A poesia me encontrou. Encontrei-me na poesia! Concedo-lha portentosas asas para alçar longínquos voos e disseminar sonhos nos corações cúmplices e sensíveis. Que ela logre fabulosos rasantes em vastos mundos prenhes de luz e encontre, por fim, felizes e aconchegantes moradas em almas renovadas.
Simone Moura e Mendes
domingo, 29 de agosto de 2010
O hoje...é o que temos
senti todo o apelo do tempo
a saudade, então, se fez presente
redundando em pululantes lágrimas incontidas
Você habitou minhas lembranças felizes
num remoto tempo em que éramos quase crianças
em presença material,
e hoje, como sutil sensação de verdade
Não sou, porém, abatida
vivo e convivo comigo
e com o que sou:
fruto de quedas e levantes
corridas e tropeços
de erros, tentativas e acertos
Quanto a ti
mais do que mera saudade
mais do que episódica lembrança...
a certeza de que a saudade
- essa atraente vilã -
reverte-nos a um tempo que se foi
e se faz alicerce do presente
Passado... tivemos
presente... é o que temos
futuro?
quantitativamente, quanto o teremos?
abstração... é tudo!
Vivamos do que temos... o HOJE
sem mistérios nem disfarces
sem complexidade
simplesmente, VIVAMOS!
Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Eu mesma..nua)
sábado, 28 de agosto de 2010
Circunstante da eternidade
Siga o mapa original da tua existência
a despeito das insídias, do imponderável
não vaciles, nem busques os atalhos
como o fazem os domáveis e fracos
A trilha não é leve, nem breve
declives e sinuosidades, aclives penosos
muita lama, pedras e percalços
mas, paisagens exuberantes...
fazem fronteira com o atraente desconhecido
O corpo tomba, sucateia-se, invariavelmente
o tempo é inexorável, não dormita
a alma, porém, é liberta, insepulta
uma constante e circunstante da eternidade
não lamentes!
Não optes pela placidez dos remansos
foste forjada para o movimento das torrentes
para os grandes saltos e aventuras em planaltos
jamais entregues a alma a um cadafalso
Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)
Abandonou-me a poesia
Por que me abandonaste, poesia?
por que em teu lugar o lodo
o ranço, o excremento
o vazio de uma insípida alma fria?
Nem mais versos, nem prosa
nem sol, nem mar
nem luar, nem canto
nem encantar
somente sementes, sem frutos
espinhos, sem rosas
Foste-te de mim poesia!
uma andarilha rota, sem rota
etilizada, desvairada
descolorida, desbalizada
ziguezaguiante, combalida
olvidada de minha humanidade
Ou talvez...
simplesmente, foste-te, poesia
porque não deixei aportar a solidão
(companheira dos poetas)
nem guardei estada para uma dor qualquer
Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Marechal Deodoro será a ‘Capital da Cultura’.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Asas rumo ao longe
Transpareço alada
e com tênues e imaturas asas
sou içada ao ar de graves alturas
ao encontro de muitas agruras
de muitos fantasmas dispersos
Há ventos murmurantes a enfrentar
nuvens ariscas e eletrizadas
passagens sobre cordilheiras
sobre ameaçadoras torrentes
e não há tempo de hesitar
A gravidade me insulta
mas, inobstante o medo
a queda é a sentença
meu único recurso é voar
Em sofreguidão recôndita
exangue, atônita, sem rendição
suspiro, respiro, bato asas
e vou... rumo ao longe
Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Aquele homem
Aquele homem, poesia publicada neste blog em 27/07/2010 foi veiculada no O Jornal do dia 21/08/2010.
Ninguém da Silva
Pobre, cansado, descalço
mulato, carente de abraço
perdido, desiludido
sem afeto nem teto
infectado
abandonado...
