A poesia me encontrou. Encontrei-me na poesia! Concedo-lha portentosas asas para alçar longínquos voos e disseminar sonhos nos corações cúmplices e sensíveis. Que ela logre fabulosos rasantes em vastos mundos prenhes de luz e encontre, por fim, felizes e aconchegantes moradas em almas renovadas.

Simone Moura e Mendes

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O martírio de um tricolor

“Perdeuuuu, perdeuuuuu, zebra, de novo! Vasco: 2; Fluminense: 0! Zeeebra, de noooovo!!!” Foi sempre assim, por meses a fio. Nem precisava ser o Vasco, seu time do coração, não importava qual fosse o adversário, bastava-lhe que derrotasse o Fluminense. Infantilizava a voz, imitava a “zebrinha” – antigo personagem do “Fantástico” – para torpedear o compadre tricolor com gozações. Fazia-o sempre através de um orelhão, a fim de não ter o número de seu celular identificado.
Todos sabiam da zombaria e ninguém ousava delatar o criativo e renitente perseguidor vascaíno. Quanto mais tempo durasse aquela aura de mistério na mente do perseguido, mais diversão renderia para todos. Aliás, não faltava quem lhe telefonasse para fornecer o resultado do jogo todas as vezes em que o Fluminense sucumbia, com o fito de acordar a “zebrinha”.  Até seu filho, também, vascaíno, robusteceu a zombaria.
No começo, o atormentado torcedor do Fluminense guardou certa paciência, convicto de que descobriria o autor de tais trotes, por si mesmo – seria algum amigo, é óbvio, pensava ele. “Por favor, rapaz, identifique-se! Você está perturbando a minha rotina, azucrinando a minha vida familiar, o meu trabalho. “Quem está falando, agora? Mas não é possível!”E vinha de lá: “agora é o Gustavinho, filho da “Zebrinha”, seu time perdeeu, perdeeu, perdeuu, de noooovo, zeeeeebrabaaaaá! Ceará: 1; Fluminense: zeeeeero”. O tricolor, então desiludido, passando a ver de longe qualquer possibilidade de agarrar o pescoço do seu perseguidor, até fazê-lo estrebuchar, começou a perder a compostura. Pensava: “e aquele número de celular, que eu nunca vi, de quem será? Esses filhos disso e daquilo... Um dia eu descubro e, mesmo sendo meus amigos, vão me pagar, ah se vão!”
“Zebrinha” e o filho “Gustavinho” sempre animavam os ambientes, cada um dentro do seu universo social; extraíam gargalhadas ruidosas dos ouvintes, ao contarem suas peripécias; e ganhavam cada vez mais estímulo para darem asas às gozações. O compadre tricolor, por seu turno, certamente, não lamentava o mero fato de ser alvo dessas chacotas, porque ele mesmo as fazia com outros personagens, por qualquer tema que os incomodasse.  Sua frustração residia em não descobrir quem estava do outro lado da linha.
Em sua casa, as pessoas alternavam-se em atender ao telefone, na tentativa de extraírem alguma pista do “safado”. Sua esposa, mulher de fino trato, já recebia tais ligações com uma chuva de impropérios, que romperiam inclusive os tímpanos mais sensíveis: “vá arranjar um lavado de roupa! Você deve ser um político nojento que deixa a conta do celular para o contribuinte pagar; blá, blababá...” E de lá: “doutora, você tá tão maleducada!”. Rsrsrsr... Puff e tum, tum, tum...
Desconfiava que fosse mesmo o compadre, por sua fama de brincalhão; mas a certeza não resistia a uma resposta negativa daquele quando estavam olho no olho. “Compadre, se é você, diga logo!”. E, sempre que o compadre pensava em confessar as traquinagens, os cúmplices no entorno rogavam-lhe perseverar. Certo dia, estava saindo do cinema com sua esposa, que se alternava entre a cumplicidade e o achar que a brincadeira já havia rendido o suficiente, quando o compadre tricolor ligou: “olha, compadre, sobre os trotes de que lhe tenho falado, cara, eu não os tolero mais; acho que vou procurar uma delegacia”. De lá, o “lobo disfarçado de cordeiro”, respondera: “mas, e se o delegado for flamenguista? Ele, no mínimo, vai rir de você...”
Nem um nem outro desistia. Um, de descobrir, e o outro, de persistir. Estavam, com as respectivas famílias, numa festa de aniversário. Um “insight” assaltou a mente do tricolor. Investigou, portanto, a agenda do celular do compadre, que, de chofre, logo antevira sua ruína. Estava lá gravado o contato do seu filho, aquele que se proclamava “Gustavinho”. O sangue lhe ferveu. Por não se ser possível prever as próprias condutas, abandonou a festa na companhia da família. Os amigos comuns e não-comuns lamentavam o término da diversão... Alguns deles estavam vingados: um, por ser flamenguista; outro, por já ter sido alvo das brincadeiras do tricolor...
Alguns meses transcorreram no reino do absoluto silêncio entre eles. O Fluminense retomou o fôlego e ingressou numa fase gloriosa. Os compadres, rindo, cada um por suas razões, voltaram ao clima de irmandade. Deram uma bola para cada time e foram perturbar outras vítimas – não somente vítimas, mas vítimas de uns e algozes para outros.

Simone Moura e Mendes

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