A poesia me encontrou. Encontrei-me na poesia! Concedo-lha portentosas asas para alçar longínquos voos e disseminar sonhos nos corações cúmplices e sensíveis. Que ela logre fabulosos rasantes em vastos mundos prenhes de luz e encontre, por fim, felizes e aconchegantes moradas em almas renovadas.

Simone Moura e Mendes

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O descaminho do arroz doce

Dona de certas bizarrices dignas de nota(?). Detesta cebola, odeia pimentão, não gosta de churrasco, café, chá, arroz doce, sopa fora de casa – aliás, toma sopa, às vezes, por algum obséquio à sua saúde. Há alguns anos, foi passar, com o marido e os filhos, o final de semana na casa de casal de amigos, em Aldeia; no dia anterior, na ocasião de escolher os gêneros alimentícios no supermercado, o anfitrião, ansioso por impressionar as visitas com uma estada farta, quis saber da esposa do quê a amiga gostava: “gosta disso?” Não! “Gosta daquilo?” Nãão!! E daquilo outro? Nããããooo!!! “Paciência, mulher, o que sua amiga come, finalmente?” Olhe, amor, que eu saiba, queijo, castanha e caranguejo...
Coitado do marido dessa criatura, quando não encontra companhia para dividir o prato num restaurante, fica restrito a uma ou duas opções do cardápio; isso, quando não tem de escutar a esposa “garçom, quero essa prato nº 08, mas exclua a cebola, o pimentão, isso e aquilo”. Quando o vê indócil, indaga-lhe: “como é que à beira de 24 anos de casamento, você ainda não se acostumou com isso? Deixe eu me resolver com o garçom, rapaz!
Conta-se que, em visita à capital americana, sentou com o esposo e um casal de amigos num restaurante que servia pratos rebuscados, na sua opinião, é óbvio. Após sondar todo o cardápio – como costuma fazer quando sai para comer pizza, e, alfim, escolhe sabor milho verde com mussarela –, não confiou em fazer qualquer pedido por não saber traduzir todos os ingredientes escritos em inglês. “Não estou com fome” – foi o jeito mentir para não provocar maiores polêmicas. Dirigiu-se à vitrine de comida e descobriu um pão de bonita aparência; quando todos à mesa se deliciavam com suas escolhas, ela, com a maior naturalidade, sem o mínimo indício de ironia, desabafou, para surpresa dos demais: “gente, pense num pão bom!!!!” – isso virou piada.
Ela sabe que mastigar um pedaço de cebola pode causar-lhe o maior vexame, é como se estômago virasse, involuntariamente, pelo avesso, tão violentas são as náuseas. O marido, por sua vez, tivera de abdicar desse gosto, por preferir ter seus beijos apreciados pela esposa, que tanto lhe aprecia o hálito in natura; portanto, desde sempre, mantém a dieta como se não comer cebola fosse cláusula de um pacto antenupcial.
Sua ojeriza a arroz doce, no entanto, tem um passado histórico. Antes de casar, morou dois meses com a avó, que comia de marmita. Todos os dias, antes de ir ao trabalho, fazia-lhe o mimo de deixar o café da manhã disposto na pequena da cozinha: duas rodelinhas de inhame, duas fatias de queijo coalho e, invariavelmente, uma porção de arroz doce, preparado com a sobra da marmita do almoço da véspera – jogar comida fora? – nem pensar! As privações materiais de alguma época lhe serviram de lição. Destarte, “o restô dontê” era customizado.
A neta passou a ficar meio inapetente – até desconfiava por que; só conseguia ingerir metade do queijo, metade do inhame, mas o arroz doce aparentava-lhe nauseabundo. Cheia de culpa, punha-o num saquinho e, numa atitude politicamente incorreta, em várias vertentes, jogava-o no esgoto da esquina, com receio de decepcionar as boas intenções da vovó, até que não suportou o peso na consciência e confessou a transgressão ao namorado – hoje marido - que, por seu turno, lhe recomendou jogar a “iguaria francesa” no vaso sanitário e dar descarga. Até os dias atuais, a despeito de a avó padecer de Alzheimer, suplica-lhe não conta o descaminho do arroz doce.
Não obstante rogar aos seus filhos, desde que eram bem pequenos, que se alimentem com verduras, frutas, grãos integrais, pouca gordura, ela mesma, mantém quase os mesmos hábitos alimentares dos tempos de tenra. Com propósito de brincar com sua própria limitação – muito inconveniente, por sinal, sobremodo, quando se encontra em ambientes de pouca intimidade -, diz que seu paladar só tem tolerância por aquilo que começa com “c” – sim, alguns, porque a cebola é com “c”. Então, gosta de Cláudio, castanha, caranguejo, “queijo”, “siri”, camarão, camurim, cioba, carapeba, cerveja, chocolate... - huuummm! Contudo, essa brincadeira esconde meia verdade.

