A poesia me encontrou. Encontrei-me na poesia! Concedo-lha portentosas asas para alçar longínquos voos e disseminar sonhos nos corações cúmplices e sensíveis. Que ela logre fabulosos rasantes em vastos mundos prenhes de luz e encontre, por fim, felizes e aconchegantes moradas em almas renovadas.

Simone Moura e Mendes

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

É páreo até para o minotauro


Filha de Fiscal de Renda, Camélia peregrinou, durante toda a infância, pelas cidades do interior alagoano. Poderia não ter fincado raízes; mas deixara nós de marinheiro de amizade em cada morada. Essa é a marca definidora dessa menina franzina e obstinada; sua aparência débil contradiz sua capacidade de enlaçar um touro, se essa for uma meta altruísta e seu desejo repousar-lhe os olhos. Melhinha, ciganeando por colégios públicos, também, não se acovardou perante outros hercúleos obstáculos que a vida lhe impôs; quis ser médica, e foi.

Seu Pai arvorava-se do mais límpido grau de honestidade no desempenho de seus misteres de fiscal das receitas públicas e, ademais, era o único provedor de uma família de três filhos, com ninguém mais suscetível a lhe prestar eventual suporte financeiro, considerando ser, ainda, o mais abastado dos irmãos. Não obstante isso prometera devotar recurso mínimo a fim de que Melhinha pudesse administrar o seu sustento em São Paulo durante os últimos anos de medicina.
Um grave percalço tomara a dianteira da vida daquela adolescente, apto a, inclusive, lhe comprometer a trajetória acadêmica. Um câncer de cólon vitimou sua genitora. Melhinha se dividia entre os exaustivos estudos e o tratamento da mãe, que acompanhara em todos os meandros, a despeito de seus parcos conhecimentos na qualidade de mera estudante.

Chegara o momento da decisão: permanecer ao lado da mãe, cujo definitivo declínio vital era iminente ou investir no tão alentado futuro profissional conforme orientação sábia e desapegada daquela que a veiculou ao mundo. Melhinha deixara, portanto, a alma em Maceió e, levou, com a bagagem, um coração corroído pelo cupim do remorso e da tristeza. Pôs os pés na “Paulicéia desvairada”.

Como estudar para a residência em reumatologia, se estava ausente até de si? Deus inventou a coragem e somente os fortes a encontra. Lograra aprovação em duas das três provas a que se submetera. Uma das bancas examinadoras lhe atribuíra nota nove, sem entender, contudo, como uma pretensa residente de reumatologia poderia dispor de conhecimentos tão vastos acerca do tratamento para o câncer de cólon. Dentre tantos, esse foi o ponto sorteado – o dedo de Deus? Indubitavelmente. Teria, antes de passar pela banca, de fazer uma anamnese numa paciente com idêntica sorte de sua mãe. Ao chegar a seu leito, contara sua dramática história e lhe rogou colaboração no relato dos deletérios sintomas da doença. A paciente fizera jus a esse nome naquela oportunidade: PACIENTE! Descrevera com rigorosas minúcias sua caminhada para a morte.

Melhinha, por sua vez, enquanto colhia os louros da conquista, conferiu à sua genitora mais essa alegria. Agradeceu a Deus, clamando-Lhe que dispusesse de um berço confortável para sua mãe e aquela senhorinha no seu céu de amor e redenção.

Fez-se uma mulher-mãe-esposa-filha-nora-amiga-irmã dedicada e, acima de tudo, guerreira. Vencera muitas outras batalhas; é saneamento para muitas dores reumáticas, muitas convalescências anímicas. Bravíssima Melhinha! Deus está contigo! Que venha o Minotauro e você se travestirá de Teseu!

