A poesia me encontrou. Encontrei-me na poesia! Concedo-lha portentosas asas para alçar longínquos voos e disseminar sonhos nos corações cúmplices e sensíveis. Que ela logre fabulosos rasantes em vastos mundos prenhes de luz e encontre, por fim, felizes e aconchegantes moradas em almas renovadas.

Simone Moura e Mendes

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Sabiam dizer "naice tumitiu"

“Greve dos bombeiros impede pousos e aterrissagens no aeroporto de Maceió”. Notícia bombástica para quem passara meses programando assistir à formatura da filha em outro país. Seria isso um mau presságio? Os radares do marido estavam atentos a qualquer sinalização dos seus anjos de guarda. “Seja o que Deus quiser!” – foi a manifestação resignada da esposa.  Aeroporto liberado, primeiro obstáculo superado.
O casal partiu como se estivesse a enfrentar uma corrida de obstáculos, onde o segundo, e mais grave, a depender do porvir, seria a pouca intimidade com o inglês. Munidos de um livrinho que ensina que “nice to meet you” se fala “naice tumitiu”, marido e mulher sublimaram o medo, premidos pelo desejo de abraçarem a filha, que sabiam ansiosa para tê-los presentes quando atirasse o quepe ao alto – como nos filmes.
Superaram o trejeito carrasco de um descendente de coreano na imigração, apresentando-lhe um documento onde dizia da graduação de sua “daughter”: “oh congratulation, guys!!”. Na verdade, nada deveriam temer a exceção da cuscuzeira e dos pacotes de fubá de milho que carregavam na mala, pois o livrinho não lhe ensinaria como traduzir para o inglês. Mala? Que mala?! Extraviara numa das conexões. Aliás, é o que dá montar pacotes a preços módicos na internet! Quatro dias virando o lado das peças íntimas ou comprá-las na primeira oportunidade.
É força abrir um parêntese para destacar que a filha introduzira o “brigadeiro” na pequena cidade de hum mil habitantes, ao norte dos Estados Unidos – subtraindo muitos “oh my God!” -, e pedira aos pais que a propiciassem inserir o cuscuz na culinária americana. Valia à pena correr riscos em obséquio a mais essa satisfação daquela brava garota, que, por sua vez, seguiu a receita da mãe na elaboração da iguaria, esquecendo-se, contudo, de que o fubá de milho se transforma em cuscuz com a fervura da água posta na parte inferior da cuscuzeira. Resultado: massa crua e panela queimada.
Voltando à corrida de obstáculos.
 Área do check-in doméstico do aeroporto de Los Angeles. Os dois acordaram de um cochilo nas cadeiras, ao som dos aspiradores sugando o pó dos impecáveis carpetes, e acordaram com o burburinho de uma fila a perder de vista, de pessoas de nacionalidades várias, a revelar a incomensurável criatividade de Deus pelas infinitas fôrmas de modelar. Embora chegassem primeiro, estavam distante do início da fila – os primeiros seriam os últimos. Que fila, afinal? Mostravam o ticket a um, a fila era uma; mostravam a outra, a fila era a de outra companhia. Unidet ou Continental, quem diria o certo? Na descompostura do desespero, o marido suplicou: “please, help me! I don’t speak english”! Foi esse o passaporte para Denver, local da próxima conexão, de onde voaram num minúsculo avião - que, por sinal, o encheram de orgulho, porquanto era da Embraer -, até chegar em Des Moines. Ufa!
Comprovante apresentado no balcão da Alamo Rent a Car, o resto parecia ser fácil – mas, por que fornecer o cartão de crédito se as despesas foram pagas no Brasil? “Sorry, i don’t speak english!” Com um sorriso cordial, a resposta foi imediata: “oh, i’m sorry, i don’t speak portuguese!”. Todavia, a entrega do cartão foi feita e o contrato de aluguel restou devidamente assinado, sem receio de estarem sendo ludibriados, afinal, estavam nos Estados Unidos, onde ser honesto é obrigação, e não exceção.
Incrédulos, à custa do GPS, avistaram a placa “Welcome to Sheffield”. A alegria transbordou no abraço trocado com a filha. “Quem tem boca (?) vai e volta de Sheffield”.

Simone Moura e Mendes

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