A poesia me encontrou. Encontrei-me na poesia! Concedo-lha portentosas asas para alçar longínquos voos e disseminar sonhos nos corações cúmplices e sensíveis. Que ela logre fabulosos rasantes em vastos mundos prenhes de luz e encontre, por fim, felizes e aconchegantes moradas em almas renovadas.

Simone Moura e Mendes

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O shake da juventude no albor do climatério

Foto de Sandra Salgado

Muitos buscam purgar seus conflitos interiores, sua vida pessoal atribulada no álcool, nas drogas, nos mais diversos excessos indignos do bom senso. Outros se entregam ao chá verde e ao shake da alegria. É o que faz, no intervalo de almoço, um grupo de joviais senhoras, que, coincidentemente, já suplantou o umbral dos quarenta carnavais. O alemão, Dr. Alzheimer, ainda não as visitou – o que é o bom senso, mesmo? -; mas o climatério já faz algumas sondagens.
Todos os dias, invariavelmente, suas componentes se reúnem num pequeno espaço improvisado na sede administrativa de um lava-jato, sob o anteparo de cortinas verdes-bandeira; sentam-se no desconforto de cadeiras plásticas, com os pés repousados em outra disposta à frente de si, numa prevenção intuitiva de um  maior ataque das varizes; entre chás e shake, abstraem-se dos decibéis acima do tolerável, proveniente da aspiração interna dos veículos, e revivem experiências cotidianas - muitas delas comuns -, projetam eventos culturais, discutem metas de trabalho e amenidades várias, promovendo, acima de tudo, um verdadeiro laboratório de um humor além de criativo; enfim, renovam, tacitamente, votos de amizade, de forma tão natural quanto o correr de um rio intocado.  Os passantes escutam suas gargalhadas ao longe, certamente, mal contendo a curiosidade de deslindar o motivo de tamanha euforia – devem, no mínimo, perguntarem-se se há um picadeiro atrás das discretas (?) cortinas; as que chegam, casualmente, na expectativa de adquirem melhor configuração para o corpo, começam a inaugurar um melhor alinhamento do espírito, como se bebesse da fonte da juventude.
A inventividade ali não tem arestas. Não lhe faltando o que inventar, a mais sagaz do grupo propôs às demais meninas a criação de uma banda de música – a banda BB. BB, por quê? Quis saber uma delas, ao que lhe fora respondido: Banda Bamba, pois nela só ingressa quem já lograra cortina no tríceps; as principais integrantes só tocarim triângulo, gaita, maracá, chocalho; as coadjuvantes que fiquem com a bateria, o violino e até violoncelo, deixando os “babados” livres e soltos, ou que toquem de mangas compridas, se assim preferirem. No dia seguinte, chega ela com a miniatura das amigas representada numa sapinha verde tocando um instrumento. Improvisara, ainda, um chocalho com arroz, feijão e milho num copo plástico de requeijão com vistas ao ensaio da banda. Ela própria se elegera maestrina. (Note-se, portanto, que não dá para apegar-se a problemas naquele recinto – ou se diverte ou vaza!)
Bem, como entende Almir Sater, é compreender a marcha e ir tocando em frente; pois, indubitavelmente, cada um carrega a sua história, bem assim o dom de ser capaz de ser feliz. Elas, da banda BB, já choraram demais, sabem que pouco ou nada sabem, e só tem pressa de cumprir os prazos processuais. Todavia, pulsam pelo amor à poesia, impulsionam-se pelo amor à vida; tomam o shake da juventude no albor do climatério.

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)
 


quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Dsabrigado pelo relento

Culminação do descaso
é só um monte qualquer
um reles, um mutilado
da vida um relegado
é quase um inanimado

Seu existir: um calvário
uma história sem ensaio
seu palco: uma praça
seu cárcere, seu catre
até antes de ser enxotado

A síndrome da abstinência
vertigem do desdém social
da fome que o parasita
da fealdade que o vomita
uma criatura amoral

Uma sombra sem identidade
no uivo do frio vento, sem dor
até o relento lhe desabriga
acabou o êxtase...
dorme, então, extenuado

Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O vodu farejado pela duquesa



A mais inquebrantável fé em Deus, por vezes, vacila diante de reiteradas e, aparentemente, despropositadas vicissitudes. Todavia, quem a Ele entrega sua vida, torna-se tal qual o bambu desafiado pela ventania: verga-se, sem, no entanto, quebrar.