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A bifurcação

A bifurcação o deteve
a voz interior lhe cantou o caminho
- era o caminho da redenção -
o levaria ao arco-iris
ao pote repositório da sabedoria

Permaneceu preso aos grilhões
dos prazeres fugazes, torpes
promovidos pela utópica liberdade
mais uma vez, fez-se presidiário
perdeu o bonde da salvação
escamoteou a sorte...
Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)

sábado, 25 de dezembro de 2010

Amor em versos com poesia



O amor é um processo cuja sentença procedente é a felicidade
documentos autênticos passaste todos os dias a nele colacionar
dando-me prova de tua devoção ao nosso idílio, nascido num surto
numa nova promessa ao meu destino, como uma pequena chama
por nós alimentada com material inflamável para um fogo imorredouro

És tu o meu amor eterno e, em comunhão, geramos crias: nossos filhos
nossa vida transcendentalizada em muitas outras vidas: nossa preservação
a perpetuação dos nossos sonhos materializados qual mágica de Deus
que se proclamará com o renascimento em cada vida, uma nova esperança

Hoje, meu amor, estou com o coração efervescente, espumante em emoção
é Natal! O Menino-Jesus me ofertou, ao teu lado, um festival de vivíficas alegrias
que a ti repasso em forma de um amor em versos com poesia: minha vocação
és, pois, a minha paz, o meu conforto: uma paixão transformada em idolatria
vem e me enlaça em teus braços fortes, que eu me desfaço de qualquer medo

Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)


sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Umbigofobia tem cura?


Muito respeito pela integridade daquela cavidade redonda e cheia de reentrâncias, localizada em seu abdômen; pois, em algum tempo da infância, alguém lhe dissera que uma mínima perfuração no umbigo seria capaz de matar uma pessoa. Cresceu acreditando nesse mito e, mesmo com o advento da razão, jamais permitia que a esposa, os filhos, ou quem quer que fosse, introduzissem o dedo no centro de sua vida, no ponto a partir de onde fora separado da mãe.

Ao descobrir esse esdrúxulo ponto fraco, sua família logo deslindava se, quando estava com as mãos cruzadas sobre o peito e a respiração suspensa, estaria a repetir a rechaçável brincadeira de se fingir de morto. O simples ato de ter o umbigo invadido por um dedo alheio culminaria no milagre da ressurreição – era cediço. Essas cenas foram tantas vezes repetidas, que ele já fingia sucumbido com as mãos sobre a cavidade proibida; assim, sua interpretação novelesca angariaria o benefício da dúvida. Mas, confesse: dessa vez não fui perfeito? Sempre indagava. Nunca, enquanto estiver a proteger o umbiguinho – respondia quem fosse o suposto enganado.

Por ironia do destino, submetera-se a extração de uma hérnia umbilical, mediante uma pequena incisão no orifício místico, após quatro anos de velada resistência. Ao invés de deixar um dreno para a liberação das impurezas orgânicas, o médico lhe fez uma razoável abertura no interior do umbigo, incumbindo a esposa de reabri-la sempre que lhe substituísse os curativos, o que recomendara ser feito duas vezes ao dia até ulterior avaliação. Nessa ocasião, a esposa incrédula lia seus pensamentos, seu pânico contido, a ponto de quase se desconcentrar das explicações médicas. Pobrezinho do meu marido ou seria a oportunidade de curar sua umbigofobia?

Décimo quarto curativo e, ui,ui, uiuuiii... Que foi dessa vez, rapaz? Mal trisquei em você?! Com uma fisionomia de insuperável sofrimento, lágrimas dispostas à precipitação, o marido respondeu aflito: você não sabia que tenho agonia quando o meu umbigo é violado? Por favor, não ria de mim, que a coisa é séria!

A esposa se despira do personagem da enfermeira doce e dedicada e irrompeu em ruidosas gargalhadas... Não concebia que um homem daquele tamanho fosse capaz de verter lágrimas pueris por causa de um cotonete no umbigo, sobremodo, quando da iminente cicatrização do orifício propositadamente elaborado pelo competente cirurgião.

O passo seguinte será uma consulta ao psicólogo na esperança de que haja alguma abordagem psicoterapêutica que cure a umbigofobia. Será que há?

