“Perdeuuuu,
perdeuuuuu, zebra, de novo! Vasco: 2; Fluminense: 0! Zeeebra, de noooovo!!!” Foi
sempre assim, por meses a fio. Nem precisava ser o Vasco, seu time do coração,
não importava qual fosse o adversário, bastava-lhe que derrotasse o Fluminense.
Infantilizava a voz, imitava a “zebrinha” – antigo personagem do “Fantástico” –
para torpedear o compadre tricolor com gozações. Fazia-o sempre através de um
orelhão, a fim de não ter o número de seu celular identificado.
Todos sabiam
da zombaria e ninguém ousava delatar o criativo e renitente perseguidor
vascaíno. Quanto mais tempo durasse aquela aura de mistério na mente do
perseguido, mais diversão renderia para todos. Aliás, não faltava quem lhe
telefonasse para fornecer o resultado do jogo todas as vezes em que o
Fluminense sucumbia, com o fito de acordar a “zebrinha”. Até seu filho, também, vascaíno, robusteceu a
zombaria.
No começo, o
atormentado torcedor do Fluminense guardou certa paciência, convicto de que
descobriria o autor de tais trotes, por si mesmo – seria algum amigo, é óbvio,
pensava ele. “Por favor, rapaz, identifique-se! Você está perturbando a minha
rotina, azucrinando a minha vida familiar, o meu trabalho. “Quem está falando,
agora? Mas não é possível!”E vinha de lá: “agora é o Gustavinho, filho da
“Zebrinha”, seu time perdeeu, perdeeu, perdeuu, de noooovo, zeeeeebrabaaaaá! Ceará:
1; Fluminense: zeeeeero”. O tricolor, então desiludido, passando a ver de longe
qualquer possibilidade de agarrar o pescoço do seu perseguidor, até fazê-lo
estrebuchar, começou a perder a compostura. Pensava: “e aquele número de celular,
que eu nunca vi, de quem será? Esses filhos disso e daquilo... Um dia eu
descubro e, mesmo sendo meus amigos, vão me pagar, ah se vão!”
“Zebrinha” e o
filho “Gustavinho” sempre animavam os ambientes, cada um dentro do seu universo
social; extraíam gargalhadas ruidosas dos ouvintes, ao contarem suas
peripécias; e ganhavam cada vez mais estímulo para darem asas às gozações. O compadre
tricolor, por seu turno, certamente, não lamentava o mero fato de ser alvo
dessas chacotas, porque ele mesmo as fazia com outros personagens, por qualquer
tema que os incomodasse. Sua frustração
residia em não descobrir quem estava do outro lado da linha.
Em sua casa,
as pessoas alternavam-se em atender ao telefone, na tentativa de extraírem
alguma pista do “safado”. Sua esposa, mulher de fino trato, já recebia tais
ligações com uma chuva de impropérios, que romperiam inclusive os tímpanos mais
sensíveis: “vá arranjar um lavado de roupa! Você deve ser um político nojento
que deixa a conta do celular para o contribuinte pagar; blá, blababá...” E de
lá: “doutora, você tá tão maleducada!”. Rsrsrsr... Puff e tum, tum, tum...
Desconfiava
que fosse mesmo o compadre, por sua fama de brincalhão; mas a certeza não
resistia a uma resposta negativa daquele quando estavam olho no olho. “Compadre,
se é você, diga logo!”. E, sempre que o compadre pensava em confessar as
traquinagens, os cúmplices no entorno rogavam-lhe perseverar. Certo dia, estava
saindo do cinema com sua esposa, que se alternava entre a cumplicidade e o
achar que a brincadeira já havia rendido o suficiente, quando o compadre tricolor
ligou: “olha, compadre, sobre os trotes de que lhe tenho falado, cara, eu não
os tolero mais; acho que vou procurar uma delegacia”. De lá, o “lobo disfarçado
de cordeiro”, respondera: “mas, e se o delegado for flamenguista? Ele, no
mínimo, vai rir de você...”
Nem um nem
outro desistia. Um, de descobrir, e o outro, de persistir. Estavam, com as
respectivas famílias, numa festa de aniversário. Um “insight” assaltou a mente
do tricolor. Investigou, portanto, a agenda do celular do compadre, que, de
chofre, logo antevira sua ruína. Estava lá gravado o contato do seu filho,
aquele que se proclamava “Gustavinho”. O sangue lhe ferveu. Por não se ser
possível prever as próprias condutas, abandonou a festa na companhia da
família. Os amigos comuns e não-comuns lamentavam o término da diversão...
Alguns deles estavam vingados: um, por ser flamenguista; outro, por já ter sido
alvo das brincadeiras do tricolor...
Alguns meses transcorreram
no reino do absoluto silêncio entre eles. O Fluminense retomou o fôlego e
ingressou numa fase gloriosa. Os compadres, rindo, cada um por suas razões, voltaram
ao clima de irmandade. Deram uma bola para cada time e foram perturbar outras
vítimas – não somente vítimas, mas vítimas de uns e algozes para outros.
Simone Moura e
Mendes

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