Pois bem. Um casal paulistano, forjado para qualquer trabalho remunerado, desde que legal e não avesso à ética e aos bons costumes, passara por precariedades e abastanças. O esposo, por seu turno, já lutara pela sobrevivência como motorista de taxi e, também, de caminhão, vendedor de cigarros, funcionário de sapataria, de lavanderia, pistonista em casas noturnas, e outros tantos ofício e artes que se lhe fossem oportunizados. Somente não se escasseavam suas idéias de como ganhar o pão. Num desses “insights”, aliara-se à esposa para animar festa infantil, de onde surgira a dupla: palhaço Tomate e a Nega Maluca – as fotos não mentem. Se dispunha de senso de humor para brincar, mesmo com a brutalidade das intempéries, por que não transformá-lo em fonte de renda?

Como representante de máquinas de lavar roupa de hotel e artigos para motéis, conhecera cantos e recantos deste vasto Brasil; fizera amizades efêmeras e amigos existenciais. E, numa dessas suas andanças, conclui que São Paulo fatigava a si e minava a paz de sua familia, com o quê a esposa, sua mais fiel cúmplice, concordara. Acomodara-a num banco sovado de uma Kombi, juntamente com os três filhos e os trapos, para encontrar o éden em Maceió; o assovio das belezas naturais seria a Quinta Sinfonia de Beethoven para seus ouvidos, um tanto quanto martirizados pela poluição sonora da “Paulicéia”. Ali armaria a tenda da felicidade com o acalanto da maré mansa e da dança dos coqueirais.

Os recursos obtidos com a venda do apartamento e os provenientes de outras economias eram, pois, suficientes à compra de um imóvel na Capital Alagoana, além de garantir à família os víveres de muitos dias. Vocacionado para as atividades comerciais, os negócios foram se aprumando até o irrompimento de uma crise governamental sem precedentes, nos idos de 1997. Forçado estaria o casal ao desfazimento de quase todos os bens materiais até então logrados. Decidir entre ter imóvel próprio e comer é muito fácil. Sua esposa não era uma simples coadjuvante; portanto, perder uma batalha, não o fez desistir da guerra. O casal, então, armara a tenda do churrasquinho da esperança para os “Amigos” e circunstantes tirarem o gosto da cerveja gelada ou do refrigerante: um pequeno fôlego para todos.

Os insucessos financeiros, todavia, continuavam a malograr a alegria do casal e dos rebentos, que sofriam com as limitações dos lazeres em plena adolescência. Sua cadela Duquesa, com o faro e argúcia do instinto animal, cavara rente à parede frontal de sua residência e trouxe na boca uma garrafa onde continha um feto inteiramente espetado com agulhas. Seria essa a causa dos infortúnios? Especulações não faltaram, mas a fé em Deus estava em riste.

No local onde Duquesa encontrara a semelhança de um vodu, nasceu a planta da felicidade cujo nome científico é Polyscias guilfoylei. A partir daí, o casal, conquanto jamais estivesse deixado de trabalhar com afinco, assiste, como consequência de seu labor, a frutificação perene de muitos resultados alvissareiros.

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

FOI-SE, COM A MISSÃO CUMPRIDA, DEIXANDO SAUDADES E UMA MARCA NA POESIA


Dr. Manoel Hermes de Lima e os integrantes da 3ª Vara do Trabalho de Maceió

A 4ª edição do Projeto Justiça à Poesia, ocorrida no último dia 19, na 3ª Vara do Trabalho de Maceió, apresentou nova versão, em razão da aposentadoria do magistrado e escritor, o titular daquela unidade, Dr. Manoel Hermes de Lima.
Foi mesmo pra lá de especial! Das gargalhadas às lágrimas.
Saudações, despedidas e declamações, levaram a isso.
Magistrados, diretores, servidores, advogados e jurisdicionados tiveram oportunidade de demonstrar o reconhecimento ao trabalho desenvolvido pelo juiz Dr. Manoel Hermes de Lima ao longo dos 17 anos da trajetória de sua carreira, dos quais 9, como titular da 3ª Vara do Trabalho de Maceió.

