A poesia me encontrou. Encontrei-me na poesia! Concedo-lha portentosas asas para alçar longínquos voos e disseminar sonhos nos corações cúmplices e sensíveis. Que ela logre fabulosos rasantes em vastos mundos prenhes de luz e encontre, por fim, felizes e aconchegantes moradas em almas renovadas.

Simone Moura e Mendes

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O Meirinho Poeta

Fiel escudeiro do magistrado daquele bucólico rincão banhado pelo “Velho Chico”. Por sua grande compleição, de meirinho não queria ser chamado. Oficial de justiça seria mais apropriado, mais consentâneo com o seu porte de homenzarrão investido da simbólica espada da justiça preparada para ser desembainhada, não lhe quisessem dar atenção.

 “Como é que é, meu algoz grandão, você pretende mesmo minhas terras penhorar?” Com a voz temendo fugidia, retrucara: “ não sou eu quem o quer, meu camarada, só estou aqui, sob o império da lei, para cumprir uma ordem judicial; vossa senhoria vai até a Vara e comprova o pagamento da execução e de suas terras volta a fruir, deixando a condição de executado”. “Afinal, meu algoz, esse juiz usa toga ou abadá?”. Oficial de Justiça ou meirinho, nem a cabeça deveria menear, a fim de não dar margem a falsas interpretações; optara, então, por concordar com desconjuntadas acusações, em virtude de lograr suas poesias continuar a recitar.

Num outro longínquo rincão de sua jurisdição, em que nele somente chegara à custa de perguntar “onde fica” ali e acolá, pois que nenhuma placa lhe havia a indicar. Um município que não chamaria sequer de povoado, pois nele havia uma única rua de barro terminada numa praça rodeada pela igreja, delegacia, prefeitura, mercearia e funerária. Ali, sentado num resto de banco, à sombra de uma amendoeira, arriava-se um homem barbado com a camisa fechada apenas por um botão, decerto para não aprisionar sua grande pança. Relaxava com um palito de dente na boca, que lhe extraía os resíduos incômodos da carne de bode servida na refeição. “Boa tarde, senhor! Gostaria de encontrar o prefeito da cidade”. “Se o procura com boas propostas políticas, é esse quem vos fala; caso contrário pode dar o fora, pois estou do almoço a descansar”. “Sou oficial de justiça”, impávido respondera. “Ah, desculpe-me o mau jeito. É só atravessar a rua, entrar naquele prédio azul, e citar o procurador”.         

Não, não convinha, contudo, saberem os citados que, a despeito de navegar seu veículo por distantes caminhos hostis e lugares inóspitos, a fim de cumprir sua temerária missão, transita com poesias a dormitarem em seu coração; que na verdade, não dispunha de couraça, capacete ou adarga. Mas tão-somente de versos e rimas prontos para formar estrofes, ao longo de seu regresso pela trilha do mar, que serão debulhadas aos colegas de instituição - os servidores burocráticos, protegidos pelos birôs, na oportunidade em que a conta dos mandados cumpridos fosse prestar. Senão versos a recitar, jocosas histórias ele traria na cartola, recolhidas de suas idas e vindas, de porta em porta, de porteira em porteira, com uma diligência à mão, quase sempre trocada por ameaças, impropérios, ou, no mínimo, um olhar de insatisfação.

Simone Moura e Mendes

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Lançamento na Fliporto 2011

 Luiz Berto, Marcos Mairton, Luiz Otávio Cavalcanti, Geraldo Pereira, Maurício Melo e Simone Moura e Mendes 
 Marcos Mairton, Simone Moura e Mendes, Geraldo Pereira e Maurício Melo 
 Sandra Magalhães Salgado, Marcos Mairton, Luiz Otávio Cavalcanti, Geraldo Pereira, Maurício Melo e Simone Moura e Mendes
Marcos Mairton, Luiz Otávio Calcante e Simone Moura e Mendes

Marcos Mairton, Luiz Berto e Simone Moura e Mendes (no estande da Ed. Bagaço)

Dia 12/11/2011, às 19 h, Na Fliporto 2011, em Olinda/PE, foi lançada, pela Editora Bagaço, "Cronistas Internautas - uma coletânea de crônicas organizada por Luiz Otávio Cavalcanti, colunista do JBF. No universo dos 14 cronistas de diferenciadas localidades do Brasil, figura a alagoana Simone Moura e Mendes, com a crônica "Imagem e Ação nos EUA", que esteve presente na ocasião na companhia de seu esposo Cláudio. Igualmente, marcaram presença os cronistas Marcos Mairton, Maurício Melo, Geraldo Pereira e o próprio Luiz Otávio. O evento contou com o prestígio de Luiz Berto e sua esposa Aline, além de Sandra Magalhães Salgado, sua filha Rafaela e a irmã Suzana.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

“Movido a álcool só o motorista”