Simone Moura e Mendes

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Rumo à fonte da juventude



É cediço que, desde tempos imemoriais, a humanidade lança-se em busca da fonte da juventude. A indústria de cosmético, mercê da vaidade feminina, investe forte em pesquisa de novos produtos, em tratamentos que retardem o efeito deletério, inexorável do tempo. O Apelo é voraz e as mulheres se rendem, gastam vultosas quantias em cremes, massagens, em inumeráveis tratamentos que, muitas vezes, prometem até o quê estão longe de cumprir.

Incorruptível em face de tantas sugestões e demandas, uma médica, especializada em dermatologia, aderiu à prescrição de poucos tratamentos preventivos, somente aqueles em que pode creditar bons resultados, optando, pois, pelos curativos, a sanarem marcas, dores e conseqüências nefastas. Mas ela é mulher. Portanto, suscetível aos enredos prometedores em benefício próprio.

Pois bem, estava em seu consultório, quando uma paciente lhe indagou se ouvira falar na lama rejuvenescedora de Brejo das Freiras. Ouvidos atentos, memorizou mais que instantaneamente todos os detalhes de como faria para lá chegar. A propósito, conjecturou: “uma aparência de uns cinco anos a menos não me causaria mal algum... Huummm!”. Perspicaz que é, convenceu às mulheres da família a instarem aos homens a rumarem em excursão ao dito lugar, onde teria um hotel acolhedor. Resultou que toda a família, inclusive, seu pai e sua mãe, atraíra-se pela aventura (?).

O ônibus não era bem o que se podia denominar de “leito”. Eufóricos, porém, foram todos cantando “se esse ônibus não virar, olé, olé,olá, a gente chega lá”. Ainda à longa distância do destino, em local ermo e, normalmente, sitiado por bandidos, o ônibus quebrou. Um dos irmãos, conhecedor da fama da região, sustentara que não ficaria ali até o socorro chegar. Conseguiu parar um ônibus, em péssimo estado de conservação, que estava a levar as beatas para a igreja de uma cidade próxima. Por excesso de lotação e falta de documento, embrenhou-se nas estradas vicinais, estreitas e de barro.

A certa altura do caminho, o ônibus, na tentativa de passar por um caminhão em sentido oposto, nele se enganchou. Os homens desceram e subiram na capota do ônibus na busca de empurrá-lo lateralmente e propiciar a progressão de ambos os veículos. O pouco avanço ia fazendo com que o caminhão quebrasse os vidros das janelas do ônibus, ao tempo em que se desenvolvia o choro em coro das crianças, a reza das beatas, os gritos de “aí Meu Deus”, das mulheres... Conseguiram chegar, em alta madrugada, num simplório hotel, onde todas as acomodações já estavam ocupadas. Alguns dormiram nas poltronas da recepção, uma das mulheres foi banhar as filhas, lourinhas dos olhos azuis.

No raiar do dia, o ônibus que os levaria ao pretendido lugar chegara com o problema equacionado. Ufa!!!! Pé na estrada até o fim se noutro ponto não houvesse quebrado novamente. Dessa vez, a carona foi numa “van”, que, ao ser detida para averiguação num posto policial, apresentou ao guarda o documento de um Passat e, subrepticiamente, uma nota de cinco reais - para espanto geral aquilo era de praxe. Os tantos contratempos faziam a comandante da caravana sentir-se fuzilada com os olhos por todo o grupo. A fim de minorar seu abatimento moral, ela pensava: “se o hotel for mesmo bom, vai compensar esses episódios fatídicos e todos logo deles esquecerão”. Chegaram, enfim, já com o sol em ponto máximo. Estavam no ápice da exaustão e não se ativeram aos detalhes externos do perseguido resort (?). Não puderam, contudo, deixar de sentir o cheiro entorpecedor do mofo, de notar o formigueiro ativo plantado no meio do quarto.