Marta Angélica e Eugênio Pacceli

Eugênio Pacceli e Gerson Odilon

À Marta Angélica Martins, declamadora oficial do Projeto, coube levar os presentes às lágrimas, ao declamar as poesias DESPEDIDA, de autoria de Dr. Manoel Hermes de Lima; AMNIÓTICO LÍQUIDO CHAMADO MÃE, de Sandra Magalhães Salgado, diretora de secretaria daquela Vara, e SUA SAGA, SUA VIDA, de Simone Moura e Mendes, analista judiciária, sendo esta última uma homenagem da citada servidora ao magistrado antes da aposentadoria.
E o inusitado das gargalhadas veio através do perito e médico legista, Dr. Gerson Odilon, que fez expor todas as vísceras dos assistentes ao avesso, ao declamar vários cordéis, dentre eles, os da autoria de Patativa do Assaré.
Não foi possível dançar até quebrar os ossos, mas o perito médico ortopedista, Dr. Eugênio Pacceli, integrante da banda Os Besouros, emocionou ao executar Yesterday, dos Beatles.

Ricardo Cabús, idealizador do Projeto Papel no Varal


Na ocasião, o criador do projeto Papel no Varal, Ricardo Cabús, finalmente se encontrou com a criatura, o Projeto Justiça à Poesia, que bebeu de sua fonte para vicejar, e declamou o poema nº 11, da escritora alagoana Arriete Vilela. Na oportunidade, enfatizou a singularidade do Projeto, a despeito de ser um desdobramento de sua criação.
Ricardo Cabús, idealizador do projeto Papel no Varal, é professor universitário, engenheiro civil e das palavras, autor de Cacos Inconexos.



Simone Moura e Mendes, Sandra Magalhães Salgado e Antônio Lopes Rodrigues

A edição contou, ainda, com as irreverentes lentes do compositor, poeta, cantor e advogado trabalhista, Dr. Antônio Lopes Rodrigues, um cativo do projeto, que tudo registrou com emoção e entusiasmo.
E para sentir o deleite do que todos usufruíram na ocasião, ficam as amostras grátis das poesias declamadas.

DESPEDIDA (Manoel Hermes de Lima)


Eu quis ser, vim, cheguei
Procurei fazer na lei justiça
Fui Feliz, não pequei
Imagino no meu pensar livre
Vi em rostos, risos soltos
De felicidade e a paz do ser
Oprimido sentir o encanto e
No olhar fazia-se transbordante

II

Em cada semblante, antes triste
Noto o depois a alegria
E em mim, vejo mais que neles
Aprazer-me tanto e tanto
E todos, num instante
Parecem tranquilos, cantantes
Com a música ouvida
Repetida, percebida
Por tudo visto, sim
Lhes fazia acreditar
E afirmar: é a justiça
Ela existe

III

Sem cansaço ainda, me dispensa
A lei e da atividade estou indo
Saudoso, no coração vou
Com lembranças vivas, afáveis
Da convivência, marca d’um sonho
Dantesco realizado que findou
No amor que dei inteiro
Devotado, sem tristeza e dor
N’alma voltada ao bem comum
Do jurisdicionado público
Empregado e empregador
Que vai e vem em suma, povo
Que na Justiça busca a igualdade
Sua dignidade e seu valor.

AMNIÓTICO LÍQUIDO CHAMADO MÃE

(Sandra M Salgado)


Amniótico fluido que já me envolveu
a tentar me proteger de externos choques
Amniótico líquido que já me amparou
na medida exata do que precisei


Etéreo líquido que me conduziu à vida
a minha ótica me mostra tua verdadeira natureza
não és fluido nem líquido
És esse ser chamado MÃE

Sem mais fluidos
envolve-me em tuas noites de vigília em oração
MÂE etérea e terrestre
deixa-me ser frágil se precisar
deste-me a demonstração de tua fortaleza
e dela não descuidarei
deixa-me ser, vou crescendo na dor
deixe-se ser mais liberta de teus cordões
jamais me perderei de ti.



TUA VIDA, TUA SAGA
(Simone Moura e Mendes)

Tão tenro, empunhaste a espada
E movido pela brandura
Focastes dilacerar todas as agruras
Que a vida te quisesse impor

De armadura vestiste
E foste romper as fronteiras dos sonhos
Pular as fogueiras do medo
E no desânimo não descansaste

Não tiveste caprichos
Criaste em ti a perene necessidade
De se consagrar um vencedor
E erguer um troféu em cada linha de chegada

Não por acaso, teu nome é Manoel
Um homem maiúsculo,
Uma poesia que rima com laurel
Um escultor de glórias, um menestrel.

