A poesia me encontrou. Encontrei-me na poesia! Concedo-lha portentosas asas para alçar longínquos voos e disseminar sonhos nos corações cúmplices e sensíveis. Que ela logre fabulosos rasantes em vastos mundos prenhes de luz e encontre, por fim, felizes e aconchegantes moradas em almas renovadas.

Simone Moura e Mendes

sábado, 30 de outubro de 2010

Minha célula-tronco

Dormiu atônito meu ontem
numa ira de cor crepuscular
de ígnea sensação térmica
lesionando a medula do meu eu

Meu hoje despertou radiante
com a força do arrebol
com a magia da esperança
e a placidez da temperança
realinhando minha vida
reentronando meu eu
sarando minhas feridas

Tenho meu hoje em você
tenho você no meu hoje
meu amanhã será melhor
no ocaso e no arrebol
você: minha célula-tronco

Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Relativismo

Referência dita aparência
absoluta razão?
que razão?
diga-me quem a tem
que Eisntein desdirá

O idealismo é oportunismo
de comunistas ou democratas
o relativismo doutrina a vida
relatividade é a lei do artista

Não falo por mim
eu nada sei
nada sou... estou
sou matéria, sou um corpo
uma miragem do presente

Não há límpido pensar
o interesse faz o jogo
exceto no coração do sábio
ou na vida do eremita

Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Dinho: seu medo e suas cirurgias


Seria medo de morrer, medo da dor ou aquele medo inexplicável inerente a grande parte da população masculina? Agulha, cortes, sangue, parece até coisa destinada à mulher, afinal, Deus foi quem a elegera para a concepção de filhos.

Inobstante isso, Dinho provocara seu organismo com alimentação desregrada. Seu lanchinho da tarde poderia ser nada menos do que dois litros de Coca-cola com sessenta ovos de codorna. A saída do Cine Pajuçara era normalmente sucedida pelos sanduíches do “Baitakão” temperados com um tubo de maionese e meio de ketchup. Além de outras extravagâncias. O que poderia ele esperar?

Precocemente, seus maus hábitos causaram-lhe severas punições com o sofrimento de fortes dores abdominais e o recebimento do parecer médico de que estaria com um enorme cálculo biliar, onde o remédio seria a colecistectomia. O que é isso doutor? Tenho salvação? Pergunta Dinho, com os olhos esbugalhados. E com um sorrisinho irônico, respondera-lhe o médico: mas é claro, meu rapaz! Apenas extrair-lhe-ei a vesícula, o resto fica. Você poderá ter vida normal. É claro que mediante o cuidado de não cometer novos exageros, máxime no tocante a ingestão de alimentos gordurosos.
Após os exames pré-operatórios de praxe e algumas noites insones, internara-se, pesarosamente, na noite do aniversário de sua genitora. E, no dia seguinte, quando o enfermeiro anunciava ser chegada a hora de conduzi-lo ao centro cirúrgico, Dinho, em segredo, rogara a seus pais que, caso a vida lhe fosse ceifada, o apartamento comprado recentemente deveria ser doado à sua noiva, com quem se casaria em data próxima. A protetora companhia de sua prima, então acadêmica de medicina, servir-lhe-ia de conforto emocional.

Os atos preliminares foram cuidadosamente observados pela prima, que ali estava em missão de caráter especial. Era a anestesia de que mais temia Dinho. Já deitado na posição lateral, conforme lhe recomendara a anestesista, voltara o olhar para trás de modo que nada vira, senão a enorme agulha prestes a lhe ser introduzida na coluna. Lívido, indagara: doutora, essa é a agulha, é? Puft! Caíra desmaiado, sem esperar a resposta. O reboliço entre os envolvidos naquele processo foi grande: vamos lhe administrar tranqüilizantes – fora o consenso médico. Retomada a consciência, ouvira a voz suave da especialista a dizer-lhe: respire fundo, meu amigo, e fique na posição fetal, que agora vai dar tudo certo! Iniciada a incisão, sua prima noticiara ao cirurgião que Dinho já havia sofrido três crises de apendicite. O médico, portanto, atravessara-lhe verticalmente o abdômen com um corte lateral à direita, a fim de extirpar-lhe também o apêndice.

Vários anos transcorridos e o tormentoso stress da cirurgia, paulatinamente, foi ficando esquecido. Sua, agora, esposa, preocupada com novos infortúnios, vive a lhe alertar: Dinho, cuidado, pois você não vai poder escolher qual o próximo órgão a lhe ser retirado, meu filho? E se for o coração, rapaz? Ô, minha querida! Quem mandou me fazerem esse fecho eclair aqui na minha barriga? É só abri-lo e a comida entra fácil! Fique tranqüila, mulher, que seu maridinho vai viver bem muito! Sua resposta travessa, senão inconsequente, não o livrou de uma nova intervenção cirúrgica. Dessa vez, os órgãos do aparelho digestório, intestino e estômago, não suportaram a pressão interna, o que redundara em duas hérnias: uma umbilical e outra epigástrica. Prepara-se Dinho para outra cirurgia, com o medo de sempre, mas socorrendo-se da observação: se eu viver, estarei no seio de minha família e, se morrer, nos braços de minha mãe. Você não tem outras asneiras para falar, não, Dinho? Ora, criatura, você vai viver até aprender a zelar mais por sua própria vida e não somente pela vida dos outros! Intervém a esposa.
Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Uma escolha: uma possível sentença

Foto de Simone Moura e Mendes

Acontecia uma festa literária na histórica e aconchegante cidade de Marechal Deodoro/AL, a I FLIMAR. Aquele evento, inusitado nas terras alagoanas, provocara euforia e encantamento aos cultores das letras, mormente os do Estado, tão carentes de tal. Essa festa fora fruto do espírito corajoso e empreendedor do escritor Carlito Lima, que não poupara esforços para a materialização de um sonho por tantos compartidos.

A festa fora engrandecida com a presença de muitos escritores de renome das Alagoas, dos provenientes de outros estados e até de outro país, a exemplo da argentina Adriana Ruiz. Os alagoanos, festeiros e calorosos, deram o tom da animação. Um grupo de amigos, uniformizado com a camiseta confeccionada para o evento, realizara o lançamento de um blog de uma convicta alagoana, que, inclusive, obtivera a honraria de figurar entre os comparsas do Besta Fubana, do engenhoso Papa Luiz Berto. A experiência, como um todo, fizera-se marcante para todos os presentes, em suma.

