A poesia me encontrou. Encontrei-me na poesia! Concedo-lha portentosas asas para alçar longínquos voos e disseminar sonhos nos corações cúmplices e sensíveis. Que ela logre fabulosos rasantes em vastos mundos prenhes de luz e encontre, por fim, felizes e aconchegantes moradas em almas renovadas.

Simone Moura e Mendes

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Ainda tens uma chance

Ei cara!
tu que algum dia tiveste um propósito
não te deixes abater com o primeiro fracasso
não procures ter cabeça feita nas coisas que só te levarão à sarjeta
os teus problemas não serão resolvidos naquela tua roda de amigos
amigos que te ajudaram a chegar mais e mais ao fundo do poço
eles um dia poderão sair dessa
enquanto tu... não passarás de um alienado
mais um mal para a sociedade

Juízo cara!
quando a "lombra" passar o teu amanhã será negro
é assim como te verás no espelho
o teu apetite será ainda maior
a realidade virá à tona

Acorda cara!
onde está aquele teu sonho?
e aquele teu desejo de independência?
agora estás dependente da DROGA... e da tua força de vontade
somente esta salvar-te-á... acredita!
teu sonho ainda poderá voltar
e quem sabe se não curtirás a tua realidade?
aquela antiga realidade à qual fechaste os olhos preferindo entrar nessa...
essa de dizeres que a primeira vez não fez a tua cabeça... é bobagem
pois jamais serás diferente dos outros
esquece os teus amigos... e jamais aquele meu apelo
e aquela tua jura?
algum dia cobrar-te-ei
não esqueças os teus pais... e eu... ainda quero-te ver gente
se queres mesmo ter fraco caráter... segue os meus passos
pois sei onde piso
pelo menos eu... TE AMO

Simone Moura e Mendes
(Posia do Livro Incógnita)

terça-feira, 26 de abril de 2011

Feng shui no sertão

Trata-se de uma cidadã de nobre linhagem: andar garboso, trajar aristocrático, cútis de seda, cabelos impecavelmente escovados e tratados, com hora marcada, em requintados coiffeurs – onde não dispensa a leitura de revistas da moda internacional; garimpeira das peças exclusivas das mais seletas boutiques de Maceió, de cujos proprietários costumam lhe levar as coleções recém chegadas em seu domicílio; frequentadora contumaz de clínicas de estética facial e corporal, onde se familiariza com as técnicas mais avançadas de rejuvenescimento...

Ela trabalhou com afinco por longos anos numa Unidade Jurisdicional da Capital. Contudo, por imperativo da aposentadoria do seu chefe, viu-se fadada a mudar de rotina, vertiginosamente. Fora, então, convidada a prestar seus misteres numa unidade, localizada no alto sertão alagoano, lá mesmo onde se diz que “urubu voa com uma asa só, porque a outra é para abanar-se”, “onde dos carros são furtados os radiadores para o aproveitamento da água”. Aceitou o convite, a despeito desses seus hábitos genuinamente citadinos – logo ela, uma apreciadora do clima londrino.

Na composição de sua nova equipe, levou consigo uma servidora que voou do Japão, fez escala em São Paulo, Maceió e, enfim, aterrissou numa plantação de palma rodeada de cactos. A oriental, no entanto, lhe toldou a faceirice, roubou sua cena. Em todos os recantos da cidade não se falava na elegância de Silvia D’Lutrec, mas na sua amiga de corpo delgado,olhos puxados, cabelo sem cachos e sorriso sempre estampado, a que desfila de botas cano longo no solo rachado do sertão, como se estivesse caminhando, em pleno inverno, na Av. Paulista. Vendo-a aflita com o calor de 40 graus, Silvia lhe recomendou trocar as botas por uma sandália rasteirinha, por certo, mais condizente com o clima local. Pôs algum bálsamo na ferida narcísica aberta em si, por sua sofrida invisibilidade, e encaminhou-a à única loja de grife da redondeza, opinou sobre escolha do calçado ideal – embora seu recôndito desejo fosse o de indicar-lhe uma “xô boi”. Nos primeiros dias, viu-a meio cambaleante com os pés sobre as rasteiras compradas, seus dedos nus pareciam estar tímidos, daí por que, logo em seguida, sem dar qualquer satisfação, tornou a usar as botas.

