A poesia me encontrou. Encontrei-me na poesia! Concedo-lha portentosas asas para alçar longínquos voos e disseminar sonhos nos corações cúmplices e sensíveis. Que ela logre fabulosos rasantes em vastos mundos prenhes de luz e encontre, por fim, felizes e aconchegantes moradas em almas renovadas.

Simone Moura e Mendes

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Um salto ao passado


Num salto, voltei a um passado longínquo
vi-nos faceiras, de calcinha “bunda-rica”
cabelos revoltos e sorrisos desdentados
a costurarmos vestidinhos de boneca
sem nos importar se a rua era torta
se morreríamos ou se “Inês era morta”

Vi-nos no pequeno quintal de areia preta
a parodiarmos macaco, nos galhos da goiabeira
produtora de saborosos frutos de polpa branca
bem mais doce que a insipidez de nossas infâncias
por nós adocicadas com as nossas brincadeiras

Sem direito à escolha, por contingência da vida
sem dizermos adeus, fomos medrar distantes
sem nos distanciarmos das maviosas lembranças
das quimeras que enfeixaram as nossas infâncias

Nas diversas militâncias, nos tantos embates
fizemos das horas a composição de nossas histórias
conquanto alguns abates, vencemos combates
e ensinamos aos nossos filhos o valor da amizade

Simone Moura e Mendes

domingo, 24 de julho de 2011

A subversão dos valores humanos

Sua vida é pautada no fazer justiça, no encontrar meios, consentâneos com o princípio da razoabilidade, de proteger o defectivo econômico em face da força suprema do capital. Conforme lhe grita o caso concreto, arrima-se, não somente no ordenamento jurídico, como também na sociologia e filosofia jurídicas, sem se destituir dos princípios éticos e morais em que foi forjada sua formação pessoal.

Como de costume, acordou cedo. Além dos agradecimentos, rogou a Deus que lhe impregnasse de sabedoria para desempenhar com nobreza o papel de dizer o direito das partes, que no dia vigente sempre fizesse melhor que no antecedente. Beijou os filhos, dissera-lhes o tanto que os ama, aplicou-lhes os cuidados e as orientações pertinentes, sem se descurar dos mais mínimos detalhes. Desceu para a parte baixa da cidade, em direção ao seu local de trabalho, onde se realiza, na existência física e espiritual.

Ao avistar o mar, abriu o vidro do seu carro, respirou fundo e concentrou-se na imensurável grandeza das obras de Deus, naquilo que jamais o ser humano arremedaria. Era salutar desligar-se dos litígios jurídicos, ora silenciados nos autos dos processos, no banco traseiro, a fim de que a serenidade do mar inspirasse a sua vocação conciliadora.

O trânsito, que fluía dentro da normalidade, ia ficando cada vez mais congestionado. O que teria acontecido? E o que quer que fosse foi bruto, subtraiu-lha daquele estado contemplativo. Justamente no cruzamento anterior ao seu destino, um veículo havia abalroado uma motocicleta. Os curiosos disputavam espaço no local; os motoristas reduziam a marcha à quase inércia, em prol de uma espiadela; não, contudo, para prestar auxílio, tão-só no afã de satisfazer sua atração pelo trágico.

O piloto da motocicleta coxeava de um lado para o outro; apresentava indícios de necessidade de cuidados médicos. O motorista, por sua vez, a despeito de qualquer aparente avaria na lataria do veículo, com o capuz aberto, esmerava-se em averiguar, ainda assim, a eventual existência de algum dano no motor. Era só o que enxergava, aliás – um possível prejuízo material, essencialmente remediável. A preocupação, além de sua, transferiu-a aos circunstantes, certamente, na intenção de utilizar-se de uma testemunha, se fosse o caso. E o piloto da motocicleta claudicando...

A índole justiceira daquela jovem ficou perplexa. Ao vivo, assistia à submissão da dignidade da pessoa humana ante a super valoração da propriedade. E perplexa, foi fazer o que lhe cabia fazer, bem ali, no prédio da justiça. Foi cumprir o ideal a que se propunha, desde sempre, e sufocar o realismo animal protagonizado pela sociedade capitalista, individualista: a subversão dos valores humanos.

Simone Moura e Mendes

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Show imperdível


A banda alagoana especializada nas músicas dos Beatles, Os Beesouros, apresenta:

Please Please Me, o primeiro LP dos Beatles realizado ao vivo, na íntegra!

Dia 29/07/11, 20h, no Cine SESI Pajuçara - Maceió/AL.

Show em apoio a causa da Associação dos Celíacos de Alagoas:

"Alimentação sem Glúten para uma Vida Melhor".

A "intolerância ao glúten" é bem mais assustadora que a rebeldia dos jovens dos anos 60, porém, com esclarecimentos e cuidados profissionais é possível "viver melhor"...