O grupo promotor do blog, após aplaudir a talentosa declamadora Marta Angélica, que vestira de beleza a poesia dessa escritora alagoana, presente no recinto, permanecera confortavelmente sentado no auditório do Espaço Cultural Santa Maria Magdalena da ALAGOA do Sul – Centro Histórico, inebriado com as interessantes palestras programadas para o dia, todas de grande brilho e vultoso valor cultural.

Numa das palestras, o público deleitava-se com o criativo escritor Zelito Nunes, contador eloquente das histórias de Beradeiro, que, num dos “causos” do dia, estaria a desdenhar dos nomes ousadamente escolhidos por muitos pais para os incautos filhos, que, injustamente, seriam sentenciados a carregá-los por toda a vida, sendo alvo das mais inoportunas e, por vezes, vexatórias situações. Quando Zelito, porém, brincara com o próprio nome, uma das integrantes do grupo do blog, a árduo custo, conteve-se para não intervir em alto e bom som: “você está sendo injusto com seus pais, Zelito! Pior é ter um namorado de nome Coriolando, que é irmão de Patrocles, filho de Crisalva, vizinho de Fleurizia, e, como se não bastasse, amigo de Cardiolândia e Eluzitândia”.

Alguns pais, por exemplo, no afã de darem prestígio a membros da família, fazem composição de nomes, que, de forma alguma, guardam eufonia, resultando em sua natural substituição por alcunhas, o que pode, inclusive, culminar na alteração da identidade de seus detentores. Não é por acaso que inumeráveis pessoas, ao alcançarem maior idade, invocam a Lei nº 6.015, de 31 de dezembro de 1973, com vistas à alteração dessa mácula, cessando, assim, seus constrangimentos.
Fique, pois, para os pais grávidos essa relevante reflexão!

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Não à conduta antiecológica!


Uma jovem senhora contemplava o mundo do alto da varanda de seu apartamento. Atraíra-se pelo céu de brigadeiro e pelo intenso movimento da rua. Ficara horas a fio observando a passagem da vida e admirando a consciência política – quer nisso acreditar - dos humildes cidadãos que se deslocam de suas cidades interioranas em ônibus velhos e desconfortáveis com o escopo de fortalecer a campanha de seus candidatos. A rua onde mora e as circunvizinhas estavam repletas desses ônibus e de pessoas circulando por todos os lados. Quanta cidadania nessas humildes criaturas!

Um fato, porém, chamara-lhe atenção: um barulho de latas – e não somente eram latas – estavam sendo arremessadas das janelas dos ônibus. Será que essas pessoas, supostamente, no exercício de sua consciência política não teriam, igualmente, responsabilidade social e ecológica? Os encarregados da distribuição do lanche deveriam, afinal, ser encarregados pelos coordenadores de campanha ou pelos próprios políticos a instarem esses eleitores à preservação do meio-ambiente. O que custaria distribuir sacolinhas para coleta do lixo considerando a vultosa soma gasta em todo o processo de campanha?


Lembrara-se, então, da 3ª Lei de Newton, aprendida, ainda, no colegial: "toda ação provoca uma reação de igual intensidade, mesma direção e em sentido contrário". Estendera esse ensinamento para as mais variadas dimensões de sua existência e isso servira-lhe de subsídio na formação de seus filhos.

A chuva viria em breve, arrastaria aquelas latinhas, os saquinhos de lanche e outros objetos atirados, para dentro dos bueiros, que seriam impedidos de cumprir a função de escoamento das águas, culminando em grandes alagamentos como sói acontecer. De que forma seria possível culpar o Poder Público, senão pelo insuficiente trabalho de conscientização da população? Primeiro a educação, depois viria sanção para os renitentes infratores - quem sabe até através da elaboração de leis em que houvesse previsão de multa, conforme se vê nos países de Primeiro Mundo?


Uma observação é necessária: não se pode olvidar que essa conduta mal-educada e antiecológica é amiúde praticada por pessoas que circulam em carros de luxo pelas ruas da cidade, pelas rodovias. Nesse caso, presume-se que não seja falta de informação. De que outro modo eles poderiam ser transformados em cidadãos ecologicamente corretos, senão mediante a imputação de severas multas? Multas essas que poderiam ser revertidas em investimentos na própria educação, por exemplo. Outra excelente opção seria estimular a reciclagem do lixo a fim de promover geração de renda.


A cidadania somente não se exerce por intermédio do voto. Um país não se desenvolve, senão através de eficazes políticas no campo da educação, inclusive, como modo de profilaxia de muitas doenças. A cada um cabe fazer a sua parte!

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

domingo, 24 de outubro de 2010

O amor vingou

Eu queria ser breve
mas você deu o tom
e a cor mais bonita
deu o modelo exato
o toque mais singelo
o movimento sereno
o sorriso mais ingênuo

E o amor vingou
frutificou, amadureceu
venceu minha resistência
apaziguou meu coração
espancou meus medos
restituiu-me a vida perdida
a minha essência varrida

Somente você, meu amor!

Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O sonho 4 x 4 de uma família de “zequinhas”

Foto de Ed Brito

“Tem pecinho, tem, painho”? Perguntara, inocentemente, Fofolete - como lhe chamava a dedicada pediatra em virtude do esplendor de sua beleza. Denota-se que essa pergunta já ruminava no imaginário da criança quando sequer sabia falar, inquietando-a sempre que na oportunidade de realizar os passeios dominicais na companhia dos pais, no automóvel branco da família, severamente perfurado pela ferrugem por cujos orifícios penetravam a água da chuva, a ponto de formar um aquário em seu interior. Conforme a aceleração ou frenagem, a água ia e vinha pelo assoalho, intrigando Fofolete, que exultava na esperança de brincar com os peixinhos de sua imaginação.