Silvia, por sua vez, numa tentativa inglória de fazer notado seu charme, muda a cor do cabelo, capricha no estilo dos modelitos, com que, em Maceió, sempre fizera sucesso, realça a maquiagem, aumenta o tamanho do salto... Mas nada! Os olhares permanecem convergindo, exclusivamente, para a menina da Terra do Sol Nascente, como se esta fosse um ser extraterrestre e aquela uma mera nativa.

Todavia, a japonesinha, mostrando-se tão solícita, tão afável, orientou-a a arrumação dos novos aposentados de acordo com o feng shui, e revelou-se, em suma, uma companhia não somente das atividades laborais naquele solo quase inóspito, bem como nas idas à massagista, à academia, à manicure, ao supermercado... Não vira alternativa, senão procurar um psicólogo no município vizinho que lhe orientasse na lida com esse trauma: o de ficar invisível ao lado da delgada japonesa.
Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

domingo, 24 de abril de 2011

Páscoa na omissão

O peixe e o vinho à mesa
chocolate de sobremesa
família na alegria da reunião
fartura de amor e aconchego
é tudo de quanto desfruto
na doce celebração desta Páscoa

Mas no apogeu da ventura
calo-me numa triste reflexão
desditando a lembrança
de que em cada esquina
famílias de mendigos andrajosos
suplicam um pedaço de pão

Se somos Filhos de Deus
todos os mendigos são meus irmãos
por que, então, refastelo-me no luxo
e meus irmãos em Ti, Meu Deus,
perambulam no lixo,
nos despojos e dejetos
que já não servem para mim?

Quando criança aprendi
que Páscoa é comunhão
como posso comungar
se peco pela omissão?

Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Eu mesma...nua)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Um caso para Sherlock Holmes

Chocolate é um presente singelo, carinhoso, costumeiramente ofertado em datas festivas, como Dia das Mães, Dia dos Namorados, aniversário de casamento, Natal, Páscoa, etc. Oferecer chocolates tem um significado social de estreitamento das relações, afirmação dos laços de amizade.

Conquanto muitos homens o consumam, é mesmo mais apreciado pelas mulheres, sobremodo nos estados ansiosos da fase da TPM, quando sua ingesta se traduz em verdadeira injeção de prazer,uma vez que estimula a produção de endorfina.

Imagine-se uma mulher, num esforço hercúleo de fazer dieta, ser premiada com finos e apetitosos bombons na Páscoa: uma caixa, pelo genro mais novo, outra, pelo mais velho e, mais outra, pela nora. Obviamente, seria de grande indelicadeza, dado ao seu forte apreço aos agregado(?) da família, cogitar repassá-los a outrem, como se fossem um ópio de que pretende se livrar. E, como não pretende saboreá-los sozinha, democratiza-o dispondo as delicadas embalagens, recheadas de “manjar dos deuses”, em cima da mesa da sala. Em todos os momentos do ir e vir é-lhe propiciado indesejado contato visual com essa insustentável tentação. O que fazer? Comer um a cada dia, conforme lhe sugerira o esposo? Para quem se conhece como chocólatra, isso seria o mesmo que dizer a um alcoolista para controlar-se na bebida tomando somente um “golinho”.

Considere-se que essa sogra, apreciadora de chocolates desde quando a memória lhe permite o resgate das lembranças, amargara um trauma jamais olvidado, em que pese o transcurso de mais de trinta e cinco anos. Em sua infância, embora tratada por recursos parcos, permitia-se sonhar em receber um ovo de Páscoa do maior tamanho; todavia, de tamanho nenhum ele lhe chegava, porque, na visão de seus pais, com o que se gastaria para comprar um ovo, chegaria chocolate para todos os filhos.

