“Greve dos
bombeiros impede pousos e aterrissagens no aeroporto de Maceió”. Notícia
bombástica para quem passara meses programando assistir à formatura da filha em
outro país. Seria isso um mau presságio? Os radares do marido estavam atentos a
qualquer sinalização dos seus anjos de guarda. “Seja o que Deus quiser!” – foi
a manifestação resignada da esposa. Aeroporto liberado, primeiro obstáculo
superado.
O casal partiu
como se estivesse a enfrentar uma corrida de obstáculos, onde o segundo, e mais
grave, a depender do porvir, seria a pouca intimidade com o inglês. Munidos de
um livrinho que ensina que “nice to meet you” se fala “naice
tumitiu”, marido e mulher sublimaram o medo, premidos pelo desejo de abraçarem
a filha, que sabiam ansiosa para tê-los presentes quando atirasse o quepe ao
alto – como nos filmes.
Superaram o
trejeito carrasco de um descendente de coreano na imigração, apresentando-lhe
um documento onde dizia da graduação de sua “daughter”: “oh congratulation, guys!!”.
Na verdade, nada deveriam temer a exceção da cuscuzeira e dos pacotes de fubá
de milho que carregavam na mala, pois o livrinho não lhe ensinaria como traduzir
para o inglês. Mala? Que mala?! Extraviara numa das conexões. Aliás, é o que dá
montar pacotes a preços módicos na internet! Quatro dias virando o lado das
peças íntimas ou comprá-las na primeira oportunidade.
É força abrir
um parêntese para destacar que a filha introduzira o “brigadeiro” na pequena
cidade de hum mil habitantes, ao norte dos Estados Unidos – subtraindo muitos
“oh my God!” -, e pedira aos pais que a propiciassem inserir o cuscuz na
culinária americana. Valia à pena correr riscos em obséquio a mais essa
satisfação daquela brava garota, que, por sua vez, seguiu a receita da mãe na
elaboração da iguaria, esquecendo-se, contudo, de que o fubá de milho se
transforma em cuscuz com a fervura da água posta na parte inferior da
cuscuzeira. Resultado: massa crua e panela queimada.
Voltando à
corrida de obstáculos.
Área do check-in doméstico do aeroporto de Los
Angeles. Os dois acordaram de um cochilo nas cadeiras, ao som dos aspiradores sugando
o pó dos impecáveis carpetes, e acordaram com o burburinho de uma fila a perder
de vista, de pessoas de nacionalidades várias, a revelar a incomensurável
criatividade de Deus pelas infinitas fôrmas de modelar. Embora chegassem
primeiro, estavam distante do início da fila – os primeiros seriam os últimos.
Que fila, afinal? Mostravam o ticket a um, a fila era uma; mostravam a outra, a
fila era a de outra companhia. Unidet ou Continental, quem diria o certo? Na
descompostura do desespero, o marido suplicou: “please, help me! I don’t speak
english”! Foi esse o passaporte para Denver, local da próxima conexão, de onde
voaram num minúsculo avião - que, por sinal, o encheram de orgulho, porquanto
era da Embraer -, até chegar em Des Moines. Ufa!
Comprovante
apresentado no balcão da Alamo Rent a Car, o resto parecia ser fácil – mas, por
que fornecer o cartão de crédito se as despesas foram pagas no Brasil? “Sorry,
i don’t speak english!” Com um sorriso cordial, a resposta foi imediata: “oh,
i’m sorry, i don’t speak portuguese!”. Todavia, a entrega do cartão foi feita e
o contrato de aluguel restou devidamente assinado, sem receio de estarem sendo
ludibriados, afinal, estavam nos Estados Unidos, onde ser honesto é obrigação,
e não exceção.
Incrédulos, à
custa do GPS, avistaram a placa “Welcome to Sheffield”. A alegria transbordou
no abraço trocado com a filha. “Quem tem boca (?) vai e volta de Sheffield”.
Simone Moura e
Mendes
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