O jovem par iniciara sua vida conjugal residindo em um charmoso apartamento de 44 m2 de área privativa. O carro, remanescente do compartilhamento com outros dois irmãos, à época de solteiro, fora doado pelos avôs paternos de Fofolete. Ocorre que, na pressa de consumar o amor pululante, esse casal, além de não se ter abastecido de todo o necessário aparato para a inauguração de nova vida de maneira mais confortável, pré-fabricara Fofolete – o que, de modo algum, culminara em arrependimentos, mesmo quando se acresceram, a esse fato, vários meses de salário atrasado, tanto do marido quanto da esposa. Destarte, estes não viram alternativa, senão relegar o automóvel à semelhança de queijo suíço, por dentro e por fora. Todavia, lidavam com o estado de fato e de direito de forma bem-humorada, eis que a concretização do amor sobejava a qualquer revés material.

Viveram, marido, mulher, a filhinha, e depois, mais outro rebento, inúmeras situações cômicas, consoante podem ser interpretadas. Dentre essas, a de terem sido presenteados com a “chave” de um apartamento maior e de melhor localização, sem que se tivessem mudado em tempo razoável, porquanto houvessem comprado portas mais bonitas e resistentes, sem poder ter, contudo, como assentá-las, em razão da inexistência de recursos financeiros disponíveis para a compra da fechadura. Considere-se, ademais, que grande parte do salário de ambos era consumida com remédios e terapias para o filho mais novo, acometido bilateralmente com herança alérgica: a rinite e outros tantos “ites”. Ou seja: era uma verdadeira “pindaíba”!

Entretanto, o amor, a perseverança e a força de trabalho são as molas propulsoras da prosperidade. Com o auxílio dos ganhos extras da atividade de sacoleira de roupas da esposa, o casal pudera adquirir um Chevette/86 que, para eles, tinha o valor de um Monza. O carro já saíra da loja devidamente segurado – um fabuloso progresso patrimonial somado ao imensurável patrimônio imaterial ideal e materialmente preservado.

Filhos já maiores (três, então), a família, por intermédio de amigos-irmãos, descobrira os encantos da lama. Daí, o sonho de um veículo com tração 4 x 4, capaz de viabilizar as aventuras nos charcos, em íntimo contato com os paraísos ecológicos de seu País, que passara a ser de todos o mais acalentado sonho. Por muito tempo, a incapacidade financeira de realizá-lo não a furtara, porém, do prazer de tais passeios. Para isso, servem os amigos! Qual o problema da aquisição do honroso título de eterno “zequinha” – para quem não sabe, zequinha é aquele que nem é piloto nem é navegador; é, pois, quem realiza outras tarefas atinentes à trilha, ao rali, à expedição, a exemplo de tirar fotografias, abrir cancelas; é um faz tudo; em síntese, um caronista com bastante trabalho.

Chegariam, marido, mulher e filhos, mais perto da realização desse sonho, porquanto, com o incentivo dos amigos cúmplices, adquiriram um Jeep Willys/59, que, em consideração ao zelo do marido com a família e seu alto grau de perfeccionismo, deveria ser todo reformado. Assim, o chassi ficara numa oficina a fim de que fosse criteriosamente refeito, a carroceria noutra e várias peças dispersas em muitos lugares. A inauguração do “possante” era aguardada com ansiedade, mas com parcimônia de atitude, tanto por parte de seus proprietários, quanto dos mecânicos. O tempo fluía célere e muitos dos amigos não criam sequer na sua existência, dando-lhes, portanto, o codinome de “Ghost”, com direito a tema musical. Nas reuniões, as galhofas eram lugar-comum.

Três anos e, nada! Até que uma oportunidade caíra-lhes do céu; afinal, tudo no momento certo para essa família, no tempo de Deus, conquanto lidassem com expressiva e inevitável ansiedade. Destaque-se que isso ocorrera nas vésperas de uma programada aventura por um dos braços da Estrada Real. Um companheiro de lama, igualmente, desejoso de que esses sonhadores deixassem a posição de “zequinha”, oferecera um simpaticíssimo carrinho a altura da possibilidade de generosas aventuras, em troca do “ Ghost”, que entraria no negócio por justo valor, de uma quantia em dinheiro e de quinze cheques pré-datados. A paixão à primeira vista pelo novo companheiro, o carro, dissipara qualquer hesitação. Negócio sacramentado, com muita comemoração regada à poeira, natureza e amizades. Ufa! Daí em diante, era somente por os pés na estrada.

Não havia mais por que sonhar, pois que, em se tratando de automóvel, estariam satisfeitos os seus desejos de consumo. Contudo, um consórcio de cem parcelas com vistas a um desses carros já estava em curso por cerca de quatro anos: tolice! O que são cem meses, afinal? O que na vida importa é atitude, pois as coisas não mudam na inação e o tempo passa de qualquer forma.

Esses quase quatro anos, antes dessa última aquisição, eram contados, todos, mês após mês. Enfim, o grande dia de ter nas mãos o novo brinquedinho de adulto, que transportaria, além de as crianças existentes em cada um dos membros do casal, seus filhos e outros “zequinhas” – sem, no entanto, a intenção de perder o título com que fora, carinhosamente, agraciado o casal dessa família: uma vez “zequinha”, sempre “zequinha”, por que não?

Doravante, “zequinhas” felizes, amigos contentes. Eis, então, a materialização do sonho 4 x 4, e, agora realizado em dose dupla com a contemplação no referido consórcio. Espera-os, pois, o desfrute de muitas alegrias e, com prudência, responsabilidade ecológica, paixão pela aventura, voarão baixo na dimensão de um sonho coletivizado.

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Quatro nordestinos em Nova York

Foto de Simone M Mendes

De modo contumaz, dois casais de amigos brindavam o término dos dias úteis nos barzinhos pitorescos da cidade. Na descontração do ambiente, auxiliada pelo mágico poder de alguns aperitivos, faziam digressões dos fatos da semana, traçavam os planos para o sábado e domingo e, frequentemente, despiam seus sonhos com diversificados destinos de viagem. Nessas agradáveis e oníricas conversas, surgiram a quase totalidade dos planos das viagens que fizeram, todos eles com cerca de um ano de antecedência. O escoar do tempo era em função do dia de largada a roteiros normalmente alterados ao sabor das novas ideias e oportunidades. Essas mudanças sempre culminaram em plena satisfação para todo o grupo.