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Meu nobre ancião (tributo a Carlos Moliterno)


Meu nobre ancião
de tez sulcada, corpo arqueado,
respiração arquejante...
a falência de teus órgãos,
fatigados de tanta labuta,
pressupõe chegada a tua hora

Certamente a terra cobrirá
o invólucro de tua alma
não sepultará as marcas
que nos deixaste na memória

Não deixarás saudade
tua poesia embalará os corações
que continuarem pulsando
e teus descendentes,
daqui a muitos anos,
continuarão deleitando-se
nos frutos de tua fecunda imaginação

Os anjos querem-te levar...
lá no céu,
assim como cá na Terra,
também há carência de poeta
serás mais uma estrela a brilhar

Meu nobre ancião
heróica foi tua caminhada
se tens mesmo que partir
que partas
e leva contigo
um pouquinho de todos nós

Simone Moura e Mendes
(Poesia do Livro Incógnita)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O Projeto Justiça à poesia confere parabéns à escritora alagoana ARRIETE VILELA

Divido com você esta alegria:

O livro GRANDE BAÚ, A INFÂNCIA (4ª edição), de Arriete Vilela, recebeu o Prêmio Maria Helena Cardoso (memorialista, irmã do escritor Lúcio Cardoso), conferido pela UBE/RJ (União Brasileira de Escritores/RJ).
A comissão julgadora foi formada pelos escritores Luiz Gondim, Stella Leonardos e Margarida Finkel.
A solenidade de premiação do Concurso Internacional de Literatura UBE-RJ 2010 ocorreu no dia 22 de outubro, na Academia Brasileira de Letras.

Um grande abraço.
Arriete Vilela

Yoko Ono na faixa de segurança


Praticamente um ano de cogitação, preparação e execução da festa de confraternização do Banco Irreal. Afinal, não seria meramente a comemoração do encerramento de mais um exercício de árdua labuta dos funcionários daquela instituição, que se entrincheiram em suas salas no escopo de uma constante superação das extenuantes metas funcionais. Seria o término de um ciclo maior: a aposentadoria do diretor-geral, que convertera seus subordinados em amigos fiéis no transcurso de sua trajetória profissional.

Uma comissão se formou espontaneamente, capitaneada pela vice-diretora; com o aproveitamento de cada emanação de criatividade das partícipes, foi-se manufaturando cada detalhe de um magistral evento. Seria exibido um filme minudentemente produzido por um trio de mulheres que se inauguraram no ofício com artifícios profissionais. Aquela homenagem deveria marcar homericamente o percurso heróico do estimado chefe. Haveria declamação de poesias, apresentação de dança. Não se admitiria chance para qualquer imprevisto. A recomendação foi que todos comparecessem elegantemente trajados; os homens de manga-longa; as mulheres de vestido no comprimento da moda, com cabelos e unhas devidamente tratados, e maquiagem para uma apresentação glamorosa.

Tudo pronto! O bistrô do mais suntuoso hotel da orla marítima enfeitou-se de mais requinte a partir do toque das organizadoras. Escada em caracol iluminada com velas decorativas, a fim de encandear os ansiosos corações com alegria e o encanto do Natal. Os convivas foram servidos de queijos finos, vinho do porto, uísque Old parr, sucos, refrigerantes, e vodca Absolut, em antecedência a um jantar com as mais finais iguarias. Houve um animado sorteio dos brindes obtidos junto aos empresários conhecidos. O DJ contratado deu ritmo e luz aos festejos. A festa, enfim, foi um troféu ao empenho de tantos meses numa frenética maratona das organizadoras. Uma data para ser guardada no corpo e no espírito.

