Filha de Fiscal de Renda, Camélia peregrinou, durante toda a infância, pelas cidades do interior alagoano. Poderia não ter fincado raízes; mas deixara nós de marinheiro de amizade em cada morada. Essa é a marca definidora dessa menina franzina e obstinada; sua aparência débil contradiz sua capacidade de enlaçar um touro, se essa for uma meta altruísta e seu desejo repousar-lhe os olhos. Melhinha, ciganeando por colégios públicos, também, não se acovardou perante outros hercúleos obstáculos que a vida lhe impôs; quis ser médica, e foi.
Seu Pai arvorava-se do mais límpido grau de honestidade no desempenho de seus misteres de fiscal das receitas públicas e, ademais, era o único provedor de uma família de três filhos, com ninguém mais suscetível a lhe prestar eventual suporte financeiro, considerando ser, ainda, o mais abastado dos irmãos. Não obstante isso prometera devotar recurso mínimo a fim de que Melhinha pudesse administrar o seu sustento em São Paulo durante os últimos anos de medicina.
Um grave percalço tomara a dianteira da vida daquela adolescente, apto a, inclusive, lhe comprometer a trajetória acadêmica. Um câncer de cólon vitimou sua genitora. Melhinha se dividia entre os exaustivos estudos e o tratamento da mãe, que acompanhara em todos os meandros, a despeito de seus parcos conhecimentos na qualidade de mera estudante.
Chegara o momento da decisão: permanecer ao lado da mãe, cujo definitivo declínio vital era iminente ou investir no tão alentado futuro profissional conforme orientação sábia e desapegada daquela que a veiculou ao mundo. Melhinha deixara, portanto, a alma em Maceió e, levou, com a bagagem, um coração corroído pelo cupim do remorso e da tristeza. Pôs os pés na “Paulicéia desvairada”.
Como estudar para a residência em reumatologia, se estava ausente até de si? Deus inventou a coragem e somente os fortes a encontra. Lograra aprovação em duas das três provas a que se submetera. Uma das bancas examinadoras lhe atribuíra nota nove, sem entender, contudo, como uma pretensa residente de reumatologia poderia dispor de conhecimentos tão vastos acerca do tratamento para o câncer de cólon. Dentre tantos, esse foi o ponto sorteado – o dedo de Deus? Indubitavelmente. Teria, antes de passar pela banca, de fazer uma anamnese numa paciente com idêntica sorte de sua mãe. Ao chegar a seu leito, contara sua dramática história e lhe rogou colaboração no relato dos deletérios sintomas da doença. A paciente fizera jus a esse nome naquela oportunidade: PACIENTE! Descrevera com rigorosas minúcias sua caminhada para a morte.
Melhinha, por sua vez, enquanto colhia os louros da conquista, conferiu à sua genitora mais essa alegria. Agradeceu a Deus, clamando-Lhe que dispusesse de um berço confortável para sua mãe e aquela senhorinha no seu céu de amor e redenção.
Fez-se uma mulher-mãe-esposa-filha-nora-amiga-irmã dedicada e, acima de tudo, guerreira. Vencera muitas outras batalhas; é saneamento para muitas dores reumáticas, muitas convalescências anímicas. Bravíssima Melhinha! Deus está contigo! Que venha o Minotauro e você se travestirá de Teseu!
Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)











