A poesia me encontrou. Encontrei-me na poesia! Concedo-lha portentosas asas para alçar longínquos voos e disseminar sonhos nos corações cúmplices e sensíveis. Que ela logre fabulosos rasantes em vastos mundos prenhes de luz e encontre, por fim, felizes e aconchegantes moradas em almas renovadas.

Simone Moura e Mendes

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Da seiva da Lagoa do Mundaú

Mulher refeita pelos raios do arrebol
a Deus agradece a luz salvífica
incrustada dentro dos pretos capotes
sob as águas da Lagoa do Mundaú

Com suas mãos de marisqueira
dia após dia, tece a trama do futuro
e com o orgulho de uma alagoana
de mente fortificada pelo fosfato
encaminha seu filho à escola

Não o verá nos semáforos a esmolar
limpando os parabrisas dos abastados
vendendo mariola em troca de um trocado
nem cortando os pés nos capotes do sururu
ou ao léu, nos becos, cheirando craque e cola

Chafurda na lama, mas respira esperança
e altiva, não prescinde do ar da dignidade
vai à cata do sururu que lhe dá o angu
enleva-se, eleva-se, louva o grande Deus
reverencia a Lagoa do Mundaú

Já cansada, queda-se ao declinar do sol
não sem antes beijar do filho a face
ensinar-lhe a lição, um princípio ético
bendizer a sobrevivência à custa do sururu
dessa rica seiva da Lagoa do Mundaú

Simone Moura e Mendes

terça-feira, 21 de junho de 2011

Chame-me de Jesus

Ir à Praia do Francês aos sábados era programa mais que sagrado para um casal de paulistas radicados em Maceió. Sentavam-se, relaxadamente, à beira do mar sob o guarda-sol de um restaurante – na verdade, uma barraca de praia - de uma família de conterrâneos, que, a despeito de torcer pelo São Paulo, oferecia tratamento vip ao casal corintiano. O marido, como de praxe, se regalava com seis cervejas, sempre servidas pelo mesmo garçom; era, igualmente, costumeiro prestigiar as iguarias dos ambulantes, cuidadosamente, eleitos em seus respectivos seguimentos: as patinhas de caranguejo do Seu José, o coquetel de abacaxi com leite condensado do Saci, o acarajé do Tatá, a ostra do Seu Severo, o queijinho na brasa da Dona Maria...

Durante um ano inteiro, considerando que a esposa ocupou os sábados nas aulas de pós-graduação, em psicologia organizacional, o marido passou a levar a sogra, que se sub-rogava no papel daquela, na condição de sua companhia; um exemplo um tanto quanto inusitado, a oferta de uma irrefutável prova de que o mito da sogra megera a ele não se aplica. Sua satisfação de fazer-se acompanhar da sogra era endossada pelo fato de tê-la como parceira na cerveja, enquanto a esposa, quando muito, suporta um coquetel de abacaxi, ainda assim, fazendo careta. No declínio do dia, ia buscar a amada e, naturalmente, contava-lhe das fofocas cambiadas com a sogra acerca dos praieiros passantes: o velho careca com a mulher 30 anos mais nova, a mulher que entrou na água com a bóia embutida na cintura, o pançudo que andava como um pato, o esquálido envergado... A esposa ficava encantada com tanta cumplicidade entre os seus dois amores – a mãe e o marido.

Certa feita fora apresentado à sogra de um amigo muito próximo, que já lhe havia alardeado a fama desta de levar uma cumbuca com bolo nos aniversários frequentados, sob o pretexto de fazer doação ao porteiro do prédio onde reside, em que pese sua compleição avantajada suscitar o descrédito dessa declaração – isso e outros fatos pitorescos. Aliás, quando esses dois se juntavam a sogra de ambos sempre era o mote das brincadeiras. Nesse mesmo ensejo, quando se comemorava o aniversário do filho e cunhado do amigo, a sogra deste olha para sua nora, então, vestida num macaquinho e suspira: “ai, ai, quando eu me lembro que já coube num macaquinho desse...!” . Sem qualquer cerimônia, ele interveio: “se incomode não, Dona Fulana, a Senhora não cabe num macaquinho, mas pode usar um gorila”. Estariam eles sacramentando um desafeto ou um precedente hilário apto a selar uma estreita amizade?!

