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RETORNO
A prima soberba que morava fora havia chegado. Trazia impregnados todos os ícones que julgava ser moderno. Fazia questão de demonstrar desagrado com o ar provinciano de sua família. Cada vez que retornava a vê-los, fortalecia-se assegurando que tinha feito à escolha certa, quando deixara tudo, absolutamente tudo para trás, inclusive gratidão e decência, coisas que estavam em desacordo sua modernidade.
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tARDIOSAS
Enquanto as tardes passavam tediosamente, palavras acrobáticas insistiam em aparições, eram frases desconexas, construções difusas, acabava de inventar uma tardiosa (tardes+tediosas) e veio seguida de imagens tão irreais quanto improváveis. Era inevitável estar ali, tinha que ficar. Vez por outra ouvia vozes longínquas que supunham dirigidas a ela, muito embora não tivesse plena certeza disso.
Aliás, também não gostava das certezas, elas são tão estreitas. Convicção mesmo só a das palavras desafiadoras. Vivia e movia-se por elas. Nesse instante ouve e repete um trecho da música Caçador de mim: longe se vai sonhando de mais, mas aonde se chega assim, vou descobrir o que me faz sentir eu caçador de mim...
Mesmo assim o enfado não passava e busca outra solução, recitaria infinitamente fragmentos diversos das poesias de Vinícius de Moraes que tanto ama e começou: ... de repente do riso fez-se pranto, silencioso e branco como a bruma... Agora mais outro – fez –se da vida uma aventura errante, de repente, não mais que de repente.
Decidiu ficar recitando para si só mais esse: seus olhos minha amada são cais noturnos cheios de adeus, são docas mansas trilhando luzes que brilham longe, longe dos breus...
Jurou que para aquele dia só mais esse verso: Em ti bendigo o amor das coisas simples.
Ana Cláudia Costa Fortes Cavalcanti
iNTERVALO
Sua natureza cíclica sinalizava que estava agora no intervalo de uma sobrevida, por isso, não se importaria em ser redundante em seus afetos. Diria sim, o quanto amava e sentia prazer em prestar homenagens nas mais diversas formas. Era recorrente a ideia de ofertar uma paisagem do acervo que colecionava em sua mente, bem como os registros que fazia em um pequeno bloco de anotações. Naquelas páginas armazenava uma profusão de pensamentos indomados, palavras selvagens e imagens difusas, entretanto, autoral, era o seu mundo, povoado de seres e coisas passíveis de compreensão pela sintonia que os unia. Por essa razão, não haveria receio de expor suas manias estranhas, estanhas manias. Talvez entendesse que ali ecoava uma voz em gestação, ávida pelo nascimento de palavras licorosas, densas.
Ana Cláudia Costa Fortes Cavalcanti
cIRCUITO CHIQUE E BARATINHO
Chique é um conceito pessoal e intransferível, cada um tem um próprio a esse respeito, entretanto, estar disposto a avaliar novos e interessantes conceitos passa a ser mais um item, para ampliar o modo chique de ser.
Reciclar e economizar na atualidade são imprescindíveis, logo, são novos e bons hábitos a serem incorporados, reciclar desde objetos cotidianos até ideias retrógradas, que se mantidas aprisionam e tolhem potencialidades.
Há palavras que ficam implícitas outras tantas. Chique é uma delas, que remete a glamour, a luxo, estética, pois é mesmo toda essa conexão que propomos aqui, é um luxo conhecer lugares intocáveis, preservados pelo homem moderno, é de bom gosto vislumbra a multiplicidade de cores e tons de nossos mares, contemplar como os poetas a estética perfeita do balé dos coqueirais, tal qual musas que dançam para seus versos.
É mesmo muito elegante aceitar as diversidades humanas, é de bom tom esforçar-se para atender os que suplicam ajudam.
E quanto custa tudo disso? Quase nada, caso nos predispusermos ao chique se ser despojados, receptivos e inovadores.
Ana Cláudia Costa Fortes Cavalcanti
VASO AZUL
Desde criança adquiriu o hábito de guardar coisas irrelevantes a muitos, entretanto importantes para ela. Botões, fivelas, cadarços, bilhete da entrada do circo, embalagens da caixa de uva passa, invólucros de balas e um vaso azul, quebrado, dividindo ao meio a gravura de um casal enamorado, sentado em um banco de um jardim muito florido.
Não, não podia desprezar o que tanto prazer lhe dava. Como nas fábulas, personificava objetos; dava vida e os fazia falantes e muitos vivos para interagir com seu mundo, muito a parte dos demais.
Escondida, em sua grande tenda, logo abaixo de sua cama, diariamente juntava os namorados do vaso quebrado e ofertava passas e ingressos para irem de mãos dadas ao circo. Queria vê-los juntos degustando o doce conteúdo, daquela caixinha vermelha.
Ah! O botão e a fivela eram amuletos de pertencimentos, só os dois teriam, era uma sinalização, um enigma decifrável somente por eles.
Ana Cláudia Costa Fortes Cavalcanti
2.500 CARACTERES
É o consentido. Leve em consideração as pausas, conte com elas. Recebeu assim a notícia da materialização dos sonhos.
Pediu que repasse as instruções.
___ Sim, isso mesmo, é o seu limite, não esqueça que as pausas contam.
Devia questionar as pausas? Claro! Eu bem sei, quantas tive que fazer até chegar a ver uma existência aportada sobre registro palpáveis. Levaria em consideração também o mutismo desses anos. Assim conseguiria cumprir com a exigência.
Experimentou a sensação de materializá-los. Era uma alegria híbrida, uma felicidade reticente.
Ainda precisava de sua certeza racional para saber se foram contemplados tal qual papeis deixados ao acaso e olhados acuradamente.
Ana Cláudia Costa Fortes Cavalcanti
FIOS
Sob a cumplicidade de lençóis que repassas os dias. Reservada, tenta remendar uma existência tecida em fios inconsistentes.
Refugiada em sombras, vê afetos servidos a boca, presencia a demarcação de posse.
Ao amanhecer, no espelho resiste em ficar, cara a cara com inexprimíveis palavras.
Resolvida, faz rascunhos irrevelados, com versões confidenciadas e apartadas.
Ana Cláudia Costa Fortes Cavalcanti
DIGRESSÕES
À medida que a sonolência dos dias passava não era infrequente uma expressão contrariada. Um abusado avesso sempre a acompanhar por desafetos ocasionais.
Questionava-se fazendo tormentosas digressões que findavam por umedecer o olhar, acrescendo dores mais agudas.
Melhor pensar não. Tinha que sacolejar um hábito que, de tão incorporado tornou-a, hesitante na soleira, estática à porta. Alimentava-se sentido que por perto estava; e agradecida por perceber doces necessidades, por colorir sua retina.
Ana Cláudia Costa Fortes Cavalcanti
EM MEU CORAÇÃO
Imóvel, com os olhos serrados na escuridão de um frio recinto, tentava se aquecer buscando palavras contidas em sua coleção de caixas. Mentalmente tentava adivinhar em que caixa guardou cuidadosamente os mundos de Adélia Prado, Cora Coralina, Manoel de Barros, Zandoná, Clarice Lispector, Vinícius de Moraes, e claro, Milton Nascimento, Ivan Lins e tantos outros para quem sempre será estranha a eles e não eles a ela. Como na música, ela os levará em seu coração, aonde quer que vá estarão sempre consigo.
Ana Cláudia Costa Fortes Cavalcanti