O reencontro no saguão não foi nada amistoso. Ela, a condutora do grupo, quis levantar o moral de todos pondo expectativa nos possíveis atrativos do hotel, nos da cidade e, mormente, no efeito auspicioso da lama. A piscina logo saíra do páreo, eis que sua aparência era de completo abandono; a trilha que levaria às pegadas de dinossauro, de que teve conhecimento, com que humor seria empreendida? “Moço, moço, onde a gente pode encontrar a lama que faz rejuvenescer?” Pergunta ela a um funcionário passante. “Hum, lama?! Acolá tem um pouco, quer que eu lhe traga num balde?”. Agora, sim, tinha certeza: seria trucidada.

Salvar-lhe-ia a cunhada que lhe mencionou ter uma promessa a Padre Cícero a ser paga no Juazeiro/CE, não muito distante dali. Afinal, passar a Semana Santa escutando censuras naquele local “onde o vento fazia a curva” não era dos melhores programas. Com o resquício de crédito de que dispunha, conseguira persuadir ao grupo a passear na pitoresca Juazeiro/CE – uma decisão utilitária. Se o ônibus não houvesse, mais outra vez, quebrado até seria capaz de convencer aos familiares a um passeio futuro... Quem sabe até mesmo uma excursão ao oco do mundo?!

Simone Moura e Mendes

Ideário pulverizado

Dá para aspirar o cheiro do ar prometedor
dá para navegar no oceano da liberdade
nos ideais democráticos dos Trabalhistas
que compunham a Carta de Lisboa

Dá para embrenhar-se na ânsia dos exilados
dos engajados, reunidos no além-mar
uníssonos, em prol da amada pátria Brasil
na esperança de desatar o nó da opressão
que imolava a alma de seus irmãos

As idéias libertárias vão se despindo da essência
desvirtuam-se nos atalhos dos que se locupletam
a partir da ignorância nutrida com a ilusão de saciedade
da bondade disfarçada que, na verdade, é sanguessuga
parasitária da boa-fé de uma vampirizada população

O ideário é pulverizado na redundância da ambição
o sacramento comungado promove a escravidão
o povo, de quem todo o poder emana, é raquítico
faz-se de opróbrio da elite no após de cada eleição
segregados nos guetos, permanece em desolação
estatística da miséria, militante da alienação

Simone Moura e Mendes

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Vejam o que aconteceu na 11ª edição do Projeto "Justiça à Poesia

Simone Moura e Mendes, apresentando o projeto
Yúlia Amaral, acompanhada de Alberto Mirindiba, Marcos Farias, Fabinho e Marco Túlio

Desembargador João Leite de Arruda Alencar, acompanhado por Alberto Mirindiba, Marcos Farias, Fabio e Marco Túlio

Tadeu Costa, declamando "Justiça à Poesia", de sua autoria


Marta Angélica Martins, declamando "Palavras", da autoria de Simone Moura e Mendes

Sóstenes Lima, acompanhado por Marcos Farias



A tarde do dia 5 de setembro de 2011 foi celebrada com a 11ª edição do Projeto Justiça à Poesia. Essa edição foi aberta pela estagiária de jornalsmo Yulia Amaral, interpretando as músicas “Amado” (de Vanessa da Mata) e “Morena tropicana” (de Alceu Valença).
Os servidores Alberto Mirindiba (violão), Marcos Farias (voz e violão), Sóstenes Lima (voz e violão), o artista Fabinho (violão), da Banda Time Machine e o advogado Marcos Túlio (violão), também, efetivaram sua adoção ao projeto, fincando um marco na história do projeto.
Desembargador João Leite de Arruda Alencar, com participação inédita, surpreendeu a plateia com a música “O mundo é um moinho”, do compositor Cartola. Após isso, fez o registro de sua alegria em poder participar do Projeto.
O servidor Tadeu Costa, do Serviço de Apoio às Execuções, recitou duas poesias de sua autoria: “Justiça à Poesia” (em homenagem ao Projeto) e “Segredos de Liquidificador”.
Por sua vez, a declamadora oficial do projeto, a servidora Marta Angélica, da 3ª VT, recitou, acompanhada da clarineta do servidor Márcio Pedrozo, a poesia “Palavras”, de Simone Moura e Mendes (diretora da VT de Penedo). O servidor Sóstenes Lima, em atendimento ao clamor da plateia, deu seu tom ao evento com a música “Histórias de Pescador”, de sua autoria.
A participação de Marcos Farias, mediante a execução das músicas “O vento traz você” (de sua autoria com Alberto Mirindiba), “Saudade” (de Alberto Mirindiba), “Linda Juventude” e “Todo azul do mar” ( de 14 Bis), simboliza uma salutar conexão dos servidores da Capital os do Interior, pelo que o Projeto Justiça à Poesia agradece a gentileza do juiz titular da Vara do Trabalho de Porto Calvo, Laerte Neves de Souza, por liberar o referido servidor para esse evento.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Medos grandes de pequenos seres