O amigo, por sua vez, já não conserva o hábito de passear com a sogra regularmente. Entretanto, comenta-se que no último sábado de 2010, a esposa dele lhe sugeriu que levassem a mãe para conhecer o filé siri na manteiga do Cadoz, com o quê assentira, dizendo: “fui convocado a fazer a última boa ação do ano e vou aproveitar a oportunidade”. O dia estava enfeitado com um céu de brigadeiro e o bom-humor, de conseqüência, era partilhado pelo amigo, sua esposa e a sogra. Aquele trilhava o percurso contando piada de sogra - mãe e filha riam com mais essa de suas tantas irreverências. Em certa altura da estradinha de barro de acesso ao povoado, a sogra, de súbito, pedira ao genro que parasse o carro e desse ré até encontrar com um cidadão vestido à guisa dos evangélicos.

“Seu Vicente, que surpresa fantástica lhe encontrar!” – foi o pronunciamento da sogra ao circunstante do local. “Dona Fulana... Meu Deus, há quanto tempo!!”. “Olhe meu genro, essa criatura foi o anjo que me fez vencer o medo de dirigir, sou-lhe eternamente grata por essa façanha”. O genro não vacilou em apresentar-se: “chame-me de Jesus, eis que carrego essa cruz nas costas”.

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Eu mesma... nua


É na escuridão da noite
na areia, vendo o mar serenar
que o salpicar das estrelas
são os holofotes da natureza
que me fazem brilhar

Nesse palco libertário
esqueço todas as torpezas...
das guerras silenciosas
dos jogos de poder
do amor vencido
pelo afã da riqueza...

Sinto a leveza de uma pluma
vagando a esmo
entregue à ventania
e deixo o pensamento transpor o mar
sem ter de chegar em algum lugar

Liberto-me das amarras das tendências vãs
que me conduzem ao abismo das mesmices
das mentiras de uma sociedade mitificada
fazendo de meus delírios sãos
minha melhor realidade

Somente a natureza... incondicional
permite-me ser alada
e concede-me a nobreza
de ser quem sou: eu mesma... nua
e ser fenomenal

terça-feira, 14 de junho de 2011

Mais que uma simples questão

Que é viver?
senão esmorecer
entorpecer
enlouquecer
embrutecer-se
desfazer-se em ser ou não ser:
muito mais que uma simples questão

Que é viver?
passado, presente ou futuro?
lógica ou indisponível absurdo?
viver, vida, viver...
ora! Que é viver, afinal?

Afinal?
há um afinal?
há uma finalidade?
um finalmente?
afinal, há uma realidade?
para mim é assim... às vezes
para os ausentes de si
é indiferente, inconseqüente
e quem será o referente?

Que é viver?
consumação, desilusão
fatalismo?
determinismo?
é o absolutamente relativo?
reflexo da Criação?

Que é viver?
inclusão, comunhão?
exclusão, desunião?
ordenamento desarmônico?
ou metódica consumação
de células por célula
até completa degradação?

Que é viver?
certamente, um problema filosófico
caso sim, continuará a ser
não serei eu a responder
enquanto, no entanto
triste, às vezes...
feliz, exultante... às vezes
viverei sempre enquanto bater o coração

(Poesia do livro "Eu mesma...nua)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O Projeto "Justiça à poesia" prossegue, em sua 8ª edição






Fotos de Yulia Amaral Almeida


A equipe da 3ª Vara do Trabalho de Maceió inaugurou a primeira segunda-feira do mês corrente (6.6.2011) com a 8ª edição do projeto Justiça à Poesia. Um projeto já nasceu poético e teve sua primeira edição em 14/1/2010.
Na ocasião, o servidor João Fontes declamou três poesias do autor paraibano Augusto dos Anjos: “Monólogos de uma sombra”, “As cismas do destino” e “Tristezas de um quarto minguante”. Em seguida, o servidor Tadeu Costa declamou poesia de sua autoria, em sintonia com a proximidade do Dia dos Namorados.
Nessa edição, os organizadores fizeram uma merecida homenagem à servidora do TRT19, Maria do Carmo Martins, mis conhecida como “Cacá”, em seu último dia de vida funcional ativa. A juíza titular da 3ª VT, Alda de Barros Araújo, declamou para a homenageada a poesia “Metamorfose”, de Valéria Batalha. Cacá, por sua vez, demonstrou sua gratidão, emcionando a platéia, com alguns versos do poeta N. Rogero.
Encerrando o evento, o servidor Noel dos Santos declamou “Mãe, eu quero brincar”, de sua autoria, tanto em libras, quanto verbalmente. O servidor Márcio Pedroso executou o fundo musical com a sua clarineta.
Para a 9ª edição está prometida a apresentação do escritor, poeta, músico e compositor, Luiz Alberto Machado, conforme ele próprio noticia no endereço http://blogagenda.blogspot.com/2011/06/luiz-alberto-machado-na-ix-edicao-do.html .

