A poesia me encontrou. Encontrei-me na poesia! Concedo-lha portentosas asas para alçar longínquos voos e disseminar sonhos nos corações cúmplices e sensíveis. Que ela logre fabulosos rasantes em vastos mundos prenhes de luz e encontre, por fim, felizes e aconchegantes moradas em almas renovadas.

Simone Moura e Mendes

COMO SURGIU O BLOG

Ana Cláudia Costa Fortes Cavalcanti e
 Sandra Magalhães Salgado




CARTA À POETA SIMONE MOURA E MENDES
(Ana Cláudia Costa Fortes Cavalcanti)

Cara Simone,


Foi um gesto muito generoso de sua parte deixar em minha confiança seu baú de reminiscências.

Foram horas agradáveis submergidas nos meandros do enlevo poético. Apreendi, sorvendo avidamente, suas construções, seus caminhos e sinalizações.

Creio, acredito mesmo, que as palavras são fontes infindáveis de afagos, ensinamentos e reflexões. Ainda as mais cruas são capazes de despertar e transmutar nossas aprendizagens.

Para Fernando Pessoa as palavras eram corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Veja que a própria definição já é uma poesia, uma fonte inspiradora, um compromisso com a estética.

A escritora alagoana, Arriete Vilela tem uma estreita relação com os vocábulos e diante deles assim de coloca: tenho insistido em atar a palavra com uma linha cuja ponta não há nó.

Perante as definições acima fica fácil reconhecer em sua poesia um caminho palmilhado de realizações nas buscas pessoais. São registros dos diálogos das muitas almas inquietas que nos habitam, nas soturnas noites insones, nas ausências e reclusões debruçadas em agonias e sonhos da existência humana, levadas sob o aporte da palavra pensada e sentida.

Vejo também, um grande empenho pessoal e um corajoso desprendimento em liberar e desaguar tudo que teimamos em represar, em função de nosso próprio desconhecimento ou interpretação errônea do que sentimos ou ainda, por inseguranças e temor a censura.

É admirável tornar público, a autossabotagem que nos submetemos diariamente. Sim, pois somos relutantes enquanto protagonistas e um tanto permissivos com os nossos personagens secundários, que remetem a ilhas inóspitas e nos aprisionam em laços e grilhões, onde o protótipo de homem realizado é avivado constantemente como ideativo de vivência, esquecendo que há seres inaptos ao modelo.

Sua inspiração, certamente advinda do humanismo manifesto em suas ações diárias a torna em uma “valente menina”, como bem colocado em um poema de Vinícius de Moraes. E seguindo a linha do genial poetinha te digo:

Menina inquieta! Capaz de quebrar nossos silêncios, abrir portas para os nossos recônditos, revolver memórias, fazer rolar lágrimas, ascender luz no cerrado negrume de alguns dias imersão.

Mulher generosa! Que doa o melhor de si, filtrando, selecionando e disponibilizando sua travessia solitária, no ermo, no vago, onde só ouvir não basta para confortar. É preciso o registro febril, lânguido e até mesmo melancólico para fazer com que todos se reconheçam e se acolham nos seus infortúnios.

Torço para que continue escrevendo, que veja nos dias a fonte imprescindível para produzir. Tire de tudo que ocorre cotidianamente um poema a ser construído, uma palavra a lapidar, a esculpir e a cinzelar.

Mantenha os olhos fitos nos fatos incomuns, nas faces lívidas, nas desconstruções pessoais que prenunciam mudanças radicais, nos sonhos carcomidos, nas horas dolorosas, nas almas simples que choram nos modestíssimos quartos de bairros longínquos, na beleza imperecível do gesto caridoso, nas existências trágicas, nos hábitos impiedosamente interrompidos e no obsecante desejo por um olhar dulcificado.

Não abstraia nenhum sentimento, mesmo os menos misericordiosos precisam de uma verve que o registre. Debruce-se sobre nossas estranhezas, nossa dores, alegrias e desassossegos. Acima de tudo, continue escrevendo, criando, assentando sempre o que lhe ocorre e não deixe, como sentencia Katherine Mansfield, que a vida seja apenas um hábito.

Com um afetuoso abraço,
Ana Cláudia Costa Fortes Cavalcanti.


PRESENTE DO DIA DO AMIGO À POETA SIMONE MOURA E MENDES
(Sandra Magalhães Salgado)

“Foi um gesto muito generoso de sua parte deixar em minha confiança seu baú de reminiscências”, assim Ana Cláudia Costa Fortes Cavalcanti iniciou a carta que fez a Simone após um final de semana debruçada sobre os escritos da amiga.

E eu que já tive a mesma oportunidade, li aquela linda carta e me emocionei. E vi brilharem os olhos de Simone e ressurgir nela a valorização daquele baú que se encontrava já guardado, como se já tivesse cumprido seu papel. E me perguntei o que a levou a fechá-lo.

Como disse Ana Cláudia, em sua linda carta: “continue escrevendo, criando, assentando sempre o que lhe ocorre e não deixe, como sentencia Katherine Mansfield, que a vida seja apenas um hábito”. E eu diria que tornar a vida um hábito é tudo que pode fazer sucumbir a alma de um poeta.

E resolvi no Dia do Amigo, 20/07/2010, fazer um blog e presenteá-la. Minha intenção com este blog é fazê-la abrir este baú e, a partir dele, tudo que há contido em suas vivências e sentimentos, traduzindo-os em forma de poesia, sua expressão maior, levando-a a todos que tem sede de poesia, assim como tem levado donativos às pessoas vitimadas pelas últimas enchentes em Alagoas.

SOS Alagoas também às vítimas das enchentes de sentimentos represados!

Que a poetisa libere-os e, com eles, leve aos vitimados dessa enchente uma forma de ver a vida através de outros olhos.


Sandra Magalhães Salgado