática e antipopulista. Antipopulista, concordo; antidemocrática, não. É antipopulista porque não consegue agradar a todos. Mas não é antidemocrática. Se a arte é verdadeira, reflete a sensibilidade que a concebeu, se é expressiva, legítima e tem representatividade cultural, todos poderão senti-la, embora poucos consigam
explicá-la.
Não me impressiona a poética dos que buscam encontrar caminhos, características próprias, marcas formais que os identifiquem. Quero a poesia que transmita sentimento, que bem utilize os recursos idiomáticos para se expressar, embora sem rebusques, mas com elegância, beleza, harmonia, verdade, ausência total e absoluta de artifícios e sofismas de forma e de estilo.
Gosto da poesia de Simone Moura e Mendes. Sua poética não apresenta rodeios desnecessários, não se emplastra de maquiagem, é direta, objetiva e estruturalmente bem elaborada, entregue ao livre curso da imaginação, esparzindo em catadupas, sem hipócrita pudicícia, concebida no livre curso de um espírito superando fronteiras.
A poesia de Simone mostra raro poder de síntese e se configura na medida exata. Para atingir essa qualidade essencial, não esmaga o processo criativo, não violenta o pensamento, não deforma o conjunto tornando-o inacessível e hermético.
Talvez instintivamente, sua poética percorra alguns parâmetros do neoconcretismo, despojado daquele racionalismo excessivo imposto pela vanguarda dessa escola poética. Sem perder o rumo, não renega o elemento etéreo e da sensibilidade, no que possui de subjetivo; agregando-o ao contexto para exprimir transcendência.

"Arte, desastre
abate, embate literário
poluição visual
mera distração ociosa
efusão espiritual
comoção fatal
factual..."

A poetiza viaja como um colibri, de flor em flor, beijando estilos, livre em seus impulsos sensitivos, aparentemente num vagar caótico e angustiado de quem não sabe o que procura, mas com a doçura, a beleza e harmonia de um balé de múltiplas sensações.

"Triste criatura encarcerada
entre as grades intransponíveis
da consciência
insano pecado cometeste
mazela incurável abriste"

Da maneira como não se subjuga incondicionalmente a estilos e formas, seus sentimentos revelam-se, por vezes, contraditórios. Alçando vôos a quadrantes vários no reconditório de sua alma, ora apresenta-se otimista, esperançosa, tomada do efusivo impulso de quem deseja abraçar o sol com asas de cera; mas, quase imediatamente, ressurge tristonha, soturna, e momentos de negação, explodindo em angustiantes desabafos.

"A natureza humana
- o maior dos enigmas
só não é perseguida
por quem a vida habita
sem se ousar na inglória luta
da autotranscendência
satisfazendo-se, meramente
em atender aos apelos da carne:
sexo, pão, paixão...
perdição?!

Em outro poema:

"Letras que informam o mundo
as que me revelam o nada
pois que combinadas se permeiam
de teses, antíteses e sínteses,
incongruências e paradoxos
e diversas e complexas interpretações
e tantas certezas refutadas”.

Simone reage, sublimando subjetividade. Mergulha em si mesma e questiona o "eu". Revela-se, desnuda-se, para em seguida construir dessa matéria fluídica, disforme, magmática da alma, a matéria insopesável, a argamassa etérea, com que construirá seu universo.

"Liberto-me das amarras das tendências vãs
que me conduzem ao abismo da mesmice
das mentiras de uma sociedade mitificada
fazendo de meus delírios sãos,
minha melhor realidade."

Sensibiliza-me a poesia de Simone, a quem vejo como excelente produtora de uma poesia limpa, bem feita, cheia de humanidade, de beleza de espírito e simplicidade de forma, sem obsessão a estilos, escolas, ou a quaisquer outros liames que lhe toldem a liberdade de alçar vôos às mais incognoscíveis distâncias.
Parabéns Simone. Sua poesia merece transpor os limites de tempo e de espaço.