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Os sonâmbulos se denunciam

Imersa nas reflexões suscitadas a partir da leitura do livro ”A Vida do Bebê – 2ª Parte – De 40 Para Frente”, da autoria do mineiro José Cláudio Adão, não houve como não valsarem em sua memória fatos da história de sua mãe, que, de certo modo, lhe repercutiram consequências; velhas reminiscências de remotíssimos episódios - um passado recalcado, tanto quanto possível, por entender ser mais alvissareiro cantar os logros, as conquistas femininas a ficar lamentando o longínquo período do “capitis diminucio” da mulher, de que não fora vitima e nem seria presa fácil.

Nos idos dos anos 80, assistiu ao renascimento em sua genitora do afã de retomar os estudos, desvirtuados desde o tempo em que os encantos da mulher eram aferidos por quanto fosse prendada nos afazeres domésticos. O pouco apreço pelos livros da parte desta, a segunda de quatro irmãos, fez com que a mãe, a custo de lágrimas e muito suor, a mantivesse em escola particular, diferentemente do que pudera proporcionar aos demais, que frequentaram a escola pública - diga-se, numa época em que dela se projetavam os melhores alunos. No entanto, casou-se aos 17 anos e, logo aos 18, desentranhou-lhe – a primeira de três filhos. E os estudos? O marido o entendia inconciliável com a vida de casada. Asseverava em alto e claro som: “mulher minha não estuda, nem trabalha!”.

Se é mesmo verdade que a vida começa aos 40, lembra que, não fosse pela incapacidade de superar os percalços, a de sua mãe - aliás, reconhece-a como uma providente mãe, porquanto sempre incentivadora do seu progresso educacional e o do seus irmãos - poderia ter (re)começado bem antes dessa idade; na oportunidade em que, se sentindo emburrecida, aviltada, amordaçada por um casamento opressor, ainda, no ventre da existência, ameaçou guinar o seu futuro: retornou aos estudos, na esperança, certamente, de chegar à faculdade através do curso supletivo, pleitear um emprego, e, assim, desvencilhar-se das garras inexoráveis do marido, que não lhe admitia sequer transpor o umbral da portal, exceto por raríssimos motivos, tais como comprar frutas e verduras no Zé da Banana ou ir ao supermercado, levar os filhos ao médico – coisas desse naipe.

Evoca, então, imagem da figura de sua mãe, dando pernadas pelo pequeno apartamento: “Nabudonosor II, filho de Nabupolassar, conquistou a Fenícia, a Síria..., promoveu a primeira Diáspora Judáica, fazendo cativo grande número dos habitantes de Jerusalém; restaurou templos, agradou sua mulher erguendo os Jardins Suspensos da Babilônia...”. Nas datas aprazadas, usufruindo da cumplicidade dessa filha, no pórtico da adolescência, sua companheira e álibi, seguia de ônibus, do Pina ao bairro de Tejipió, a fim de convalidar seu aprendizado por meio da prestação de exames.

Conseguiu nota 9,0 em História – transformou-se em pura felicidade. Estudava para a prova de matemática, sua maior algoz; não chegou, porém, a prestar-lhe o exame. Revolvia-se na cama em estado sonambúlico, e as poucas palavras inteligíveis que proferiu, foram captadas e mal deglutidas pelo irascível marido. No alvorecer do dia, obteve a irrecorrível sentença: “de hoje em diante, você está proibida de sair de casa sem a minha companhia”. “Por que, homem? O que eu fiz de mais? “Você se denunciou no sonho e, portanto, esqueça a equação de qualquer grrrrrau!” – com dentes trincados.

Com a respiração suspensa, enxergara-se, a partir daí, inibida de realizar sonhos por si mesma. Quando liberta pelo divórcio, conquanto estivesse em idade de fazer a hora, não pensou senão em esperar que o que lhe acontecesse viesse de fora, alguém lhe fizesse acontecer. Portou-se tal qual um passarinho que, longo tempo engaiolado, não se evade quando lhe abrem a porta, pois não sabe o que fazer com a liberdade. Assim foi sua mãe, assim são as tantas pessoas que se rendem às ameaças tempestuosas e fazem-se cativas de si mesmas. O impossível é a sua mais assídua interpretação.

Simone Moura e Mendes
(Crônica publicada na Gazeta de Alagoas, edição de 27/05/2011: http://gazetaweb.globo.com/v2/noticias/texto_completo.php?c=233352)