Sou um coitado
chorando em vão
ao léu
sob a lua e as estrelas
no frio e na chuva
ou sob o azul do céu
Atormentado ao relento
sigo sedento
pedindo esmola, cheirando cola
andando sempre na contra-mão
Meu nome é Ninguém da Silva
estou à margem da sociedade
e à mercê da piedade
de algum irmão
Você que passa por mim
nalguma praça
além do pão
quero carinho
só um pouquinho de atenção
Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Eu mesma...nua)
sábado, 21 de agosto de 2010
Fazer poesia
Fazer poesia é dar um significado
aos alaridos mudos da mente
num pulular infinito de emoções
expressas em letras num papel qualquer
É dizer o inaudito, o ininteligível
que incapacita o senso comum
de, simplesmente, sentir ou abstrair
o extraído das fibras vibrantes do coração
É harmonizar-se, pleno de vida,
com o esplêndido universo de Deus
recriando um mundo inédito, peculiar
que os olhos dispersos, apáticos,
dos tantos transeuntes, olham e não vêem
Fazer poesia é adentrar num estado de êxtase
é ouvir–se a si mesmo
e criar novos e belos acordes
para a dança dinâmica da vida
Simone Moura e Mendes
(Poesia Eu Mesma...nua)
Promessa de ressureição
Meus olhos reluziram
quanta palpitação!
encontrei-te nos meus desencontros
quando chorava por meus desencantos
vivendo em desilusão
Das trevas, da escuridão...
o sonho, a fantasia
traços, projetos... realização
Embora erva daninha
e ainda crueldade
fizeste-me uma rubra rosa
a mais linda de tua cidade
Se eras um caso acaso não sabia
se sonho, se poesia... ou excesso de imaginação
não, não refletia
fizeste-me companhia
tiraste-me da solidão
Muitos anos transcorreram
das sementes que plantamos
frutos floresceram
às vezes muito tormento
mas sempre muita emoção
Não sem dor, nem sem lamento
e embora desconexos
nos nossos cantos secretos
somos o côncavo e o convexo
promessa de ressurreição
Simone Moura e Mendes
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Transe
Ser poeta e sonhar
caminhar descalço
nas águas do mar
Desditar o amor perdido
escrever o nome na areia molhada
escorregar nas dunas
correr, gritar, cantar
sentir a respiração ofegante
ouvir o choá frenético das ondas
Fazer castelo com areia e lágrima
saborear o sal gosto do choro
deglutir a saliva amarga da sede
deixar o vento desalinhar os cabelos
Voltar, contar os passos
e ter novas recordações
ter loucas loucuras
ser o louco mais feliz do asilo da vida
Ter-te perdido e encontrado o sol
que nascera bêbado
com o meu hálito de ébrio
o ébrio das manhãs, das noites,
das madrugadas e de todos os dias
Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Incógnita)
sábado, 14 de agosto de 2010
Vacinação Infantil Contra a Poliomielite
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
O mar de ontem
Na contramão da existência
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Meus Versos
abate, embate literário
poluição visual
mera distração ociosa
efusão espiritual
comoção fatal,
factual...
Não sei mesmo o que
de meus versos exala
nem por que a mim concebo
produzi-los sem o saber
Enquanto, porém, os desenho
relutantemente, existo:
eis minha absurda certeza
Inculta, incauta, fausta
obscura, ultrajante
vil, beligerante
emérita ou quimérica
existo em cada fração
na síntese dos meus versos
Meu retrato caricaturizado
meus versos e reversos
meus versos, minha oração
a mim, a Deus, ao além
a ti
ao imponderável...
Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Eu Mesma...Nua)
Sem Pretensão de Saber
a essência, o substrato, a razão última
a verdade absoluta, a causa única
a matriz, a geratriz, o marco zero
seja lá o que for...