Existem mesmo pessoas de má sorte? Ou que estejam determinadas ao fracasso? Caso cada criatura seja artífice de seu destino, como muitos acreditam, ele está a traçar o seu sem régua nem compasso. Talvez seja mesmo verdade que muitas vezes não aja de acordo com a prudência, como, por exemplo, quando abusa da bebida e aventura-se na direção. Aliás, seu estado de elevado teor etílico é logo denunciado aos amigos, quando seus olhos saltam do globo ocular, o que lhe rendera a alcunha de “Sapão”.
Certo dia, subiu na garupa da moto de um amigo a fim de tomar umas cervejas e conversar amenidades num dos aprazíveis bares da Massagueira. Comer siri de coral e sururu às margens da Lagoa do Mundaú, após cocada de leite condensado e, também, de maracujá, a título de sobremesa. Isso não era lá um programa que costumasse jogar fora, máxime naquele delicioso sábado, em seu primeiro dia de férias.
Uma cerveja, uma piada, uma galhofa, um causo... As horas correram a galope, delatadas pelo declínio do sol e a aparição tímida da lua. Ele, um pouco menos ébrio que o amigo, não dispunha de prática em pilotar moto. Entretanto, pelo modo em que o companheiro se erguera do banquinho não conviria arriscar-se à tutela de sua direção.
Conseguiram passar ilesos pela ponte da Massagueira. Contudo, até chegarem à Ponte Divaldo Suruagy, foram contabilizadas seis quedas mato adentro, sem conseqüências, exceto uns minúsculos arranhões, afinal, a velocidade não ultrapassava 20 km. A cada tombo, quando quase refeitos do surto de risos “pastosos” e algumas (des)considerações, resolviam revezar-se na condução da moto. Chegaram ao destino, enfim. Sorte: boa ou má?
Pudesse ele estar tomando algumas cervejas, mas em sonho. Seu veículo, ou “transporte”, como costumava, desditosamente, denominá-lo, repousava na calçada de casa, depois de um dia de grandes deslocamentos a serviço das atividades profissionais. Um motorista, desrespeitoso quanto à abstinência etílica cautelar dos dias úteis, precipitou-se sobre o “transporte”, infringindo-lhe o famoso “PT” – perda total. Não estava segurado, então “PT saudações”.
Com o propósito de que pudesse dar consecução aos seus misteres, foi agraciado pelo empréstimo do veículo de lazer de um amigo, que dele se apiedou quando viu a quantidade de carnês e promissórias entulhadas em cima da mesa, numa visita de cortesia. Chuvas torrenciais na cidade de Maceió, quando o carro emprestado dormitava no mesmo local de costume. Uma impiedosa rajada de vento arrancou a árvore pela raiz, sob a qual estava o veículo, que não pôde encontrar o chão porque este a impediu. Partido ao meio, foi alvo de reportagem televisiva, assistida “ao vivo e a cores” pelo amigo misericordioso – o dono do carro.
Detalhe: nenhum dos dois veículos acidentados eram movidos a álcool.
Simone Moura e Mendes

sábado, 5 de novembro de 2011

Tosquiador da desesperança

Poderia ter sido enredo de “Vidas Secas”, se contemporâneo de Graciliano Ramos fosse. Mas sua vida não foi registrada por nenhum biógrafo, não servira de inspiração para nenhum romancista. Cada linha está escrita na tela de sua mente. Na medida em que vai sendo recontada, num qualquer repente, suscita ouvintes boquiabertos ao deparar-se com a superação encarnada num homem altivo, sábio, ponderado, forjado para o improviso. Um coração generoso costurado com pele de jacaré, o de um nordestino genuíno.
Conta que, pouco a pouco, seus irmãos iam sendo dizimados pelas mazelas, até hoje, campeadas no sertão cearense, onde rico era quem dispunha de um jegue. A seleção natural urdida pela miséria poupou apenas sete de uma dúzia dos filhos de seus destemidos pais, cuja única fortuna era a inquebrantável fé. Quando um adoecia, normalmente, açoitado pela disenteria, seus resignados genitores já o recomendavam a Deus. “Venha, meu filho, vamos cortar tábuas para o caixão de seu irmãozinho, que, pelo estado de abatimento, de amanhã não passa”. Chorar não deveria para não desperdiçar água, pois cada lágrima o corpo cobraria. Aliás, ainda que tentasse infringir essa regra de sobrevivência, antes que a lágrima se precipitasse o sol causticante a secaria.
Desse irmão a morte desistiu, porque a vida lhe requisitou para pastoreio de muitas ovelhas. Com a família reunida em assembleia, uma decisão foi tomada: deixaria aquelas plagas de solo sulcado, de terra desidratada, onde desfrutava de dignidade humana aquele que conseguisse respirar. Com as tábuas cortadas para o caixão, confeccionou uma mala. Os pertences da casa foram nela acondicionados e os “andrajos” das nove pessoas da família, em dois sacos de açúcar. Num velho jipe, que fazia o serviço de transporte de retirantes, em condições pior do que “pau de arara”, seguiu comendo poeira por longas horas. Entrou na estatística do êxodo rural. Chegar a Fortaleza foi a conquista da “terra prometida”. Romperia os grilhões da fome, salvaria a prole da ignorância.
Nessa capital, que estômago cheio prometia, seu pai foi servil à construção civil. Na casa de taipa e chão batido, em um distante subúrbio, hauria-se a atmosfera de um lar. Com os trocos de cada feira, ia substituindo parede por parede por alvenaria: um tijolo unido a outro, unidos com a argamassa do amor, preparada com o suor de cada dia.
A vida foi dando indícios de melhora. Ele, por sua vez, aos sete anos conhecera escova de dente, de que não mais prescindiu para cumprir as regras básicas de higiene. Quanto a seus pais, que sequer sabiam acompanhar o tracejado das letras na cartilha, sempre sonhavam com os filhos doutores.
Somente aos nove, ele foi alfabetizado. Fez teologia e entregou-se, também, à missão de pastorear ovelhas e tosquiar qualquer desesperança. Bacharelou-se em Direito e prestou concurso de nível superior. Por muito pouco não galgou a magistratura em outro concurso prestado. Por enquanto, busca ser pastor das ovelhas perdidas às margens do “Velho Chico”.
Simone Moura e Mendes