Adotei o padrão de escrever minhas crônicas na
terceira pessoa. Normalmente, com o escopo de esconder alguém, ou a mim mesma,
entre as personagens – um nome fictício, ou, simplesmente, “ele(a)”, “fulano”,
“sicrano”. Entendo que esse mimetismo confere certa aura de mistério ao texto.
Nego-me, porém, a camuflar-me aqui. Esse eu, sou eu mesma. A subscritora, ora
em posição de confitente.
Possuía versos, ainda, datilografados, em papéis
amarelecidos pelo efeito do tempo; sôfregos, tímidos, em meus alfarrábios.
Ensaios poéticos produzidos em surtos, dos 12 aos 30 anos de idade.
É isso. A conta pode não bater, mas foram 15 anos
divididos entre o sonhar de imortalizar-me numa coletânea poética (existencial)
e o não querer resoluto, indômito... Um estado de catalepsia alimentado pela
insegurança pueril, quando, peremptoriamente, uma personagem de uma de minhas
crônicas (Aninha, minha cunhada/irmã) sentenciou-me: “dê-me já estas folhas,
Sil, que ausculto o destino que poderão ter!” – ela é medica do corpo e da
alma. Pronto. Uma luz!
Uma discípula pronta que fez a mestra aparecer?
Vejamos. Falando de meu sonho à minha mãe, disse-me
que conhecia Anilda Leão. Desenhou-ma num pedestal: “uma espírita maravilhosa,
uma artista valorosa... E poetisa, viu?”. É mesmo, Mamãe?! Leve-me a ela, pois
quero mostrar-lhe meus poemas.
No agradável jardim de sua residência, sentava à
frente da mestra (sim, da mestra Anilda), com dedos dos pés encarando-se. Eu, a
pretensa discípula, aguardava o veredicto de quem já me havia advertido de que
costumava ser franca em suas avaliações, quando, para quebrar o clima e fazer
meu sangue voltar a fluir, respondi-lhe, em tom jocoso, que se estivesse
somente a pretender elogios, teria mostrado meus versos somente à minha mãe -
risos.
Anilda corria os olhos nos versos com ar
indefinido, enquanto eu congelava. Seu parecer foi lacônico: “é poesia,
menina”. Respirei. Vale a pena publicar, Anilda? “É claro que vale! E eu
estarei lá no lançamento” – cumpriu a promessa. Então, meu pedido é que me faça
um prefácio.
Agora, Anilda, tenho mais que um prefácio. Um
testemunho vivo imortalizado nas páginas de meu primeiro livro (Incógnita,
1997). Para mim, de valor inestimável, um documento histórico, de onde extraio
este excerto: “Existem também os menos eruditos, os mais simples, contudo, mostrando
uma grande força interior. De uma solidez tão grande, que até o mais simples do
verso contido no poema se torna grandioso, e fica martelando na consciência e
na alma do leitor. Assim são os poemas inseridos nos originais que tenho em
mãos, da jovem poetisa Simone Moura e Mendes. "INCÓGNITA", o título
do livro, revela-nos que a autora, principiante agora na arte de versejar,
terá, quando os maduros tempos chegarem, o seu lugar na antologia dos poeta s
alagoanos. Com certeza.”
Confesso-lhe, Anilda, que esses maduros tempos não
chegaram. E, talvez, jamais cheguem. Um lugar minúsculo na antologia dos poetas
alagoanos, quem sabe? Certamente, um vidro distinguido por estar entre tantos
diamantes, que teve o privilégio de figurar na lavra de uma imortal,
amorosamente recebida na “Ilha”, por Carlos Moliterno.
Simone Moura e Mendes
(Publicada em O
Jornal, edição de 21/01/2012)


Parabéns pelo Incógnita e lhe digo: Já li Anilda Leão e Carlos Motiterno e os adoro.
ResponderExcluirEspero que as palavras dela se concretize em sua vida.
Também sou um daqueles que a leio e aprecio os seus textos.
Abraço!