Foto de Sandra Salgado
Muitos buscam purgar seus conflitos interiores, sua vida pessoal atribulada no álcool, nas drogas, nos mais diversos excessos indignos do bom senso. Outros se entregam ao chá verde e ao shake da alegria. É o que faz, no intervalo de almoço, um grupo de joviais senhoras, que, coincidentemente, já suplantou o umbral dos quarenta carnavais. O alemão, Dr. Alzheimer, ainda não as visitou – o que é o bom senso, mesmo? -; mas o climatério já faz algumas sondagens.
Todos os dias, invariavelmente, suas componentes se reúnem num pequeno espaço improvisado na sede administrativa de um lava-jato, sob o anteparo de cortinas verdes-bandeira; sentam-se no desconforto de cadeiras plásticas, com os pés repousados em outra disposta à frente de si, numa prevenção intuitiva de um maior ataque das varizes; entre chás e shake, abstraem-se dos decibéis acima do tolerável, proveniente da aspiração interna dos veículos, e revivem experiências cotidianas - muitas delas comuns -, projetam eventos culturais, discutem metas de trabalho e amenidades várias, promovendo, acima de tudo, um verdadeiro laboratório de um humor além de criativo; enfim, renovam, tacitamente, votos de amizade, de forma tão natural quanto o correr de um rio intocado. Os passantes escutam suas gargalhadas ao longe, certamente, mal contendo a curiosidade de deslindar o motivo de tamanha euforia – devem, no mínimo, perguntarem-se se há um picadeiro atrás das discretas (?) cortinas; as que chegam, casualmente, na expectativa de adquirem melhor configuração para o corpo, começam a inaugurar um melhor alinhamento do espírito, como se bebesse da fonte da juventude.
A inventividade ali não tem arestas. Não lhe faltando o que inventar, a mais sagaz do grupo propôs às demais meninas a criação de uma banda de música – a banda BB. BB, por quê? Quis saber uma delas, ao que lhe fora respondido: Banda Bamba, pois nela só ingressa quem já lograra cortina no tríceps; as principais integrantes só tocarim triângulo, gaita, maracá, chocalho; as coadjuvantes que fiquem com a bateria, o violino e até violoncelo, deixando os “babados” livres e soltos, ou que toquem de mangas compridas, se assim preferirem. No dia seguinte, chega ela com a miniatura das amigas representada numa sapinha verde tocando um instrumento. Improvisara, ainda, um chocalho com arroz, feijão e milho num copo plástico de requeijão com vistas ao ensaio da banda. Ela própria se elegera maestrina. (Note-se, portanto, que não dá para apegar-se a problemas naquele recinto – ou se diverte ou vaza!)
Bem, como entende Almir Sater, é compreender a marcha e ir tocando em frente; pois, indubitavelmente, cada um carrega a sua história, bem assim o dom de ser capaz de ser feliz. Elas, da banda BB, já choraram demais, sabem que pouco ou nada sabem, e só tem pressa de cumprir os prazos processuais. Todavia, pulsam pelo amor à poesia, impulsionam-se pelo amor à vida; tomam o shake da juventude no albor do climatério.
Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)