O forte apelo capitalista novaiorquino seduziu implacavelmente esses amigos. Mas nós não falamos inglês, como vai ser a comunicação para atendimento de nossas necessidades? Perguntava um. Onde vamos conseguir dinheiro para uma viagem tão além de nossos padrões de consumo? Retrucava outro. Nisso o mais ousado respondia: gente, a viagem é para Nova York, não é para marte, eles são também do Planeta Terra, pessoal! Por acaso não sabem o mimiquês? Quanto ao dinheiro, é somente uma questão de planejamento; a gente mentaliza a viagem como prioridade, muda os locais frequentados nos fins de semana, fazendo mais vezes opção por botequinhos, onde, além de o tira-gosto e a bebida terem preços acessíveis, a cerveja é gelaaaaaaáda! Fora a solução apresentada pelo mais andarilho do grupo. Mediante a pronta anuência pela firmeza com que este defendera seus argumentos, todos foram dar consecução ao magnífico projeto.

O dia ansiado chegara! Os ânimos estavam em ebulição! Dólares contados, amparados pelo cartão de crédito, onde os eventuais excessos seriam pendurados e, vôo “altamente internacioná” – como diria Jessier Quirino - com direito a filmes reproduzidos numa tela afixada na parte traseira do encosto da poltrona da frente. Quem poderia imaginar que quatro nordestinos, sendo dois, de origem, e dois, por adoção, pudessem voar tão alto? Somente com muita ousadia de pretensões e, obviamente, com o assentimento do Pai Maior, isso seria factível.
Os ares gélidos de (agora) New York, não seriam capazes de provocar choque térmico na animação dos casais, tamanha e incontida era a excitação. Os hábitos singelos, a escassez de recursos financeiros e a confiança entre si, fizerem com que os quatros amigos ficassem hospedados no mesmo quarto de hotel, que dispunha de duas camas enormes. O tal hotel já foi considerado pelos internautas um dos mais sujos do mundo. Aliás, exageradíssima essa opinião! O preço e localização - no coração da Times Square - justificaria essa alternativa. Por que então, gastariam à toa? Esse dinheiro seria destinado às peças de teatro da Broadway, à visitação da estátua da liberdade, às refeições no Europa Café e, com o troco, comer-se-ia o hot dog da esquina.

Tudo, então, transcorria muito bem. Um dos homens a perguntar “speak spanish?” - a quem fosse pedir informação. Caso o outro interlocutor só falasse inglês, a comunicação ficaria a cargo dos outros três, já deveras olvidados do inglês lecionado no colégio. Quando nada entendiam, davam asas à universal linguagem do mimiquês – era, quase sempre, infalível.
Contudo, ir a New York e não assistir ao “Fantasma da Ópera” comparava-se a ir “a Roma e não ver o Papa”. Não, eles não teriam coragem de voltar com essa indigna ausência! Não havia, porém, uma programação rígida para cada dia, de modo que aproveitavam as oportunidades que se lhes aparecessem. Como não poderia deixar de ser, “O Fantasma da Ópera” fora lembrado por uma das mulheres, quando saíam do Rockefeller Center. Mas, e agora, como vamos saber a localização do teatro? Não se poderia dizer de usar o modo trivial da expressão “quem tem boca vai a Roma” (expressão correta: “quem tem boca, vaia Roma). E agora?

A autora daquela ideia, resolutamente, dirigira-se ao guichê de informações ao turista: good afternoon! Where’s The Ghost of the Opera? What? Compassadamente repetira: Where is The Ghost of the Opera? What?! Nada entendera o informante. Vou mesclar com o mimiquês, pensara ela. Where’s huuuuummmmm of the Opera – isso, gesticulando com as mãos para cima a imitar a conduta de um fantasma. Oh Yes! Ok, ok, ok. Mal contendo o riso, ele, o informante, dissera-lhe, sob a audiência dos demais: The Phantom of the Opera! Não havia jeito, senão rir de si mesma e suportar estoicamente todas as pilhérias que essa sua gafe fosse render. Por outro lado, juntando uma palavra aqui outra ali, somados aos gestos das mãos, ficaria fácil localizar. Resolveram, todavia, não comprar quando chegaram ao local, prevendo alguma mudança de planos.

Mas, finalmente, eles acertariam?... Não!!! Iriam comprar o ingresso da peça errada, somente porque o teatro era na direção dos gestos do informante e possuía, como todos os demais, um cartaz daquela peça teatral, não fosse a providente intervenção da filha de um amigo comum, que, morando na cidade, lhes ciceroneara em alguns passeios. A gafe seria coletiva, então! Rsrsrsrsrsrsrs.
É o que dá com quatro nordestinos em Nova York! Oxente!

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Lançamento do livro de Carlito Lima

Simone M Mendes, Sandra M Salgado, Maestro Zezinho, 
Arriete Vilela e Ana Cláudia C. F. Cavalcanti
Foto de Marta Martins

Simone M Mendes, Ana Cláudia Fortes, 
Marta Martins e seu filho Lucas.
Foto de Sandra M Salgado

Carlito Lima autografando os exemplares de Sandra M Salgado,
Simone M. Mendes e Marta Martins. À direita Maestro Zezinho.
Foto de Ana Cláudia Fortes

Simone Moura e Mendes, Arriete Vilela e Sandra M Salgado
Foto de Ana Cláudia C. F. Cavalcanti

Na última sexta-feira, 15 de outubro de 2010, no IPHAN, que fica localizado na Rua Sá e Albuquerque, no Bairro de Jaraguá, as inseparáveis amigas Ana Cláudia C. Fortes, Sandra Salgado, Simone Moura e Mendes e a magistral declamadora Marta Angélica, ainda, entusiasmadas com o sucesso do lançamento do Projeto "Justiça à Poesia", realizado na 3ª Vara do Trabalho de Maceió, no dia anterior, prestigiaram o lançamento do livro "As Melhores histórias do Velho Capita", do atuante Secretário de Cultura de Marechal Deodoro/AL, Carlito Lima, o grande idealizador da inolvidável 1ª Festa Literária daquele município. O livro traz as 70 melhores histórias do autor dentre as mais de 500 já publicadas, as quais foram selecionadas por oito mulheres. No ensejo, o eminente escritor proferiu a palestra “Jaraguá sua origem, sua poesia, sua boemia”. Esse evento foi, inclusive, abrilhantado com a declamação de poesias de Simone Moura e Mendes, a exemplo de Ah! Poeta, pela talentosa declamadora Marta Angélica.

sábado, 16 de outubro de 2010

De tração 4 x 4


Foto de Simone Moura e Mendes

Veículos de tração 4 x 4 perfilados no local de sempre, com disposição para o enfrentamento de qualquer tipo de terreno, fosse ele asfáltico, pedregoso, arenoso ou lamacento e com rádio comunicador nas mãos, os amigos aventureiros mal continham a alegria entusiástica de embrenharem-se na estrada rumo à Mangue Seco, no Estado da Bahia.