O melhor da festa é a resenha do dia seguinte, sem a máscara do glamour. Na hora de sempre, algumas amigas se encontraram no “shake” – compensariam os excessos calóricos do dia anterior. Ali, cada uma escrevera um capítulo da história. Falou-se na preocupação da amiga nissei, de configuração zen, com a vestimenta. Seus calçados eram todos planos, como obteria a elegância anunciada pelas companheiras? Tomara, por empréstimo, uma sandália altíssima de uma delas, para alívio do ego. Ao deixar o recinto da festa, quem a vira atravessar a avenida ao encontro do carro, traduziu-a como a inspiração de Yoko Ono, a parodiar a célebre travessia da Rua Abbey Road, em Londres, pelos integrantes dos Beatles, eternizada em fotografia. Seus passos eram mínimos, talvez os “calos” fizessem-na sofrer mais do que se estivesse a rastejar no asfalto.

Quem fica até o final da festa, certamente terá o relato dos episódios com os paramentos etílicos. Alguém esquecera o paletó do terno. Quem senão a vice-diretora, a capitã do navio, para responsabilizar-se por tal e fazê-lo chegar ao seu proprietário? Foi exatamente o que se sucedeu. Tudo concluído com os merecidos encômios, ela, a vice-diretora, foi conduzida até as escadarias do prédio onde mora, por um casal de amigos. Conta-se que, com alguns uísques, que subiram para a cabeça e depois desceram aos pés, não percebera quantos indícios de uma sensacional esbórnia, de uma pândega mais que suspeita, indicariam o seu adentrar no requintado edifício do nobre bairro da Ponta Verde. Estancou no primeiro degrau da escadaria a fim de se certificar se os pés estariam com segurança sobre o salto de 10 cm; uma mão ocupada com o paletó de que se fizera depositária, a outra a equilibrar um enorme arranjo de flores e, presa numa das axilas, segurava uma garrafa de vinho já inaugurada.

O que, então, dormita na fértil imaginação dos “fofoqueiros de plantão”, que trocam o aconchego do leito por uma boa história?

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

domingo, 19 de dezembro de 2010

Palavras


Amor Lealdade Desamor Ciúme
Paz Solidariedade Dor Rancor
Humildade Perdão Construir
Renovar Amizade Família Fé


Tantas palavras são ditas e repetidas
cada uma delas carregada de sentidos diferentes
em tom manso ou estridente
são muitas vezes inconseqüentes

Palavras que nos aproximam
palavras que nos distanciam
palavras à toa
sem nexo, nem sentimento
palavras jogadas ao vento

Palavras...
que erguem a nossa ira
que macula os nossos brios
que nos causam arrepios

Palavras de carinho
que acendem nossos desejos
que confortam nosso ninho

Palavras que nos revelam
que ficam embutidas e guardam segredos
que contam a nossa história
que revelam nossas glórias

Palavras, palavras...

Simone Moura e Mendes
(poesia do livro Incógnita)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

As caras e bocas de uma criativa penetra



Detentora dos mais diversos matizes. Um ser singular com desenvoltura plural, visto que exerce, notadamente, com incomum afinco, os misteres de mãe, esposa, servidora pública, estudante de jornalismo, dona de casa... É cronista, nos instantes mortos de seus dias elásticos, que os ressuscita com indizíveis perorações de um espírito sublime, impoluto, tocado pela essência divina. Diz-se feminista, mas somente até a hora da sopa.

Cultora da poesia, das artes plásticas, da música, da dança... Regateia com o esposo e os filhos raríssimos momentos de liberdade para presentear-se com a assistência de apresentações artísticas, quando sua cidade lhe oportuniza. Esposa vinculada ao imperativo atribuído à mulher de César - que não somente deveria ser, mas também parecer ser honesta – encontra em seu filho uma prazerosa companhia, um poderoso álibi para seus deleites culturais, uma vez que o marido aprecia gostos diversos, como, por exemplo, o de procurar o claustro onde cria encantadoras esculturas em madeira.

Naquela noite, carregaria insuperável frustração, caso não aceitasse o convite de sua cunhada para um evento musical no Teatro Gustavo Leite. Não poderia, contudo, dispor da companhia do filho, que se reservara aos jogos de vídeo-game com os coleguinhas de sua idade. Em consideração ao arrimo da cunhada, não encontrara qualquer óbice na manutenção do decoro, com o que não se lhe opunha o marido. Suspirava ao imaginar a majestática noite de músicas, à altura de sua erudição.

