A poesia me encontrou. Encontrei-me na poesia! Concedo-lha portentosas asas para alçar longínquos voos e disseminar sonhos nos corações cúmplices e sensíveis. Que ela logre fabulosos rasantes em vastos mundos prenhes de luz e encontre, por fim, felizes e aconchegantes moradas em almas renovadas.

Simone Moura e Mendes

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ao invés de comer quase ia sendo devorado

Em estados hígidos ou na morbidez, a inapetência jamais fora atributo seu. Debalde, seus pais, na tentativa de conferir-lhe um mínimo de sobriedade alimentar, mantinha-o sobre relativa vigilância, a ponto de trancarem à chave a porta da dispensa, onde estavam armazenadas as guloseimas mais cobiçadas. Quando, porém, essa vigilância afrouxava, furtivamente, ele abria as garrafas de coca-cola, compradas em engradados, e tomava um pouco de cada uma, na ilusão de que ninguém percebesse; costumava fazer dois pequenos furos nas latas de leite condensado, bem como nas de leite Ninho, e se lambuzava de prazer; realizava, enfim, grandes desfalques no estoque da família, não se recordando se algum dia fora surpreendido – a satisfação das comilanças lhe empana as memórias dos detalhes mais irrisórios.
Relata, frisando a alegria de ter vivido uma infância plena, que era instado a ficar em posição de sentido nas festinhas de aniversário; como regra de boa educação, somente se servia dos tentadores docinhos que compunham a mesa mediante expressa autorização do pai, de quem lhe bastava um olhar para arrefecer seus ímpetos de glutão. Atônito, ficava a vislumbrar a dizimação das iguarias tal como se assistisse impotente a um ataque de gafanhotos em seu pomar. Até obter o ansiado olhar paterno afirmativo, postava-se como um piloto na linha de largada e, mesmo com certa desvantagem, conseguia arrebatar os docinhos suficientes à aplacação de seu desejo.
Conta, também, que, em viagem com os pais, irmãos e alguns tios, a Paulo Afonso, quando as estradas eram ainda bem mais precárias, de modo a ocasionar o retardamento à chegada a um local apto a uma aprazível refeição, e a angustiante excitação da fome, fora severamente admoestado pelo pai e submetido a deprimente castigo, o de ficar sem comer. Também pudera: o almoço fora servido (na narrativa do fato, interpreta com o corpo, sob as gargalhadas dos presentes, a pose dos franguinhos dispostos um em cima do outro), e ninguém tomava a dianteira, com o escopo, certamente, de não desmascarar um para o outro a então supremacia de um dos mais primitivos instintos – o da fome; desse objetivo, ele prescindia, pois queria era mesmo amansar suas sofridas “tripas” e, assim sendo, garfara, sem qualquer falsa pudicícia, em detrimento dos mais velhos, um franguinho inteiro. Diante de tal, incontinenti, seu pai lhe ordenara: vá para o carro, imediatamente! Guloso, porém, obediente, não fez qualquer rogo de piedade.
Bem perto do carro, estancara num tanque rente à parede do restaurante; passeava com as mãos na água, como forma de sublimar a fome e o constrangimento, que, a despeito da pouca idade, jamais pudera esquecer – mais pela fome e menos pelo agravo moral. Não observara, todavia, que afixada na parede encontrava-se uma placa, onde indicava: cuidado, piranhas! Salvou-se com um assustador “sai daí, menino!”, proveniente não sabe de onde. Hoje, lembra, não sem um quê muito cômico, não sem um quê de saudosismo, que, ao invés de comer se utilizando de suas mãos, suas mãos poderiam ter sido comidas!
Essas lembranças não lhe trazem desditosos sentimentos. Ao contrário, faria o tempo voltar, se possível fosse, e teria o pai e a mãe ainda não separados pelo chamamento divino. Comeria tudo de novo!

Simone Moura e Mendes

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