Superado o Povoado Costa Azul, o deslumbramento com o conjunto paisagístico de praia, mar, duna e coqueiral não poderia distrair a atenção dos jipeiros alagoanos dos locais de desovas das tartarugas marinhas, cuidadosamente demarcados pelo Projeto Tamar; afinal, jipeiro que se preze somente deixa as marcas da energia de sua infinita contemplação com os lugares aonde passa, interage com o ambiente com um toque de “luva de pelica”, a fim de não deixar rastros nem impressões digitais. No entanto, não puderam deixar de apiedarem-se com a natureza humana ao vislumbrar garrafas pets, latas de cerveja e outros tantos dejetos ao largo do caminho.

O trajeto sobre as dunas, considerando que em Mangue Seco ainda se permite essa interação entre a máquina e a natureza, deu azo a um total estado de êxtase nos contentes expedicionários que, sintonizados com Deus, estancaram-se no pico mais alto a fim de assistirem ao espetacular pôr-do-sol – o mais imorredouro de suas vidas. Os adultos, além das crianças, expuseram sua puerilidade jogando-se na fina areia branca, rolaram duna abaixo. Um deles, ao avistar um jumento a galope, pôs-se eloquentemente a relinchar, apresentando ao eufórico grupo uma excelente performance no entabular conversa com o equino transitante. Os relinchares iam e vinham simultaneamente, a ponto de não se distinguir quem imitava quem. Nesse clima inebriante, o homem de menor estatura dentre os presentes parodiou o nascimento de uma tartaruga e adquiriu a alcunha de tartaruga ninja. Toda aquela harmonia com a natureza suscitava silenciosos agradecimentos ao Pai Criador, não só por criar mágicos cenários, como também por dotar o homem de inteligência para fabricar um automóvel 4 x 4 que os levem a tais pouco acessíveis lugares desse País de generosas belezas.

Refestelado estava todo o grupo na charmosa pousada à margem do Rio Real quando o grandalhão do grupo perguntara ao Tartaruga Ninja se este trouxera a sanfona, ao que lhe fora respondido: não, não, meu camarada, tão somente o violão, eis que não me livrei ainda do trauma de você, com essa enorme envergadura haver transformado a minha sanfona de 80 baixos em 120. Todos fizeram ressoar fartas gargalhadas. Em mais adiantado momento, para arrepio de Tartaruga Ninja, um “bebum” pede assento à mesa e também o empréstimo do violão, que naquelas alturas era dedilhado por aquele provocando o ecoar de belas notas musicais; todos entreolharam-se instantaneamente em grave suspense a imaginar que no pensamento de Tartaruga Ninja gotejava o seguinte pensamento: pronto, meu Pai! Agora o meu violão vai ser transformado numa viola de 12 cordas! Contudo, sem que seu olhar negasse a latência da preocupação com o velho companheiro de boemia, para surpresa dos amigos viajores, o dono do violão elegantemente respondera: pois não, amigo, fique à vontade!

É isso! Jipeiros reunidos, sempre muita alegria, muito companheirismo, sempre novos projetos de grandes aventuras, porquanto são forjados para tração e atrações 4 x 4, para o usufruto da natureza enquanto não plenamente devastada pelo obtusidade humana.

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A beleza da vida crua


Foto de Simone Moura e Mendes
Com você, num exaltar da vida
subi as dunas de Mangue Seco
deitei sob o seu céu, em êxtase
aspirei o seu mar, o amor, seus sais
encontrei meu cais, meu laurel

Com você, mergulhei no amar
exclamei a despedida do sol
- sorrateiro entre o coqueiral -
aplaudi a estrela vigilante
e a aparição da lua minguante

Com você, vi o dia nascer
o gorjeio dos pássaros
nova esperança florescer
e a presença de Deus
em cada poro meu
no sorriso seu de face nua
vi a assaz beleza da vida crua

Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Até que a morte os separem?

http://www.servodecristo.com/2010/05/casamento-ate-que-morte-vos-separe.html
A amizade com sua irmã fora a oportunidade de conhecê-lo. Até descobrir que não se tratavam de um casal de namorados, os princípios éticos, morais e religiosos, contiveram seu olhar de terna cobiça naquele homem cortês, bem-humorado, com ar de fora do seu tempo. Não, não poderia querê-lo para si!

O insidioso destino fizera-lhe descobrir o ledo engano. Que salutar equívoco! Desde então, seu olhar passara a contemplá-lo como possibilidade e ao vê-lo seu coração já não trabalhava tão compassadamente. Todavia, como saber se haveria reciprocidade de sentimentos e intenções? Apesar de sua aparente brejeirice, de seu agir altaneiro e independente, não se atirava antes de ser cortejada. Não gostaria de se denotar alguém disponível. Nas relações afetivas, portava-se habitualmente do modo conservador, imaculável, resguardada pela passividade que se esperava nas mulheres.

A vida segue, contudo, o traçado do coração. Justificado ele pela amizade dela com sua irmã, através de respeitosos argumentos, convenceu-a a passar consigo o feriado de Nossa Senhora da Conceição em Salvador, na companhia do irmão, cunhada, de um velho amigo – o Sargento Pincel - e da própria irmã, eis que iriam assistir a uma luta de boxe – boxe?! Pensara ela. A programação não lhe parecia atrativa em desacordo com as esperanças que lhe brotaram no peito. Decidira doar o bilhete de ônibus já comprado para Recife e aceitar aquele alvissareiro convite.