Sossegado no maleiro, dormia o seu traje de festa, à guisa dos que punha somente em ocasiões merecedoras da honra de uma presença marcante, diferenciada, em completa dissonância com a trivialidade dos seus hábitos cotidianos. Compunha-se de uma calça pantalona, apta a exclamar todo o seu it; uma blusa de elegante corte ornada de paetês; perfume francês, a competir, vitoriosamente, com o cheiro da naftalina, sistematicamente renovada desde os anos 90; adornos feminilizantes a espargir a elegância de dama da noite; maquiagem a realçar a efervescente ansiedade de não ser meramente uma presença incógnita.

O inexorável escoar das horas não lhe permitira encontrar a cunhada no local combinado, que, por essa razão, lhe deixaria os convites com a atendente do consultório onde clinica. A falha de comunicação com o porteiro do prédio destituiu-lha da posse do convite, privilegiado a apenas destacadíssimas personalidades da sociedade maceioense. Como, então, acessaria ao pretendido recinto? Todo o seu substancial investimento na aparência não ficaria em vão – decidira, com o vigor de dar consecução ao alentado desiderato. Rumara, portanto, ao teatro. Ao chegar à porta, jogando um charme singularizado por caras e bocas, dissera ao porteiro, sem qualquer pudor, que estava sem convite, mas esperaria estoicamente até que alguma alma generosa auscultasse seus anseios e a convidasse a adentrar no auditório. O porteiro, por sua vez, não preparado para lidar com tanta resolução, respondeu-lhe, galantemente, que jamais vira uma penetra tão criativa e que, por tal razão, seu acesso estava devidamente autorizado.

Exuberantemente, descera a escadaria do teatro, sem furtar sua aparição de quem quer que fosse da seleta platéia. Empavonado o seu corpo com distinguidas vestes, alimentaria seu espírito com a arte dos seres de emanações divinas.

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Filho do acaso



Filho do acaso

Sou criança pobre
sem falcon,sem Barbie
sem céu, sem chão
num corpo desalmado
enjaulado na solidão

Caminho pelas ruas tortas
de casas sem tetos, sem portas
sem sistema de amarração
edificadas com papelão

Vago pelas horas ocas
alvejado pelo descaso
como filho do acaso
na ignorância da sorte
que só completa a morte

Sigo pela via da contramão
comendo o pão dormido
da farta bandeja de prata
dos que se dizem meus irmãos


Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A comédia da Vovó Tragédia

Em um ambiente de trabalho compartilhado, não somente se labora. O viver coletivamente é como estar num laboratório de individualidades em permanente interação. Fala-se, inclusive, de política, de futebol, de economia, de festas, de moda, de novela, de cinema, de música, de poesia, dos livros lidos, das questões sociais circundantes, de experiências pessoais e mundanas. Uns costumam comparecer com notícias auspiciosas; outros trazem a piada do dia a fim de espancar a monotonia, minorar as vicissitudes, a face exaustiva do dia-a-dia. Todavia, há sempre alguém que, seja por coincidência ou por peculiar escolha dos óculos que o faculta enxergar a vida, são contumazes entregadores de seus maus presságios, ou narradores das intercorrências drásticas do mundo, do seu habitat.

No setor de atendimento de uma Secretaria Municipal, há a Senhora Rafa. Uma Vovó precocemente fabricada pelos tropeços inconseqüentes dos filhos - tão que jovem que, por ironia, a chamam de Vovó. Vários netos sob sua tutela. Trata-se de uma jovem senhora austera no lidar com os compromissos de que a vida lhe incumbira; sempre em alerta e a postos para socorrer, auxiliar a quem a solicita, com o melhor de seus préstimos, movida pela prodigalidade de seu coração. Quando ri, esbanja o ar dos pulmões, promovendo uma catarse nas agruras que teimam em lhe mitigar a alegria. Mas ela é um inveterada perseguidora da felicidade. Passa o expediente a perguntar “pois não, senhor? Pois não, senhora?”, com o resoluto escopo de cumprir o nobilitante mister de funcionária pública. Se ela tira férias ou licença, o público logo pergunta pela Senhora Rafa, da data designada para seu retorno.