Serão apresentadas ao vivo as canções do primeiro LP da maior banda pop-rock de todos os tempos.

A banda capricha nos detalhes técnicos utilizando réplicas dos instrumentos originais da época, bem como fideliza os arranjos vocais e musicais, passando pelos tons e sequência originais da ordem das músicas (lados A e B).

Uma noite imperdível onde a boa música, diversão e responsabilidade social estarão juntas.

Um show imperdível!

Informações:

- Nutrição & Saúde (3221-1803) com Carla;
- VideoSom (3336-7616) com Jair; ou
- no próprio Cine SESI na Pajuçara (bilheteria), com Felipe

Um beatle-abraço!

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Inquietação

Deito, levanto, ando, descanso
acordo, durmo, sonho
não paro

Ouço música, canto, discordo
pensamentos insistentes, insensatos
passeio, sento, passeio
não paro

Coço a cabeça, encontro caspas
arranco os cabelos, não fico calva
escrevo, penso, paro
mesmo parando
não paro

Penso no caso, ao acaso
não existe caso, eu não caso
espero o ocaso
caso com o sol, sem nexo, sem sexo
não paro

Respiro, aspiro, inspiro
o ar esfria, resfrio
a tudo conquistei
a nada inspiro

Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro "Incógnita)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Mais “lumbriga” que os da roça

Foto Nando Malta
Pessoas de hábitos singelos, de vida intensa e deliberadamente oferecida em favor do bem-estar de muitos de seus semelhantes. Exercem os misteres, na forma que a vida urbana lhes demanda, durante os dias úteis da semana: ela, como médica, ele, como engenheiro. Acompanham a formação dos dois filhos bem de perto, a fim de não darem ensejo a eventuais desvios a que a juventude se suscetibiliza. Cuidam da organização do lar, compartilhadamente. Tudo, porém, com o mínimo de estresse.

Chegado o fim de semana, assoberba a camioneta de víveres e o que mais de necessário para uma estada minimamente confortável, e sobem a serra pela estrada de massapé, margeada por canaviais, na busca de um refrigério na vida bucólica de sua pequena fazenda, localizada na zona da mata alagoana. Dividem as tribulações cotidianas, entre si e as galinhas, bodes, cavalos, sapos, cachorros e outras criaturinhas daquele habitat. Banham-se com os filhos no açude, colhem as minhocas da terra a fim de fisgarem peixes, que são logo tratados pela moradora da propriedade. Cavalgam a fim de melhor explorarem, de aspirarem às belezas da região.

Sem qualquer vocação a eremitas, não raras vezes, convidam amigos e familiares a se regalarem com o aconchego daquele lugar, serenarem as mentes, reenergizarem-se nas nascentes que se derramam por entre a pequena reserva de Mata Atlântica, esmeradamente preservada no interior da diminuta gleba; fazerem trilha por entre a vegetação nativa, colherem frutas do pé... Sentirem Deus falando por meio de cada organismo vivo.

Num desses feridos prolongados, esses afáveis anfitriões receberam quatorze pessoas, entre familiares e agregados. Época de festa junina, o serenado lugar foi conspurcado pelos estrondos de rojão e por outras ruidosas manifestações da alegria dos convivas. Logo, na primeira noite, ouvia-se de longe a assembleia extraordinária dos sapos, e eram coaxares de indignação ante os decibéis descomunais. A natureza se acomodou, por fim, e até o céu conteve o choro.

As primeiras refeições foram fartas: canjica, milho verde, cuscuz de milho e de arroz, bolo, ovo de capoeira, sucos naturais, queijos e pão torrado, no desjejum. As galinhas do terreiro, abatidas longe dos olhares citadinos, garantiam o almoço. Os anfitriões, por outro lado, não contavam com tanta disposição e gula dos parentes. Refeição após refeição, atônitos, assistiam ao vertiginoso declínio da fartura, tementes da completa escassez.

Último dia, último desjejum. A providente anfitriã desceu o morro até a casa do morador. “Seu Zé Ciço, Seu Zé Ciço, socorro! Ceda-me o fubá de milho da ração dos cachorros, que nada mais há para ser acompanhado pelos derradeiros ovos com salsicha”. “Credo, Dra. Ana, o povo acabou com todo aquela cumida? Pode carregar a mistura que truce da fêra ontem. Eita que parece que esse povo da cidade tem mais lumbriga que o de cá da roça”.

