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Desde a constatação de que a mãe adquiru Alzheimer, Antonina passou a visitá-la sistematicamente, em respeito ao quanto acordado com sua única irmã no sentido de que aquela deveria dispor da presença de uma das filhas em todos os finais de semana, de modo invariável. Portanto, embora devorada pelo acúmulo de fadiga de uma extenuante rotina de trabalho, acorda aos sábados, com o coração prenhe de amor por aquela velhinha que a conduzira aos prazeres da vida, e ruma para o Município de Estrela de Alagoas, sempre, via Garanhuns – prefere não arriscar uma mudança de itinerário.
Certa feita, aproveitara um feriado numa sexta-feira para passar mais tempo com a mãe e, também, poder melhor descansar. Pôs a Secretária, e o filho de recém-inaugurada adolescência, no carro de motor 1000 cilindradas, com a intenção de somente parar na porta da amada mãezinha, que, sequer, se inteirava de sua presença, diante da investida inclemente do doutor alemão. O carro seguia como se tivesse vida própria, indiferente à cantante motorista que bradava Maria Betânia a plenos pulmões. Nesse estado de graça, não observara o traiçoeiro trevo de acesso.
Conforme a paisagem ia perdendo a familiaridade, percebera que algo estaria errado. Ao vislumbrar um posto da polícia rodoviária, dispôs-se a tomar alguma informação, vindo a indagar ao policial aonde aquele caminho a levaria. O policial, então, transformou sua pergunta noutra questão: qual o destino pretendido, Senhora? Estrela de Alagoas. Estrela de Alagoas?! O homem fardado franzira o cenho, tamanha era sua indignação: é a primeira vez que vai até esse lugar, minha senhora? Não, meu amigo, vou quinzenalmente, há muitos anos, visto que minha mãezinha vive lá – respondeu com ar de transbordante intolerância e pernóstica superioridade. Faça a volta, minha senhora, pois já está próxima de Caruaru! O queeeeê?!!!
As trapalhadas de Antonina, não param por aí. Inúmeras vezes fora flagrada, pela mesma pessoa, rua acima, rua abaixo, nos fundos do edifício onde trabalha. Ao vê-la com olhar aflito e passos apressados, já era certo para o espectador de sempre que aquela mulher “sui generis” estaria a procurar seu veículo, na renovada suspeita de que houvera sido furtado.
Outro dia, anunciara à turma do trabalho que iria ao Bouganville arranjar um paquera e balançar o esqueleto até o raiar do dia. Na segunda-feira, todos queriam saber como havia transcorrido a noitada: “vocês nem vão acreditar! Dancei a noite inteira submissa aos galanteios de um atraente senhor, que se apresentou como empresário do ramo de frios. Trocamos telefones e sussurros. No dia seguinte, um domingo deslumbrante, pus o meu fio-dental, minha canga, meus óculos escuros, com a cadeira e uma amiga à tiracolo – a mesma que me fizera companhia na véspera – e, fui aquecer a memória das doces surpresas que a generosa vida me tem proporcionado, sob o causticante sol da Praia da Pajuçara. Mas, surpresa maior não haveria de ter. O som de uma voz me chegara bastante familiar aos ouvidos num grito de ‘picolé caicó, picolé caicó’. Era ele, o meu empresário do ramo de frios! Tomei uma gelada, meninos!”
Simone Moura e Mendes (Crônica inédita)
Você é ótima, Simone! Esta Antonina é também uma séria candidata ao mesmo mal da mãe. rsrs. Um abraço. Paz e bem.
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