O ritual da Senhora Rafa, após adentrar na grande sala da Secretaria, é sentar-se ao balcão do atendimento, ligar o computador, dar um suspiro meio agônico, e contar do homem que morrera eletrocutado na rua em que mora, em Pilar; do medo de que as chuvas torrenciais provoquem o transbordamento do rio, em Pilar; dos acidentes de trânsito na estrada de Pilar; dos assaltos a ônibus nas cercanias de Pilar; da explosão do botijão de gás numa casa vizinha à sua amiga, em Pilar; de um crime passional, em Pilar... Os fatos que chegam ao seu conhecimento, e são recontados por si, têm sempre um quê de tragédia. Ganhara, portanto, o codinome de Vovó Tragédia e, com isso, lida de modo bem-humorado - somente vez por outra verbaliza alguns impropérios, sobremodo, quando o céu amanhece púmbleo.

No último período de suas férias anuais, fora substituída por uma colega. Esta, ao ligar o computador, menciona, fortuitamente, uma catástrofe veiculada na internet. “Mas, como é que é? Basta sentar no local da Vovó Tragédia para reproduzir seus dizeres?” Interveio o amigo que desviara a atenção dos processos de cobrança fiscal para salpicar sua pitada de irreverência. As gargalhadas ecoaram uníssonas a inaugurar a sessão de irreverências daquele expediente.
Noutra situação, aquele mesmo interventor comentara das ações repressivas do Poder Público no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Vovó Tragédia, que, nessa ocasião, fazia um atendimento e, portanto, estaria alheia aos comentários, inocentemente, perguntara onde havia ocorrido o fato narrado. A resposta foi rápida e precisa: isso foi no Pilar – você não ouviu falar? Vovó Tragédia perdera a compostura e mandou o amigo “se catar”. Novas gargalhadas espocaram...


Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A ti, Cláudio!

Faço-te uma canção, com esmero
clamo-te em oração, por desvelo
Cláudio, amor meu!
minha sandice, meu desmantelo
meu limite, meu horizonte

Amo-te tão intensamente que dói
uma dor gostosa e salutar
que não me faz saciar
meu ímpeto de mais e mais
e sempre mais querer-te amar

Ao conhecer-te, aflorou-me o medo
já incrustado por outros desassossegos
mas, não sem razão
minha intuição de mulher
guiou-me inelutavelmente a ti
e nosso idílio foi abençoado
por anjos, arcanjos e serafins

Cláudio, amor meu!
sábia emanação de Deus
celebração de ternura
o precursor és das minhas venturas

Portanto, amar-te-ei em vida,
e antes e após me abater a morte
é o teu nome que chamarei

Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Eu mesma... nua)

domingo, 5 de dezembro de 2010

Boas Festas (Assis Valente) - Sexteto Piracicabano (2002)




BOAS FESTAS
Composição de Assis Valente

Anoiteceu, o sino gemeu
E a gente ficou feliz a rezar
Papai Noel, vê se você tem
A felicidade pra você me dar
Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
E assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel
Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem

sábado, 4 de dezembro de 2010

Família unida no "porre" permanece unida na vida

Um ano inteiro de preparação. Os pais de Dora sonhavam com a hora de entregar a filha mais velha ao noivo, no altar, para o recebimento das bênçãos do Senhor. Seria um faustoso evento, o mais memorável da pequenina Maceió; afinal, sua primogênita, menina destacada no Judô como atleta de elite, merecia o mais acurado esmero no dia de tão sagrada importância na sua vida. A família, de vários tios, de um lado e de outro, se envolvera intensamente nos preparativos; cada membro com seu palpite, a fim de que nenhuma filigrana escapasse ao requinte pretendido na cerimônia.