Pois bem, na Páscoa de 1976, quando passava a Semana Santa na casa dos avôs paternos, sua genitora a agraciara com um pacote contendo seis chocolates ouro branco, da Lacta, de que gostava sumamente. Entre a alegria e a decepção, esta, repise-se pelo sonho do ovo de chocolate, mais uma vez, postergado, dissera à mãe que os comeria aos poucos a fim de que não acabassem logo. Sem dar crédito às recomendações daquela que a pôs no mundo, na forma do adágio de que “quem guarda com fome o rato come”, guardara seu tesouro no fundo de uma gaveta com o disfarce de várias camadas de roupas.

Um mistério, contudo, se entranhou em sua vida. Os cinco chocolates – porque um havia sido comido imediatamente – desaparecera, sem qualquer pista, do canto em que estavam. Suas suspeitas se voltaram contra seu tio, com quem muito se digladiava devido à mínima diferença de idade. Este, por sua vez, por quem nutre grande amizade, desde os maduros tempos de ambos, passara a vida negando tal desvio de conduta.

Afinal, um caso que desafiaria Sherlock Holmes!

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita )

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Sigo

Sigo o curso
o fluxo constante
das águas fluentes
que não deságuam
sigo...
sem pressa de chegar

Sem traçados, nem mapas
sem rumo, sem reta
sem atalhos, sem escalas
sigo pelo caminho
que me leva meu caminhar

Vida?
vida enquanto há
que outra certeza teria
senão a de respirar?

(Poesia do livro "Eu mesma... nua")

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Uma “bisa “ de vanguarda

Aos 79 anos, não prescinde da caminhada matinal na Praia de Ponta Verde. Egressa da frialdade, do nevoeiro paulistano, veio buscar o calor humano, o sol ardente, o mar azul, os coqueirais, a efervescência natural da capital alagoana; descobriu-os, pois, como facilitadores da inspiração que se revela nas telas, na escrita, na aquarela de sua vida.

Avessa ao encarquilhamento físico e moral inerente a muitos de sua idade, é uma senhora jovial, um espírito irresignado, um modelo de vanguarda. Faz musculação em academia, comunica-se com os familiares distantes pelo MSN, deixa recado no Facebook, reencaminha os e-mails de piada, toma cerveja gelada, joga canastra, faz trilha de 4 x 4, indica bons livros e os melhores lançamentos do cinema...

Cumpriu a tríade existencial – gerou filhos, plantou árvores e escreveu livros; mas longe se encontra de reputar seus sonhos realizados, eis que os renova em cada alvorada. Cambiar idéias com ela, ouvir suas digressões, seus improvisos, é sempre uma experiência proveitosa, um mote para glosar os percalços... Um estímulo para “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima” dos problemas, eis que sempre levianos.

No último encontro domingueiro com os amigos, contou, risonhamente, seu recente diálogo com a mãe, então, com 101 anos, através do telefone: “estou com saudade, mãe! Sabe quem sou eu? Sua filha que mora em Maceió, irmã de Salomão, de José e de Ester – seus outros filhos. Lembra? Sou a mãe de Sara, de Clara e de Moisés, lembra, agora?” Ah, é a minha Janette, como você vai, minha filha? Por que você não faz que nem eu e tem mais um filho? “Mãe, eu tenho 79 anos, já sou bisavó de três”. Tem razão, minha filha, tenha mais não, que filho dá muito trabalho...

Simone Moura e Mendes (Crônica inédita)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Insônia

Foto de Marta Angélica Martins



O outro dia para ocorrer
a noite açoitada pelo amanhecer
o luar decaindo...
prenunciada a aparição do sol
lindo, exuberante
um convite para meu viver

Insônia
turbulência mental
mal digerido o alimento deglutido
dos fatos sabidos a insensatez
revelação do triunfo da estupidez
operada por que só se move pelo drama

O leito não é acolhedor
parodia uma cama de faqui
machuca meu corpo desperto
incomodado pelas lembranças nefastas
daquele retrato da decadência humana