Preparado o cuscuz misto: resto de fubá de arroz e o de milho subtraído daquele de categoria inferior, comprado a fardo para alimentação dos cães. Todos perceberam que deviam comer com parcimônia, a fim de que ninguém voltasse com fome para a Capital. Quis um do grupo dizer algo, engasgou e quando o ar saiu, todos os presentes testemunharam “au, au, au...”
Simone Moura e Mendes

terça-feira, 5 de julho de 2011

9ª edição do Projeto "Justiça à poesia"

Luiz Alberto Machado, Chico de Assis, Marcos Vinícius, Wilma Araújo, Vanessa Gonçalves, Dra. Adriana Câmara, Marta Angélica Martins, Simone Moura e Mendes, Delaide Scolni, Dr. Alonso Filho, Márcio Pedrozo, Ana Cláudia Costa F. Cavalcanti (escondida), Edson França e Diogo André
Marta Angélica Martins declamando "Da Seiva da Lagoa Mundaú", de Simone Moura e Mendes
Wilma Araújo e Marcos Vinícius
Dr. Alonso Filho
Chico de Assis
Dr. Essi Queiroz (Advogado)
Nessa segunda-feira (04/07/2011), a equipe da 3ª Vara do Trabalho de Maceió, em proveito às férias da Juíza Titular e poeta, Alda de Barros Araújo, levou, em caráter itinerante, a 9ª edição do Projeto Justiça à Poesia para o hall da 10ª Vara do Trabalho. Isso, graças aos indispensáveis acolhimentos do poeta e Juiz Titular daquela Unidade, Dr. Alonso Filho, e da Magistrada e, também, poeta, então, no exercício da titularidade, Dra. Adriana Câmara, ambos, presentes naquela oportunidade, bem como do Diretor de Secretaria Marcos Santos e dos servidores da Unidade.

No evento, sob a assistência entusiasmada dos jurisdicionados, magistrados, dentre eles, a Dra. Sara Barrionuevo, servidores, diretores e advogados, foram merecedores de acalorados aplausos: o músico, poeta e escritor LUIZ ALBERTO MACHADO, que inaugurou as atividades com a apresentação do cordel de sua autoria, Tataritaritatá, seguido de um animado xote e da música “Nunca Chore Por Mim”, composta com Santanna, O Cantador; a declamadora oficial do projeto MARTA ANGÉLICA MARTINS, que deu lume poético recitando as poesias “Da Selva da Lagoa Mundaú”, da poeta, cronista do cotidiano e servidora da 3ª VT, Simone Moura e Mendes, e o “O amor silencioso”, de autoria da Magistrada Adriana Câmara; a cantora alagoana WILMA ARAÚJO, finalista do 22º Prêmio da Música Brasileira (Canta Noel), sob o violão de Marcos Vinícius, que entoou “Quem Me Levará Sou Eu”, de Dominguinhos, “Sabe Você”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, e “Tocando em Frente”, de Almir Sater e Renato Teixeira; o juiz titular da 10ª VT, ALONSO FILHO, que, apesar de estar em gozo e férias, prestigiou o evento cantando e tocando a música “Meu Verdadeiro Valor”, de sua autoria; O ator global CHICO DE ASSIS, que declamou Vinícius de Moraes (“Soneto da Separação” e “Soneto da Fidelidade”, este último enquanto Wilma Araújo cantava “Eu Sei Que Vou Te Amar”), encerrando sua participação, no êxtase da plateia, com a declamação do poema “2 de Fevereiro", do escritor alagoano Emanoel Fay; o advogado ESSI QUEIROZ, que encantou o público presente com a declamação de duas poesias, sendo uma delas de Perillo Doliveira, “Conselho”.

A secretária-geral da presidência, Vanessa Gonçalves e a escritora Clara Gawendo (autora de “Misha e Eu”), mais uma vez, ali estiveram para renovarem sua estima ao projeto.

sábado, 2 de julho de 2011

Modorra interrompida

Estava numa modorra relaxante a prometer-lhe uma noite de um sono restaurador. Ah! Nada como os lençóis tépidos a acariciar-lhe o corpo numa estação invernal! Teria lindos sonhos com borboletas multicores adejando girassóis em campos verdejantes... Nem mesmo lhe incomodava o dedo nervoso do marido teclando os canais da televisão, como se a procurar uma programação jamais existente, ou, caso existisse, os roncos sempre lhe tomariam a dianteira.

Uma lembrança repentina de um fato consumado tomou de assalto o marido. Não quis esperar o dia seguinte para relatá-lo à esposa e sequer previa o grau de interesse que pudesse ter para ela. Mas os vários dias decorridos, desde que dele tomara conhecimento carrearam-lhe um sentimento de urgência. Tocara levemente no ombro da esposa, que não reagiu. “Amor, amor, está acordada?” – que pergunta inoportuna, incongruente! “Hum, hum, hum? Ainda sem noção espaço-temporal. A pergunta seguinte a tirou por completo do estado de obnubilação: “você tem um primo chamado Dioclécio?” – É verdade que o eufemismo nunca foi muito a sua prática – disso sabia a esposa, mas...
Dioclécio? Tenho, sim! – respondera-lhe a esposa de modo peremptório, num misto de querer apreender o porquê da pergunta e a necessidade de retomar a modorra introdutora do sono severamente interrompida. “Então, tinha, porque ele morreu!
Simone Moura e Mendes