Não por acaso HERMES
Forte, um pedestal de pedras
Firme, vertical,
Limitado pelo céu

Hermeneuta, cultor das letras,
Romancista, professor, doutrinador,
Jurista, magistral julgador,
Hermético, refratário a qualquer dissabor

Foste alfaiate, carpinteiro até
Uma lenda, um emblema,
Um monstro de sensibilidade
Que do mimetismo sabe a arte

Tua laboriosa vida, tua saga,
Teu lema, cada cruzada,
Cada sacada, enfim...
Não cabem neste poema.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Foi assim


FOI ASSIM


Num dia igual
numa noite descomunal
corpos se entrelaçavam
não atrelavam para o ato

Dois gametas se uniram
prazer e gozo investidos
e num cometa vim surgindo
vida intelecta... morte discreta
por elas me consumindo

Fui feto e sem afeto... infecto
não tinha sonho, nem realidade
a vida me fez crueldade

Maturei a idéia popular
foi ela quem me fez calar
para não expulsar o meu grito contido
protestando os suicídios
que a vida dos homens faz continuar

Nasci estrela radiosa
floresci erva daninha
em jardins privados que desconhecia
em matadouros humanos
em cárceres ilhados

Antes tivessem-me abortado
não guardaria memória
memória dessas máquinas frias
extirpadoras de gente

Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Incógnita)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Imagem e ação nos EUA



A vida impõe um contínuo contato com riscos. Aliás, o viver sem o prazer das aventuras é um viver insosso, anêmico, insípido, quase vegetativo. Nessa esteira de pensamento, dois casais de amigos jipeiros e, portanto, familiarizados com as dificuldades dos terrenos erodidos, lamacentos, pedregosos, resolveram trilhar pelas espetaculares vias asfálticas dos Estados Unidos, com um mapa à mão e o desejo de conhecer muitos dos lugares que viam através das produções hollywoodianas.

Não comungariam da sensação de aventura se já estivessem com roteiros previamente delimitados. Não! Tudo ia sendo alinhavado ao arbítrio dos humores, à hora do engate da primeira marcha. Havia, meramente, o dia de chegar e a data do regresso, bem como o marco zero da aventura e a cidade onde tomariam o voo de volta para o Brasil. Além de intencionarem viver diferentes aventuras em terras nunca dantes visitadas, objetivavam prestigiar a formatura no “high school” da filha de um dos casais e a levariam para parte do trajeto.

Sabiam conjugar o verbo “to be”, lembravam da lição do “the book is on the table”, de algumas palavras esparsas do vocabulário aprendido no colegial, e o casal mais viajado, se possível e necessário, saberia apelar para o portunhol. Interpretariam também o mimiquês, bastante praticado por meio do jogo “imagem e ação”. Alimentados pelo fascínio da realização de um sonho distante, aterrissaram em Nova York, com a pupila dilatada e o coração galopante.

Tudo decorria sem grandes dificuldades naquela cidade povoada por tantos latinos. Chegaram ao único hotel cuja reserva havia sido prévia, um pouco distante da Times Square, mas de preço permissivo. A recepcionista comunicava-se em inglês – nada de espanhol ou português. Sem problemas: voucher apresentado e chave do quarto entregue. Um dos homens teve necessidade de utilizar o toalete e logo avistara uma porta sinalizada; emocionalmente aliviado, percebera que teria de solicitar a chave. Nada de fazer-se entender pela recepcionista e, em última instância, recorrera à onomatopéia do xiiiiiiiiii, com as pernas em aperto e saltinhos alvoroçados. Risos – muitos risos.

Rumavam ao Museu de História Natural, quando os dois homens estancaram, num banco da Praça Roosevelt, para degustar uma banana ouro comprada no percurso mediante o aspirar dos ares nova yorkinos. Nesse momento, atraída por aquela conduta insólita, uma transeunte, trajada com uma jaqueta normalmente usada por fotógrafos, com a câmera na mão, num gesto educado, solicita permissão para fotografá-los, o que foi consentido com bom-humor. Considerando que o grupo vestia camisa com a bandeira do Brasil, ficara fácil identificá-lo como de brasileiros. Diante disso, seria ela uma repórter free lance que faria uma crônica a fim de vendê-la a um dos jornais americanos, com a narrativa de um episódio dos macacos da selva amazônica nas Terras do Tio Sam? A curiosidade perdura até então, não sem o orgulho e a graça da brasilidade.