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O sentir mais intensamente os estímulos do ambiente era explicado por Freud como sintoma da histeria dissociativa. É o caso, por exemplo, do medo de barata, de rã, de lagartixa... Afinal, o que esses minúsculos animaizinhos teriam de tão ameaçador que pudesse fazer com que um indivíduo de 1,80m pudesse escalar uma mesa na frente de uma plateia, sem o mínimo pudor, senão pela simbologia a eles atribuída? O medo, esse sentimento eminentemente humano, produz condutas involuntárias, derivadas de associações inconscientes, dissociadas da realidade concreta; é capaz de provocar as mais inusitadas condutas: tanto a ação como a inação, ou seja, a fuga ou a paralisia. Certamente até mesmo o imperador mongol Genghis Khan temeria algo que não lhe fosse essencialmente ameaçar.
Nesse diapasão, um grupo de amigos, reunido para um café no término de mais um expediente, tomara como mote o susto que uma rãzinha provocara em alguém nessa ocasião para confessar seus medos. Cada um que os ilustrasse com as situações peculiares por que passara, descrevendo-as com toda a teatralidade de que fosse capaz. Uma, dissera do seu terror dentro de um banheiro porque o guardião da porta era um sapo enorme; confessara, ademais, temer todo o ser saltitante ou voador que nela pudesse precipitar: rã, barata, esperança, besouro... “Não, com esses não estou nem aí, mas não me apareça uma aranha; por mínima que seja, largo tudo e saio correndo.” – adverte o outro, como a fazer entender que sequer lhe aparecessem com aranha de plástico.
Um dos relatos dominou a atenção de todos: “estava recém-casado. Eu e minha esposa, deitados numa esteira de palha, na varanda de uma casa de campo, embrenhados no bucolismo do lugar, sob uma lua dadivosa, imaginávamos São Jorge a abençoar-nos, a cravar sua espada em quem nos quisesse açoitar. Estávamos a prometer-nos corpo e alma indissociados... Eu contemplava a aura de minha esposa, mas também sua silhueta revelada pela luz tênue da noite. Nesse ínterim, estava ela a sentir algo repousado em seu quadril; ao descobrir que não era minha mão, teve a certeza de que se tratava de uma rã de bananeira. No salto do bicho, desarvorados, saltamos nós com a destreza gerada pelo pânico... Por minha vez, nunca mais desejo enfrentar tamanho asco”.
“Vocês sabiam que em algum lugar desse prédio há um jacaré perdido?” Como haveria de ser? Era verdade. Um dos colegas havia encomendado uma dada quantidade desses bichos, no escopo de sua criação em cativeiro. Ao recolher a caixa em que estavam guardados, a fim de levá-los para a sua propriedade, percebera que havia um a menos. Com o auxílio dos companheiros de trabalho, envidou a procura do réptil fujão, que jamais fora encontrado. Daí, quando dele todos houverem esquecido, estaria já criado e indomável...
Com o jacaré no pensamento ou sob a tela do inconsciente, a mais medrosa do grupo recolhera-se. Como de praxe, devorara algumas páginas de um livro - lia Rosseau. Uma lagartixa aproveitara-se de seu estado de abstração e saíra detrás do armário rumo aos mosquitos. No susto da leitora, regressou ao esconderijo. A inocente lagartixa suscitara-lhe a lembrança do jacaré, passando a tomar a sua forma e a sua ferocidade. Custoso, muito custoso fora concentrar-se no livro, dele desistindo, afinal. Contudo, mais difícil ainda seria o regresso ao mundo real e entregar-se ao sono...

Simone Moura e Mendes