rebusquei-me e deixei a trilha
Esse segredo não se me revelou
e, sutil, ergui a bandeira da vida
relativizando o profano
para suportar o sagrado fardo
das imposições materiais
das normas e regras casuísticas
dos plantões oportunistas
que rezam e pregam o incrível
Assisto, na platéia (?), impassível
- sem vislumbrar a minha fatura -
aos martírios incongruentes
às devastações inconseqüentes
aos engodos, ao ganho pelo ganho
que a razão humana não sobrepujou
Não sei - e nem pretendo -
saber da minha força e aptidão
de ser, fazer e o sistema revolver
traduzo-me indefesa, pobre ignota
e, tal vítima cândida e submissa,
sigo palidamente ofuscada
diante do “supremo poder”
com vistas aos meus próprios ganhos
Simone Moura e Mendes
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Esboço imortal
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Catarse de mim
Deixo-me lentamente sucumbir
aos valores vãos das planícies
escondendo-me do mestre que me criou
- o meu sábio mestre interior
que às montanhas aspirou galgar -
entregando-me à escuridão atroz
dos meus pensamentos impuros
que somente a mim carcome e corrói
Não me perco na magia do azul do mar
não mergulho nos mistérios de um olhar
sou automatismo... disfarço-me feliz
na concretitude dos meus ideais vazios
conduzindo-me a nenhum lugar
Sou a beleza que não se mantém
estou esgarçada pela tristeza
- como uma teia mal tecida –
sou vilã, algoz de mim mesma
conduzo-me à própria desgraça
da banalidade do meu existir
Se as águas fluentes das correntes
filtram-se, veementemente, por si
se o ar poluído se renova sozinho
hei, como criatura da própria natureza,
de neutralizar os efeitos da minha tristeza,
fazendo a catarse de mim mesma,
espargindo luz nos escuros túneis da vida
Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Eu mesma...nua)
domingo, 8 de agosto de 2010
Habitante de uma Estrela
por onde vagas
agora que não mais te vejo?
em qual dessas estrelas repousas
esperando por mim?
Havia tanto para te dizer...
mas me calei
tanto havia o que de ti descobrir
mas não te indaguei
retive-me no meu egoísmo
nos mal suplantados dissabores
de nossa vida material em comum
Vivíamos sozinhos... em nós mesmos
vendo-nos... sem nos ver
remoendo mágoas
trocando farpas em nossa vã superficialidade
dominados por um coração selvagem
Não me fizeste a redoma que logrei
não te fiz os carinhos de que precisavas
ambos somos medíocres perdedores
desprovidos do amor paterno-filial
fomos, portanto, privados desse paraíso
Cedo foste habitar nalguma dessas estrelas
enquanto eu... cresci quase só nesse mundo
que ao invés de ter-me sido hostil
e repletos de ardilosos vilões
- de quem, decerto, me protegerias -
ofertou-me o herói que em sonho suplicava
É tarde!
de que nos adiantam remorsos e lamentos?
não há como regressar àquele tempo
em que eu era uma menina carente
e tu, um menino aprendiz de Pai
Mas, posto que somos imortais
ainda serei alvo de teu carinho paternal
e tu... do meu afago filial
Simone Moura e Mendes
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Paixão não é amor
verga-se nas intempéries da vida
deixa-se arrastar pelos açoites do vento
impetuosa e compulsiva
incongruente, irreverente
com o tempo é esquecida
O amor é perene
disciplinado e consciente
converge para uma ascensão recíproca
trava renhidas batalhas em busca da verdade
O amor vivifica e transforma
torna cristalina a alma do homem
a paixão é cega...
ilude, mumifica e destrói
Paixão não é amor
mas pode até vir a sê-lo!
Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Incógnita)
Busca do êxtase
Esquadrinho-me a fim de extrair o êxtase
que perdi em caminhos gramados
onde me deleitei entre borboletas multicoloridas,
gafanhotos, colibris e esperanças
Ornada de deslumbre incomensurável
tal criança fulgurante, tentei agarrar o arco-íris
que, magicamente, descortinava-se diante de mim
emoldurando uma cachoeira onírica
Eu era um anjo de asas reluzentes
sobrevoando essa paisagem colossal
e aterrissei com meus pés de plumas
sobre a grama regada de orvalho
Procuro o êxtase de quem nunca viu o mar
e banha-se e sente o gosto de sal,
toca as algas e nada entre os peixes
Procuro o êxtase inexprimível
de um recluso em solitária ao ver a luz do dia,
o movimento imperceptível dos girassóis,
os animais, livres, nas campinas
Procuro o êxtase de um orgasmo profundo
onde me fundo com o universo
e transcendo o meu eu de criatura,
em estado pleno de corpo e alma
Encontrando-me em mim
descubro êxtase de ser partícipe da vida
ser a própria vida, gerar vidas,
doar-me em vida...