Carro alugado na Hertz Rent a Car, os quatro brasileiros seguiram em direção a Washington e passariam, antes, em Atlantic City, com o propósito de conhecerem o Taj Mahal – somente para tirarem fotografias, pois não dispunham de dinheiro para queimar num cassino. O painel do carro indicava combustível na reserva e pararam no primeiro posto. Onde estaria o frentista? Lembraram dos filmes. Deveriam descer do veículo para o autoatendimento. Haveria dificuldade?! Com o envolvimento dos quatro amigos no desembaraçamento do que seria uma operação elementar, restara apenas um detalhe: apertar o gatinho da bomba de gasolina. Nas tentativas e nos erros, afinal a operação foi concluída por um feliz “insight” de um deles e click.

Antes de chegarem a Atlantic City, erraram uma das saídas. Mas, e agora? Viadutos cruzando por todos os lados, já estavam na Filadélfia, Estado da Pensilvânia. Como nos filmes, viram um carro no acostamento sob abordagem de uma policial enorme, de cabelos produzidos com o esmero da elegância da raça negra, busto altivo e postura de autoridade. Para uma situação dessas, foram eles orientados a permanecerem no carro e condutor deveria estar com as mãos sobre o volante. No momento oportuno, apontara o motorista à policial o local no mapa aonde o grupo desejava chegar. A policial, com sorriso a exibir seus alvíssimos e bem cuidados dentes, toda em simpatia para auxílio daqueles viajores atônitos, falava, falava, falava e “ok?” – ok, todos respondiam sem entender quase nada, a exceção do gestual das mãos, que servira de formidável bússola. Agradecidos à presteza daquela dedicada profissional, conseguiram retornar à rota pretendida, eis que cada um ia lembrando de um detalhe.

Um dos integrantes do grupo, bastante cioso da precariedade de seu inglês, temia incorrer em qualquer conduta factível de ser mal interpretada pela polícia americana. Atento a tudo no banco de trás, cuidava de lembrar continuamente ao amigo do limite de velocidade, causando-lhe, inclusive, eventual irritação. “Rapaz, que medo de polícia é esse? Deixe dessa neurose, meu camarada!” – não havia jeito. Bastara um leve descuido e viram-se a guisa das perseguições policiais dos scripts dos filmes. Erraram a estrada e foram parar no acesso ao aeroporto de Miami. O cerco estava formado para a caça aos imigrantes ilegais e havia policiais com pastor alemão na coleira e rádio comunicador na outra mão por toda a parte. Nessa ocasião, salvaram-se com mais facilidade em virtude de já estarem na companhia da filha de um dos casais, a que concluíra o high school no Estado de Ohio. Travara esta fluída conversa com uma policial que, por incrível coincidência, nascera na mesma cidade onde a garota residira por dez meses. Ufa!

Permeadas de intercorrências hilárias e aptas a sempre serem reproduzidas nos encontros com outros amigos, a aventura americana marca a vida daqueles dois casais por todo o sempre. Eles não se encontram sem que novas edições sejam conjecturadas.
Continuam jogando “imagem e ação”!

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Viajor Terrestre (tributo a Murillo Mendes)


Foto de Simone Moura e Mendes

Não fiques a velar a vida
que ainda te resta, viajor terrestre,
que no enfrentar renhido
de vales, montanhas e corredeiras
- sob densas tempestades -
em tempos idos e saudosos
tantos louros granjeaste

Ora, na suposição de realizado
face a loquazes conquistas
fazes de ti um esquecido... consumido
a salvo da aclamação da massa desvairada
- sempre órfã e mendiga -
que não cessa de buscar seus heróis

Não empanes o teu brilho incandescente
que se derrama, jorra, pululante
e esperneia em tua alma juvenil
embora mais que recôndita
jamais uma alma senil

Não te olhes no espelho
para desditar o branco das têmporas
nem os sulcos da tez
suscitados a rogo da cupidez
sempre inexorável do tempo

Enxerga além dos teus sentidos
o que há sob a camuflagem
de um espírito engalanado
e desencrava esse homem:
varonil, intrépido e viril
que ferozes lobos solapou
nos perigos do covil

Não te edifiques uma lápide no peito
como símbolo de redenção
declama, afinal, teus vivos versos
sob os acordes de pássaros canoros
vez que a vida, sempre nua
é vencida a cada inspiração
para quem quiser e souber viver
pois, enquanto há vida há ternura
e viver é viver e viver!

Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Eu mesma...nua)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Em tempos de guerra



Chris seria médica - decidira. Na adolescência, esse ideal se solidificara como um projeto a ser perseguido a qualquer custo. Assistira à formatura de uma prima e, por sua vez, imaginou-se, também, fazendo o juramento de Hipócrates - “…Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém…”. Por devoção a Deus, por denodo às suas convicções religiosas, destinaria sua existência material ao salvamento de vidas.

Estudara compulsivamente em prol de seu escopo. Ao concluir o Curso de Medicina, no Rio de Janeiro, prestara concurso à Polícia Militar. Ser médica e militar era uma combinação perfeita para sua realização profissional. Foi aprovada em primeiro lugar. Ainda verde de experiência funcional, mas pródiga de teoria, Chris já manipulava o bisturi com considerável destreza para uma neófita; seu ofício precípuo era extirpar os males, restabelecer a higidez, quando possível, dos colegas de farda, geralmente, vítimas das balas do tráfico.

Em certa madrugada, no estágio REM do sono, sonhava com a guerra contra os traficantes deflagrada pelas polícias no Complexo do Alemão, de que tanto ouvia circular nos bastidores da Polícia. “Que Trágico! A que ponto chegou o meu Rio de Janeiro”. Acordara aturdida com as chamadas em seu celular. O comando era que imediatamente estivesse a postos no Hospital para atendimento dos eventuais feridos na operação perpetrada, considerando que o plantonista da vez havia tido um contratempo familiar – sua esposa entrara em trabalho de parto.

Expedita, Chris tomara um táxi até o hospital, vestida à paisana, por imperativo da precaução. Observou que taxímetro indicava vinte reais. Sacara uma nota de cinqüenta e se surpreendeu com a afirmação do taxista de que a corrida estava bem paga. “Mas como? Estou vendo ali vinte reais e sou acostumada a fazer esse mesmo percurso?” Minha senhora, estamos em tempo de guerra, minha corrida custa cinqüenta reais e não tem mais conversa – respondeu o taxista, com rudeza na voz. “Nesse caso, vou lhe dar voz de prisão, pois saiba que sou militar” – apresentou-lhe a identificação.
A caminho de seu posto de trabalho, Chris foi ruminando aquele episódio. Questionava-se acerca das atrocidades do mundo; num estado de profundo lamento, constatara que a bandidagem se manifesta de muitas formas e em muitas faces com os mais diversos seguimentos da sociedade, seja nos morros ou no asfalto. Até onde e quando poderia defender os seus princípios? Inabalável, porém, sua fé em Deus.

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

domingo, 2 de janeiro de 2011

O vento que dá força à ventania

Viste-me como um ser humano-mulher: holisticamente
- repositório de fartura de amor no corpo e no coração -
não como repetem os machos: sexo masculino esteriotipado
que, com miopias sentimentais, seus desvelos mais banais
são distinguirem as mulheres meramente como fêmeas
detentoras de seios, nádegas, ângulos e curvas sinalizadas

Tua inteligência, meu amor, me alumiou os túneis dos caminhos
tua elegância, a decência me afirmaram a retidão do teu caráter
tua sobeja e heróica sensibilidade fez sibilar minha emoção
foi –me prenunciadora do homem generosamente másculo que és
forjado com princípios e valores em sempre sintonia com a vanguarda
diametralmente opostos aos submetidos a padrões vetustos

Enxergar-te pelo viéis de tuas mínimas e maiúsculas particularidades
por tua essência, teu portar em permanente e imanente homeostase
indubitavelmente afirmados nos alicerces monolíticos da tua ancestralidade
fez-me reconhecer tuas notáveis especialidades em vertentes várias:
um homem, um ser humano liberto para o amor de uma mulher

Portanto, meu amor, aceito casar-me contigo todos os dias
como o mar e a lua, o céu e a terra, o vento que dá força à ventania...

Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)