PEDRO ONOFRE


APRESENTAÇÃO


A tendência do poeta contemporâneo é não se deixar aprisionar por formas rígidas de conceber sua poesia. Por isso, achei-me capaz de aventurar-me nesse mundo fantástico e ilimitado da lírica, averbando-me da liberdade de versejar sobre temas diversos, dentre os quais o SER, a própria poesia, o poeta, a natureza; a vida, enfim...
Entretanto, o intimismo permanece impregnado em meus versos, vez que é a partir do meu EU que me ouso no mundo. Induvidosamente, as variadas matizes que me oferece a existência, através dos livros, das pessoas..., exercem inexorável influência na construção de minha poesia. Revelam-se, outrossim, em meus versos, traços de tudo quanto já há amalgamado em mim e que, a despeito deles não retratarem, com fidelidade, meu ser, reproduzem, tanto quanto possível, um estado de ser.
Sejam, pois, os meus versos um caleidoscópio na imaginação do leitor.
Afirmara, em certa ocasião, que “INCÓGNITA”, meu primeiro livro, satisfaria minhas pretensões literárias, eis que, consciente das minhas limitações quanto a esse âmbito, o mesmo viria como o complemento da tríade existencial (plantar uma árvore, gerar um filho e publicar um livro). A verdade é que, a cada conquista, percebo o quanto estou viva. Uma realização é sempre sucedida por um novo sonho. Foi assim que, imediatamente após a consecução de “INCÓGNITA”, fustigaram-me os germens do que seria o meu segundo livro de poemas, após o que,
o denominei “EU MESMA... NUA”. Destarte, “INCÓGNITA” foi, apenas, a concretização de um sonho inicial, acalentado desde os meus 15 anos. Insuficiente, porém, para quem já ultrapassou os 30, ciente e consciente do gráfico da existência.
Prodigamente, imagino possantes asas aos meus sonhos, pois deles se alimenta o meu existir.
A ambição de transcender está marcadamente fixada na minha essência, não se tratando, entretanto, de uma ambição desarrazoada, submetedora; trata-se de algo que anima minha existência, conduzindo-me à incessante busca da felicidade.
É essa felicidade que almejo compartilhar com minha família, amigos e circunstantes... com os seres que integram o universo.
Considero meros espectadores, os que se dizem satisfeitos com a vida. Muitos, embora sabendo, não fazem a hora, somente esperam acontecer; ficam na janela da vida vendo o passar da banda, como já cantaram os poetas.
Admiro e prezo, por conseqüência, aqueles que são incansáveis perseguidores dos seus ideais, os que não se deixam intimidar pelo pessimismo, embora tal emoção seja, também, encontradiça em meus versos. É que versejando, busco sublimar o negativismo e o desânimo de que somos suscetíveis, todos os seres humanos.
Aproveito-me, assim, de um estado de tristeza para reluzir uma poesia, sentindo-me, então, exultante e livre.
Afinal, a vida nos leva a uma flutuação entre a tristeza e a poesia. E eu... Bem, quanto a mim, sou alguém em constante refazer-se. Consagrando o que já dizia o saudoso Raul Seixas “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante/do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo....” Apesar de que, também, jaz em mim valores perenes, como o amor à família e à vida; a busca da virtude, o respeito à morte...
Minha família, meus amigos, meu trabalho, a vida acadêmica; a poesia que há em tudo, é a expressão maior do meu viver.
A “INCÓGNITA” persiste e continua em “EU MESMA...NUA”. Não a quero perder, jamais!

A autora







INCÓGNITA



PREFÁCIO

Podemos dizer que a arte de fazer poesia é uma das formas de manifestação da linguagem e podemos afirmar também, que a linguagem poética faz parte da alma do homem sensível, daquele que encontra, que descobre nas mínimas sutilezas com que se depara, um motivo para extrair dali um poema. A poesia, o verdadeiro poema, surge assim, cheio de vida e de alma e fica morando dentro da gente até que um dia resolvemos passá-la para o papel. Já dizia Keats que "se a poesia não vem tão naturalmente como as folhas de uma árvore é melhor que não venha de todo".
Atualmente nos deparamos com poetas que dominam com muita segurança a arte de versejar, com muita espontaneidade e equilíbrio. Está surgindo uma geração de poetas que pretende inovar, usando metáforas ou formas mais complicadas e esdrúxulas para expressarem os seus sentimentos: são os poemas "fechados", que nem sempre entram no entendimento do público. Existem também os menos eruditos, os mais simples, contudo, mostrando uma grande força interior. De uma solidez tão grande, que até o mais simples do verso contido no poema se torna grandioso, e fica martelando na consciência e na alma do leitor. Assim são os poemas inseridos nos originais que tenho em mãos, da jovem poetisa Simone Moura e Mendes. "INCÓGNITA", o título do livro, revela-nos que a autora, principiante agora na arte de versejar, terá, quando os maduros tempos chegarem, o seu lugar na antologia dos poetas alagoanos. Com certeza.
Simone nos diz em ANTÍTESE: sou insólita/mas invisível/federada e autárquica/ininteligível/meretriz da vida/fugida/sofrida/vencida. No poema TRANSE ela conclui: ter-te perdido/ e encontrado o sol/ nascera bêbedo com o meu hálito de ébrio/ das manhãs/das noites/das madrugadas e de todos os dias.
É assim que Simone Moura e Mendes faz poesia: simples, mas dotada de grande força e, se não nos mostra uma linguagem nova, com certeza está-nos dizendo que, mesmo dentro de um mundo tão confuso, as pessoas mais sensíveis conseguem transformar sombras em luzes; lágrimas em sorrisos; violência em AMOR e PAZ.