Farejo outro dia com o tema de hoje
surge o medo de um acordar
sem promessas alvissareiras
sem alvos tentadores a mirar
e se eu dormir e não acordar
o mundo permanece mundo
tudo continua a girar

domingo, 3 de abril de 2011

Menininha: vítima de si e do descaso

Sua estatura minguada fizera com que mantivesse a alcunha de Menininha. Menininha foi sua identidade por toda a vida. Se dizem que as baixinhas são de temperamento irascível, aquela não fugia à regra, porquanto nenhum desagravo passava incógnito às suas admoestações; seu gênio indomável lhe rendera, porém, muitos desconfortos existenciais, tanto no âmbito físico quanto no mental; e, quando se vira dependente dos cuidados de outrem, entregou-se à depressão, irreversivelmente – sua vida perdera a cor, vegetalizara-se. Não apenas frágil na compleição física, mas, também, de ânimo, incompetente para lidar com os reveses inevitáveis das encruzilhadas; postava-se, Menininha, emocionalmente, em oposição à fé que a tradição familiar católica lhe ensinara.

Antes, mulher vaidosa, a tal ponto que preferia deixar de custear o plano de saúde em prol da manutenção dos cuidados com o corpo; cremes e mais cremes para hidratar a cútis e estancar os efeitos deletérios da idade, sem qualquer atenção aos ungüentos que pudessem aliviar os abalos anímicos. O fato de haver, ao lado de mais três irmãos, se tornado remanescente de uma prole de treze filhos, culminara num temor incapacitante da morte, sobremodo quando sua irmã obteve o diagnóstico de diabetes e dislipidemia, tendo a vida ceifada por um AVC (acidente vascular cerebral). Determina-se, a partir de então, pois também estaria com as mesmas disfunções, conquanto os exames e os médicos lhe afirmassem uma boa saúde, a uma alimentação natural, sem arroz ou pão branco, sem doces; tão-somente grãos integrais, e em quantidades moderadas, comporiam seu cardápio.

A família não soube explicar, mas acha que as severas privações alimentares por que se submetera Menininha, fora determinante para seu declínio mental; dentre seu compêndio de alucinações estava o de confundir carne com lagartixa... Cerrava dentes e lábios a fim de não receber o alimento que lhe era oferecido, causando tormentos vários em seus amoráveis cuidadores – sua única irmã e sobrinhos -, molestados, ademais, com seus impropérios e rompantes de agressão física. Quando já rendida, a família tentara interná-la numa casa de repouso; a médica, compadecida com a sua fragilidade, indicara a menos nefasta da rede pública, que, ainda assim, causaria asco até a um refugiado de um campo de concentração nazista. Menininha, a despeito dos inconvenientes que produzia, não merecia perecer naquele cemitério de loucos. Voltara, então, ao seio da família, como instrumento de expiação para todos e de todos os pecados. Cristo, afinal, não se evadira do calvário.

Menininha foi tratada em casa, por obséquio da humanidade de um psiquiatra que a adotara. Revigorou-se um pouco mercê do empenho indômito da família, até contrair uma infecção pulmonar. Dessarte, fora internada num hospital público – que sina! Inconformada, sua irmã desacreditava que a mais abjeta criatura viva seria imerecedora do tratamento degradante daquele açougue humano, mas nada podia fazer; sua incapacidade financeira, pois, a impedia de prover melhor fim de vida à sua sempre “menininha”. Nas poucas horas em que lhe era facultado entrar na ala dos enfermos graves, assistia aos horrores do destino dos seus impostos e os dos cidadãos brasileiros: urros silenciosos nos corredores de uma morte lenta, sem ouvidos misericordiosos. Perecia ali, inclusive, seu ente querido, com o braço edemaciado, vultuosamente, em decorrência do soro que era deixado escorrer fora da veia, sem qualquer comiseração de quem quer que fosse, olvidando os enfermeiros e técnicos que os seus salários medíocres de funcionário público poderiam lhes render idêntico tratamento num futuro, próximo ou distante. Não havia quem se aventurasse numa explicação para as mortes anunciadas - se é que houvesse uma, mesmo aos olhos de um leigo.

Menininha nasceu menininha, morreu menininha, sob os auspícios das dores que não suportaria gente grande. Jaz seu corpo e resta insepulta no coração de seus familiares a inclemente memória de seus atrozes sofrimentos. Tristeza, saudade... revolta, máxime quando vislumbram seus míseros ganhos sendo dilapidados pela sanha governamental de arrecadar impostos.

Simone Moura e Mendes (Crônica inédita)