no êxtase de amar intensamente
Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Eu mesma...nua)
Angústia de ser
Tudo se passa tão célere no tempo
meus pensamentos não apreendem significados
o que hoje é, já não o é decorrido este instante
e nada se abstrai do estado presente
nem mesmo da transição para o seguinte
O fluxo da existência nos consome
consome o desejo que não teve tempo de instalar-se
é assim que estou: imersa em divagações metafísicas
enquanto o mundo flui, inexoravelmente,
sem que se cogite o escoar da existência
para o abismo cruel da incerteza
de não sentir o quanto fluiu e o quanto ainda há
Minha busca converge para a estranheza
na perplexidade perene de ser e não ser
se estou, como estou no espaço e no tempo?
sou um conjunto de átomos em movimento
na órbita da vida, que clama um sentido,
ao caminho da ilusão – de verdades abstratas
que nada retratam – minam-se, destroem-se
A angústia vital se conecta na angústia mortal
enquanto os transeuntes cósmicos perseveram
num caminhar de passos apressados, fora de si,
com olhos de mundo, são rostos apagados
sem um ponto de luz a que chegar
Se o corpo perece, a alma segue no seu fluir
errática, circundante, sem um fulcro...
em mim, fragmento do universo,
cresce o pânico de jamais me encontrar
e cada vez mais me perder no equívoco de ser
Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Eu mesma... nua)
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Quarenta anos!
Em busca do Quarto Crescente
é um tal de engorda e emagrece
que inspira cá embaixo as pobres criaturas
a viverem sempre penando
sabes bem que quanto mais Cheia
mais exalas formosura
submissas à tua luminosidade
embora alcancem seu Quarto Crescente
não terão jamais o brilho etéreo do teu prateado
domingo, 1 de agosto de 2010
Amigos psicológicos
algo há em comum: uma opinião, um “insight”,
nossas energias, enfim...
Sejamos gratos a nós e ao universo bendito
por nos conceder “toda honra e toda glória”
de nos conhecermos, e ainda,
por todas as “incógnitas” que, juntos,
haveremos de desvendar
No “inconsciente coletivo”, na “simbologia dos sonhos”
na “figura e fundo”, no “condicionamento operante”
em nós mesmos... não importa
haverá sempre uma “incógnita”: latente ou manifesta,
mas circundante, interagindo conosco,
à espera de ser desvendada
Ao longo da caminhada
transformemo-nos em sábios poetas,
verdadeiramente, inspirados nas almas alheias,
e em nós, que somos seus reflexos
pela razão de sermos a razão de ser do mundo
“Nada acontece por acaso”
como nada, não se configura mero acaso
a chegada de minha “incógnita”,
quiçá uma faceta, uma conspiração do universo
no alvo do estreitamento de nossas amizades
Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Eu mesma... nua)
Nas horas apressadamente intranquilas
Meu baú de incertezas me protege
das insídias dos caminhos bifucardos
minha ilusão me isola de uma realidade insípida
desse mundo estereotipado
meus desejos são contidos
pelo sensato e producente superego: o magistrado
Ah! Minha juventude se esvai desditosa
nas horas apressadamente intranqüilas
Recalquei, tantas vezes
tanta vida emudecida em poesia: espevitada vida!
tudo para não sair e me perder, combalida
da órbita imperativa do sistema
fui menina como precoce traduzida
fiz-me mulher sensivelmente embrutecida
Ah! Minha juventude se esvai desditosa
nas horas apressadamente intranqüilas
Pari muitas dores que desabrocharam
em penas multicores de gratos amores
transcendi-me em filhos, publiquei dois livros
e tantas trilhas desbravadas
muito do que aprendi se perdeu
num desses caminhos para outros adventos
Ah! Minha juventude se esvai desditosa
nas horas apressadamente intranqüilas
Construí um castelo de areia
para repositório das mágoas, das querelas inauditas
mas num castelo de granito
depositei as aquarelas das imensuráveis conquistas
eu me resumo uma menina inquieta
adolescente sagaz e mulher plenamente
Oh! É a vida que se esvai desditosa
nas horas apressadamente intranqüilas
Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)




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