Chegara o dia de inédita alegria. À hora do ocaso a noiva desponta, pomposamente, na nave central da igreja, trajada num riquíssimo vestido de calda longa, enfeitado com pedras e renascença, a esbanjar pulcritude, a arrebatar encantamento nos convivas e suspiros de amor no elegante noivo. Aliás, tal como a “casa muito engraçada”, da fantasia de Vinícius de Morais, a igreja não tinha parede; fora ela ressuscitada do abandono dos fiéis, que passaram a frequentar a nova capela, ali próxima, através da farta criatividade dos decoradores contratados. Transformaram-na numa catedral de sonhos.

Tanto Dora quanto o noivo são jovens desportistas de muito carisma, e os pais de ambos, são pessoas de excelente conceito social. Portanto, o casamento esteve prestigiado por amigos de várias partes do interior e até de outros Estados. A despeito da pequena multidão de convidados, todo mundo ficou bem acomodado no local da recepção, que estava deslumbrantemente singular. Havia tendas iluminadas por todo o salão abastecidas com os mais variados tipos de bebidas e apetitosas iguarias; os doces, de tão bonitos, suscitava dó em quem fosse comê-los. O dancing recebera os noivos e os convivas para a celebração de pululante felicidade e a banda de música os fazia “balançarem o esqueleto” catarticamente. Naquele dia, até quem jamais fora visto com bebida alcoólica, moderou os freios e deixou o raiar o dia recebê-lo ébrio.

Na primeira oportunidade de ser debulhada a resenha da festa, contou-se que a única irmã da noiva, deixada pelo namorado em sua residência, somente no jardim da casa, percebera-se presa do lado de fora, tendo deixado o celular no porta-luvas do carro; alguém, cuja autoria não foi descoberta, deixara trancada aquela porta que sempre era mantida aberta. Devastada pela bebida, Leninha, sem qualquer hesitação, aconchegara o corpo no banco de madeira, à pérgola da piscina, sob a noite decrépita, e entregou-se aos ”braços do morféu”.

Duas horas depois, chegaram os pais, um se equilibrando no outro. Eles sequer fariam o “quatro” e estavam sem a chave, também. Trôpego, o pai resolveu pular o portão lateral para socorrer-se da secretária, de cujo quarto estava aos fundos; foi ele desconhecido pelo próprio cão, um dobermann, certamente, pelo tempero do álcool a confundir-lhe o olfato; inerme, sob o torpor impiedoso da bebida e do sono, não soube reagir ao ataque do ex-amigo – cão – à perna da calça de seu caríssimo terno italiano através da grade do canil, inclusive, causando-lhe ferimento.

O sol daquele dia foi saudado por um insólito acontecimento: a SAMU fora chamada e atendeu o pai da noiva, sob deplorável estado etílico, esvaindo-se em choro por ter sido traído pelo amigo fiel e pela destruição de seu traje de gala. A esposa, mãe da noiva, como ébria solidária, chorou o infortúnio do marido. A filha caçula, por sua vez, mal despertada do homérico “porre”, levantara-se do banco, com o corpo empenado, e, vendo o pai e a mãe chorarem, sob a assistência atônita dos paramédicos, engrossou o coro de pranto. Um deles, o mais irreverente dos socorristas presentes, não concebendo seriedade em tão inusitado episódio, os consolara da seguinte forma: não chorem! Família unida no “porre” permanece unida na vida.

Simone Moura e Mendes (Crônica inédita)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Aceito


imgurl=http://www.dtvb.ibilce.unesp.br/astronomia/nb_mapa_geografico_hemisferio_norte

Aceito outro som
outra pátria, o frio
a saudade, o espaço
o Hemisfério Norte

Aceito os miasmas
- vindos do sótão -
o obscuro, a solidão
a carência de colo

Aceito olhar a chã
- que se perde de vista -
e, em sonho, voejo
adejo meu litoral
de intenso azul

E quando de lá voltar
e os meus abraçar
verterei lágrimas
por quem lá deixei

Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)