A luta de boxe fora algo inusitado, não lamentável porém. Estivera próxima de algumas personalidades somente vistas pela televisão, a exemplo de Maguila, Pelé, Miguel de Oliveira. Certamente, não seriam elas os ícones a quem poderia assistir numa peça de teatro, novela televisa ou tratarem-se de algum gênio da música ou literatura; mas, inegavelmente, cada um notabilizara-se por sua própria luz. Ademais, fascinou-lhe passear suavemente o indicador numa cicatriz na sobrancelha esquerda de seu maior ídolo: ele, por quem suspirava – o não namorado de sua amiga. Que cicatriz é essa? Perguntara-lhe. Foi um corte quando criança. Sua voz tinha o ritmo de uma borboleta adejando a flor.

A prudência era atributo de ambos. Não se sabe se apenas pelo medo de se machucarem ou não. Porém a destreza do destino é implacável: houvera uma ocasião em que cada um daqueles viajantes teria um compromisso, exceto sua irmã acometida de uma amidalite; seria aquele o último de dia de estada na terra de todos os santos. Convidaram-se então para o saboreio da brisa do mar num barzinho da Pituba. A conversa era auspiciosa, sem, no entanto, transparecer a inauguração de um idílio. Não, não, não! Seu hálito estava tão sujeito à sua olfação!

Liberta das amarras dos paradigmas sociais, ela armara-se de audácia para indagar-lhe se em algum momento já tivera interesse por si. Sem qualquer hesitação, respondera-lhe em tom altivo e seguro: não só tinha como tenho! Mas você é amiga de minha irmã e talvez um relacionamento fracassado entre nós balançasse os alicerces dessa amizade. Não era a resposta que ela esperava. Havia-lhe,ainda, algum fôlego para ir adiante: e se eu dissesse que também já tive algum interesse por você? Bem, aí a história muda de figura – assevera-lhe ele. E completou: você acha que teríamos algum futuro? Em tom faceiro, ela respondera-lhe: bem, daqui a uns dez anos, eu não sei! Ele, timidamente, perguntara-lhe: e como é que começa? Ah! Isso eu não sei – com o cunho da inocência que logo ele compurscaria com um beijo indefinível, para, um ano depois, sob o testemunho de Nossa Senhora da Conceição, ouvirem o Padre imperativamente dizer: “até que a morte os separe”! Não seria até morte separá-los. Ela não os separaria, pois sacramentaram uma aliança de amor para todas as vidas.

Permanecem unidos pelas mãos e pelo coração para o festejo das cincos estações primaveris da vida dele, com as bênçãos de Deus e a vigília de Nossa Senhora da Conceição, que o batizara!

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

domingo, 10 de outubro de 2010

Fruta da estação


Tenho a arte da manha
minhas artimanhas
e seduzo-me nas manhãs
compacta como maçã

Não sou maçã, porém
sou romã
fracionada por dentro
rija por fora
limão, às vezes

De vez em quando, uva
doce sedução
às vezes exótica como kiwi
ou sensual como caqui

O espelho capta-me
impiedoso, fala mudo
e desnuda-me o medo
que a idade maracujá
furte-me a arte da manha
e o sorriso das manhãs

Sou mulher,
onda hormonal
humor elipsal
sou fruta da estação
com valor nutricional

Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Perco-me

Foto de Sandra Salgado

Perco-me nas horas poéticas
no assobio do vento
no marulhar perene do mar
no bem-ti-vi cantando seu nome
no exalar perfumado das flores
num sorriso pueril
na reinaugurada fantasia

Perco-me nas horas poéticas
no ressoar das imagens mentais
que pululam em emoções
ninam o coração do universo
e salpicam palavras no papel

Perco-me nas horas poéticas
no nascer, no crescer, na procriação
perco-me no criar e recriar da vida
no renascer de almas perdidas
Perco-me nas horas de todos os dias...

Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A promoção de Silvia D'lutrec

Autor desconhecido, internet.


Ares a denotar-lhe ser proveniente da aristocracia sueca; andar altivo e elegantemente compassado; olhar impávido a expressar disposição capaz de transpor os mais íngremes desafios; cabelos impecavelmente escovados e cuja cor lhe realça o alvo da cútis; trajes laboriosamente escolhidos a fim de que possa estar adequada para qualquer ensejo, costumeiramente realçados e valorizados com os adereços da moda; gestual condizente com a sua fidalguia. Eis a quase fiel descrição da convicta funcionária pública Silvia D’lutrec.

Chamam-na de jurássica em virtude de seu longo tempo de repartição. Ao cabo de longos anos acumulara vasta experiência em diferentes setores, até ser, merecidamente, promovida a um cargo de direção superior. Certamente, um desafio a mais na sua vida inquieta e ávida por novas emoções. Formar equipe que abraçasse os mesmos ideais de excelência com que gostaria de se desincumbir dos novos misteres não seria uma tarefa fácil. Para tanto, obteve o respaldo da amiga que lhe passara o bastão.

Os primeiros meses transcorreram à custa de muito desgaste físico e emocional para si e para sua fiel assessora, com quem dera os passos inaugurais da grande escalada. Esta se via igualmente responsável pelo sucesso do grupo e com aquela dividia os tormentosos receios de que algo saísse errado. Foram muitos os sábados trabalhados, muitas as horas além do expediente, muitas as noites insones sob a concorrência da preocupação de traçarem o melhor destino para o funcionamento eficiente e eficaz de todos os setores em prol da unidade e no escopo de deixar tudo na organização pretendida. Muitas vezes a alternativa era recorrerem ao Diazepan, colimando um mínimo de descanso noturno para o intenso labor do dia seguinte.

Inobstante as exigências naturais da rotina exaustiva de labor, a nova comandante permanece primando pela harmonia da equipe, pela manutenção de um ambiente leve, hígido. Portanto, não podem faltar as piadas, as brincadeiras e as boas sacadas de humor, de modo a fazer o dia-a-dia fluido, ameno. A animação é tanta que um dos membros da equipe teria até oportunidade de ser lotado na esquina de sua residência, mas prefere enfrentar duas horas de percurso a abdicar da convivência com esse grupo. Dia 1º de abril, que todos fiquem bem atentos, desconfiem de todas as mensagens e notícias para não serem vítimas de uma criativa “pegadinha”!