Anilda Leão


APRESENTAÇÃO


Sinto-me satisfeita, vitoriosa... Eis que apresento, aqui, este meu livro. Uma singela obra que pretendo literária.
Convoco-o, pois, a mergulhar fundo no universo em que estamos inserido, cada um de nós, involuntariamente, como imperativo das forças incontidas da vida.
Obviamente, nem tudo que escrevi diz respeito a mim ou sequer descreva alguma experiência que eu tenha vivenciado. Muito do que está expresso nessas páginas foi extraído de minha capacidade imaginativa. Confesso, inclusive, que nunca fui uma fiel leitora de obras poéticas, aliás, pouco entendo das formalidades que se exige na poesia; não sigo qualquer norma ou padrão e, por conseguinte, meu estilo literário alicerça-se na minha própria intuição.
As poesias que compõem este livro foram escritas em diversas fases de minha vida: a primeira - "Felicidade"- que fiz questão constasse dessa publicação, remonta aos meus 12 anos de idade. Aos 17, a poesia era parte integrante do meu ser. Em seguida, e durante longo período, achei-me incapaz de escrever qualquer simples verso. A inspiração fez latente... Resgatei-a, ressuscitei o meu "eu lírico", e segui firme com o objetivo de ultimar meu tão almejado livro.
O título da obra surgiu ainda na adolescência, quando edifiquei "Incógnita", que considero, modéstia à parte, marco significativo de minha trajetória. Ela retrata os pensamentos turbulentos de uma adolescente ansiosa e amargurada, reiteradamente torpedeada por adversidades e avalanches de questionamentos. Mesmo viva, irrequieta, determinada, jamais obtive as respostas que perseguia. Não fui uma adolescente "sui generis", mas, provavelmente, bastante identificada com as demais de todas as épocas. Desde então, decidi que, se algum dia publicasse um livro, "Incógnita" seria o seu título.
Vivi a infância imersa num ambiente conflituoso e, portanto, para mim, pouco acolhedor. A despeito de toda a atenção e amor que me foi ofertado, quase sempre me encontrava na infrutífera tentativa de resolver as crises conjugais de meus Pais. E, embora criança, fazia-me árbitro dessas crises; imagine em que adolescente vi-me transformada. Fiz-me adulta, antecipei-me ao tempo, sem dúvida, pelas culpas que já carregava em meu ombro.
Nem tudo foi espinhos, no entanto. Afinal, essas crises foram matriz e substrato para essas minhas poesias. Elas se tornaram, verdadeiramente, escape para meus momentos de aflição e angústia.
Agradeço o apoio de quantos me acolitaram em meus devaneios poéticos - meu esposo e filhos; minha mãe; ao Nilton; ao meu sogro, Murillo, pela paciência e dedicação que empenhou revisando esta obra; minha sogra; irmãos; cunhados (irmãos) e amigos.
Este livro foi o que pude realizar; mais, não pude, por limitação que me é inerente. O livro tão perseguido, está aqui, é uma realidade; como meu casamento e meus filhos. Ele é um sinal, um monumento a essa minha felicidade.
A incógnita está resolvida, no meu casamento, com meu esposo, em meus filhos; na felicidade e segurança do meu viver.

Simone Moura e Mendes