Nota-se que a aparência austera da capitã da nau está desmistificada. Todos tiveram sensibilidade suficiente para assimilar que seu objetivo era um trabalho bem desempenhado a fim de justificar a profissão de servidor público, o que não impede de realizá-lo com alegria e bom-humor. Quem não se afina com o trabalho espontaneamente busca outros grupos para que não fique em dissonância com o ritmo da maratona a que todos estão condicionados. Sua interação com os membros da equipe permite brincadeiras recíprocas e a única jamais tolerada é que não se lhe ocultem o batom. Ah! Isso não! Praticá-lo pode inclusive ser motivo de imediata abertura de sindicância administrativa. Ficar sem batom equivale a estar nua! “Nunca se vira na história desse País” um ato de passar batom tão natural e desenvolto, nem mesmo entre as presidenciáveis Dilma Rouseff e Marina Silva, conquanto visassem à maximização do tempo despendido além da campanha eleitoral! Fá-lo como se estivesse a introduzir comida na boca, ou seja, sem errar o trajeto.

Contam “à boca miúda” que certo dia lhe puseram uma arma na nuca, quase a lhe quebrar o bico do beija-flor ali tatuado, pelo que ela, com as mãos ao alto, dissera, sem qualquer hesitação: levem tudo, mas deixem o meu batom!

Será mesmo isso possível?

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Coragem na terra do Tio Sam

Medo do escuro, de dormir sozinha, de alma penada e muitos outros inocentes medos ocultados no porão de si mesma. Desde muito pequena, todas as noites, os braços do irmão eram-lhe sua maior proteção até embrenhar-se em profundo sono. Contudo, durante a luz do dia dificilmente sucumbiria perante um desafio qualquer. Desceria de rapel, rafting, saltaria de pára-quedas, aliás, as mais radicais aventuras não inibiam sua coragem.

Para surpresa de seus pais e irmãos, resolvera fazer intercâmbio nos EUA. Não houve quem lhe tirasse a ideia da cabeça e engrenara ela todas as marchas em direção a esse desiderato. Na verdade, quando algo lhe atraía não poupava inteligentes argumentos para persuadir a quem se lhe opusesse.

Sobrevoara o Atlântico a fim de aportar nas desejadas terras ianques. Calorosa fora-lhe a acolhida daquela bem constituída família americana formada de seis membros. Todos eles, além de outros familiares, esperavam-na no aeroporto da cidade mais próxima com cartazes de seja bem-vinda. Muitas curiosidades satisfaria ela acerca de sua pátria Brasil, que não é tão-só praia, floresta e futebol, e muito haveria de descobrir de tudo e de todos que passariam a compor sua vida durante aquele ano. Um quarto belamente colorido fora-lhe cuidadosamente organizado. Tantas emoções viveria, afinal, com sua nova família! Experiências fascinantes seriam por ela arquivadas em especial escaninho da memória. Augurava não somente um intercâmbio cultural, mas também afetivo a perpetuar-se ao largo de sua vida.

A mãe americana exerce a profissão de enfermeira e trabalha no único hospital da cidade. O destino, contudo, preparara-lhe o imponderável: o pai é diretor funerário e sua arte é a preparação de corpos para velório e sepultamento e é praticada em um ambiente contíguo ao que vive a família. Será que a menininha exorcizaria seus fantasminhas com aquela terapia de choque?! Era essa a expectativa de todos que a conhecem.

Por coincidência, em pouco tempo de sua estada a coragem fora posta à prova mediante o desenlace de pessoas. Naturalmente, tudo que vive, morre algum dia e alguém com espírito altivo de um missionário haveria de ter o condão de suavizar as partidas do mundo dos vivos.

Saber, entretanto, que abaixo de onde se pisa encontra-se alguém despido de vida certamente não atrairia, sobremodo, quem tem medo de fantasma! Mas, muito feliz por ter sido escolhida por uma fabulosa família, tornara-se, então, intimorata na terra do Tio Sam a amável garotinha, preparada para conhecer, viver feliz, amar e passar a enxergar a morte como fenômeno da vida.

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Monja Coen Sensei



Simone M Mendes e a Monja Coen Sensei

Simone Moura e Mendes e a Desa Elisabeth Carvalho Nascimento,
Presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Alagoas e Diretora
da Escola Superior da Magistratura do Estado de Aalgaos- ESMAL.

No último dia 30 de setembro no auditório da Esmal - Escola Superior da Magistratura do Estado de Alagoas, a Monja Coen Sensei, missionária oficial da tradição Shoto Shu, foi a convidada do mês do Programa Esmal Cultural, tendo ministrado palestra cujo tema foi O Segredo da Felicidade e a Cultura da Paz e da Justiça. O Programa Esmal Cultural tem como objetivo promover a formação humanística dos magistrados, servidores e público alagoano.

Presente ao evento, a poetisa Simone Moura e Mendes entusiasticamente apresentara congratulações à Desembargadora Elisabeth Carvalho Nascimento, Diretora da Esmal, e atual Presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Alagoas, pela magistral condução do Programa Esmal Cultural, que primeiro presenteara à sociedade alagoana com o expoente da Teologia da Libertação no Brasil, o escritor e professor universitário Leonardo Boff, e agora com a Monja Coen. Seu desejo é que iniciativas como essas sejam uma constante.

"A Monja Coen é a "Primeira pessoa de origem não japonesa a assumir a Presidência da Federação das Seitas Budistas do Brasil, por um ano, Monja Coen Sensei é a Primaz Fundadora da Comunidade Zen Budista, criada em 2001, com sede em Pacaembu.
Iniciou seus estudos budistas no Zen Center of Los Angeles - ZCLA. Foi ordenada monja em 1983, mesmo ano em que foi para o Japão aonde permaneceu por 12 anos sendo oito dos primeiros anos no Convento Zen Budista de Nagoia, Aichi Senmon Nisodo e Tokubetsu Nisodo.
Participou de vários cursos e programas de formação para monges tendo se graduado no mestrado da tradição Soto Shu.
Ao longo dos anos participa de encontros educacionais, inter religiosos e promove a Caminhada Zen, em parques públicos, com o objetivo de divulgação do princípio da não violência e a criação de culturas de paz, justiça, cura da Terra e de todos os seres vivos".
Fotos de Ana Cláudia Costa Fortes Cavalcanti

Lançamento do livro Cacos Inconexos de Ricardo Cabús


Fotos de Sandra Salgado

A propósito do concorrido lançamento do livro Cacos Inconexos, de Ricardo Cabús, ocorrido no último dia 27 de setembro, evento prestigiado por escritores e cultores da literatura, assim discorreu a poetisa Simone Moura e Mendes:

"Minhas últimas recordações da noite anterior foi deleitar-me com algumas poesias contidas na primorosa obra Cacos Inconexos, de Ricardo Cabús, com o objetivo de apenas folheá-la. Mas meus olhos avidamente saltaram de página em página e a iminência do dia seguinte não foram argumentos para deter-me tão rapidamente. Rogo, pois, Ricardo, que seu amor a uma "Jatiúca desnuda" se dissipe e sensibilize o nosso povo alagoano a amar verdadeiramente essa terra encartada pelo sopro de Deus. Retive-me na esperança de que "... o Sol brotará um dia por inteiro/e o barro ao ressequir-se deixará o molde do amor verdadeiro..." Oxalá esse molde seja regastado pelos povos e nações a fim de que vivam em harmonia com o nosso Planeta.
Pois bem, supreende-me que um profissional das ciência exatas, cuja formação inclinar-se-ía naturalmente à concretude do material, ao desenvolvimento de um espírito cartesiano, transformar-se num lapidador das palavras, com sutileza e inventividade inimagináveis. Que esse seu afã pela expansão da arte torne-se pandemia, pois quem faz arte, despreza a guerra. Avante, Ricardo!".

O menino de borracha

Foto de Sandra Salgado

Coelhinho, como carinhosamente lhe chamava seu pai, era uma criança abastecida de uma mente sobejamente imaginativa. Frequentemente mergulhava nas fantasias que compunham os personagens retratados no seu agir lúdico.

O tapete verde da sala de estar era o palco das grandes batalhas criadas por si. Sem indício de inquietude ou solidão, costumava espalhar os bonecos playmobil, os índios e os animaizinhos de plásticos – leão, rinoceronte, hipopótamo, girafa, veado... - que, em sua maioria, eram-lhe presenteados por sua irmã mais velha – uma fã incondicional. Ao longe, ouvia-se “tuf, tuf, tuf”: onomatopéia atribuída aos socos desferidos nos índios pelos soldados. Os silvícolas, para defesa da vida e do seu território, valiam-se da proteção do leão de cujo rugir longínquo fugiam os inclementes soldados a serviço da civilização.

Por volta de seis anos de idade, intuíra que o tapete verde estaria um campo exíguo para a expressão de seus jogos pueris. Ademais, a ambiciosa civilização intencionava expandir suas fronteiras. Coelhinho, então, despertara os encantos da rua.

Estaria ele construindo uma fortificação para os soldados na rua de terra onde morava, quando o mundo real lhe atropelara: um técnico da companhia telefônica terminara seu trabalho na caixa afixada no poste da esquina e entrara no fusca ali estacionado sem perceber que havia uma criança na traseira daquele veículo, engatando a marcha ré. Sua irmã, que estava do outro lado da calçada, desesperou-se ao ver o caçulinha da família em baixo do veículo. Numa corrida veloz, escalara o lanço de escada que a separava de sua genitora que, naquele momento, estava a preparar um bolo de maisena para seus três rebentos. Esta incontinenti largara a batedeira em socorro do filho. Já a aguardava a vizinha em sua Brasília do ano com o menino sujinho de areia e emocionalmente abatido pelo susto estirado no banco traseiro. A irmã e mãe choravam copiosamente receando o pior que, graças à benevolência divina, o destino não permitira acontecer. “Chora não, mainha! Eu tou bem?” A depauperada mãe sequer tinha coragem de olhá-lo.

No rosto e no peito de Coelhinho ficaram tatuadas as marcas do pneu do fusca - um mistério!Esse fato rendera-lhe a alcunha de menino de borracha, eis que seu pai alardeava pelos quatro cantos do mundo que o carro passara por cima do filho e isso, durante alguns dias, era sustentado com a apresentação dos traçados do pneu. Estaria também tatuado o fabricante do pneu? Seria ele Firestone? Pirelli? Ou Goodyer? A longínqua ocorrência encontra-se afastada da memória. Sabe-se apenas que de borracha ou carne e osso ele é agora um homem robusto e não tão flexível.

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

domingo, 3 de outubro de 2010

Muitas vidas em poesia

Foto de Jeyne Lages

Disseram-lhe que ela era poeta. Fora-lhe custoso crer que possuísse esse incrível atributo, por si considerado uma proeza do coração, uma prova inconteste de sintonia com a divindade. Pensara que as amigas estar-lhe-iam sendo generosas, que pretendessem a promoção de sua autoestima.

Todavia, os rogos foram se multiplicando e já lhe retumbavam ferozmente nos ouvidos. Passara a perguntar-se: será que sou mesmo? Será que ainda há algo a extrair de mim além do que já fiz? Findara até por concordar que se lhe fosse construído um blog: um precioso presente de uma amiga muito estimada, que lhe desferira eficaz golpe na solidão das palavras.

Resolutamente, sacara da caneta e materializara os mais dorminhocos sonhos, açoitara as mais pudicas e sacralizadas emoções em guardanapo, papel de pão e onde mais fossem possível exprimir-se. Saíra do ostracismo intelectual com destino aos olhos de muitas bandeiras, para refazer a sua vida em poesia.

Contudo, quem se redescobre, não tira o véu somente de si. Fustiga a desocultação de outros talentos. A palavra, então, passou a bailar cintilante nos mais casuais encontros de amigas, entrelaçando-se nos seus destinos e logra reverberar em muitas almas anômimas para transformação de muitas vidas em poesia.

Simone Moura e Mendes
(Crônica inédita)

O presente: um egocêntrico companheiro

Foto de Sandra Salgado
Ao léu, ao rés do chão
sublimadas, sepultadas
deixei as lembranças áridas
larguei as pregressas imagens ácidas
a vida me entrega o presente
- um egocêntrico companheiro

Durmo sob as estrelas
no chão salpicadas
onde me deito refastelada
minha alma é hidratada pelo mar
e a lua radiosa faz-me serenatas

Acordo na cálida manhã
com o corpo pincelado de sol
e perfumado de primavera
faço o meu real das quimeras
- o sal da minha existência

Um salto para a vida!
não vagueio entre o não e o nada
o mundo é meu prumo, minha estrada
por onde sigo plácida
e a alma encharcada de amor e poesia

Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)