A poesia me encontrou. Encontrei-me na poesia! Concedo-lha portentosas asas para alçar longínquos voos e disseminar sonhos nos corações cúmplices e sensíveis. Que ela logre fabulosos rasantes em vastos mundos prenhes de luz e encontre, por fim, felizes e aconchegantes moradas em almas renovadas.

Simone Moura e Mendes

domingo, 29 de agosto de 2010

O hoje...é o que temos

Hoje...
senti todo o apelo do tempo
a saudade, então, se fez presente
redundando em pululantes lágrimas incontidas

Você habitou minhas lembranças felizes
num remoto tempo em que éramos quase crianças
em presença material,
e hoje, como sutil sensação de verdade

Não sou, porém, abatida
vivo e convivo comigo
e com o que sou:
fruto de quedas e levantes
corridas e tropeços
de erros, tentativas e acertos

Quanto a ti
mais do que mera saudade
mais do que episódica lembrança...
a certeza de que a saudade
- essa atraente vilã -
reverte-nos a um tempo que se foi
e se faz alicerce do presente

Passado... tivemos
presente... é o que temos
futuro?
quantitativamente, quanto o teremos?
abstração... é tudo!

Vivamos do que temos... o HOJE
sem mistérios nem disfarces
sem complexidade
simplesmente, VIVAMOS!

Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Eu mesma..nua)

sábado, 28 de agosto de 2010

Circunstante da eternidade

Foto de Delaide Scolni

Siga o mapa original da tua existência
a despeito das insídias, do imponderável
não vaciles, nem busques os atalhos
como o fazem os domáveis e fracos

A trilha não é leve, nem breve
declives e sinuosidades, aclives penosos
muita lama, pedras e percalços
mas, paisagens exuberantes...
fazem fronteira com o atraente desconhecido

O corpo tomba, sucateia-se, invariavelmente
o tempo é inexorável, não dormita
a alma, porém, é liberta, insepulta
uma constante e circunstante da eternidade
não lamentes!

Não optes pela placidez dos remansos
foste forjada para o movimento das torrentes
para os grandes saltos e aventuras em planaltos
jamais entregues a alma a um cadafalso

Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)

Abandonou-me a poesia

Foto de Delaide Scolni


Por que me abandonaste, poesia?
por que em teu lugar o lodo
o ranço, o excremento
o vazio de uma insípida alma fria?

Nem mais versos, nem prosa
nem sol, nem mar
nem luar, nem canto
nem encantar
somente sementes, sem frutos
espinhos, sem rosas

Foste-te de mim poesia!
uma andarilha rota, sem rota
etilizada, desvairada
descolorida, desbalizada
ziguezaguiante, combalida
olvidada de minha humanidade

Ou talvez...
simplesmente, foste-te, poesia
porque não deixei aportar a solidão
(companheira dos poetas)
nem guardei estada para uma dor qualquer

Simone Moura e Mendes

(Poesia inédita)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Marechal Deodoro será a ‘Capital da Cultura’.















De 1º a 5 de setembro, será realizada a 1ª Festa Literária de Marechal Deodoro. O evento, organizado por Carlito Lima, Secretário de Cultura daquele município, contará  com a presença de nomes da literatura, música, folclore, pintura e teatro que participarão de palestras e mesas de debates sobre temas variados. 
E neste cenário, se dará a inauguração do recém restaurado Museu de Artes Sacra. O evento ainda será palco de exibição do filme O Bem Amado que ali foi gravado, contando, inclusive, com a presença de alguns atores que participaram do filme.
E não haveria palco mais cultural para a poetisa Simone Moura e Mendes lançar este blog e divulgar seus livros Incógnita e Eu Mesma...Nua.
No dia 04 de setembro, no Espaço Cultural Santa Maria Magdalena da Alagoa do Sul - Centro Histórico, a partir das 9h30min, a poetisa espera carinhosamente receber seus leitores, seguidores e admiradores da poesia, no espaço destinado à "Nossa Livraria".

Acesse o link abaixo e conheça a programação do evento que, com certeza, entrará no calendário cultural do País.


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Asas rumo ao longe

Foto de Dirce Rodrigues

Transpareço alada
e com tênues e imaturas asas
sou içada ao ar de graves alturas
ao encontro de muitas agruras
de muitos fantasmas dispersos

Há ventos murmurantes a enfrentar
nuvens ariscas e eletrizadas
passagens sobre cordilheiras
sobre ameaçadoras torrentes
e não há tempo de hesitar

A gravidade me insulta
mas, inobstante o medo
a queda é a sentença
meu único recurso é voar

Em sofreguidão recôndita
exangue, atônita, sem rendição
suspiro, respiro, bato asas
e vou... rumo ao longe

Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Aquele homem



Aquele homem, poesia publicada neste blog em 27/07/2010 foi veiculada no O Jornal do dia 21/08/2010.
Acesse o link abaixo, pág. 16:

http://www.ojornalweb.com/2010/08/21/ojornal-edicao-digital-21-de-agosto-de-2010/

Ninguém da Silva


Foto de Simone Moura e Mendes

Pobre, cansado, descalço
mulato, carente de abraço
perdido, desiludido
sem afeto nem teto
infectado
abandonado...

Sou um coitado
chorando em vão
ao léu
sob a lua e as estrelas
no frio e na chuva
ou sob o azul do céu

Atormentado ao relento
sigo sedento
pedindo esmola, cheirando cola
andando sempre na contra-mão

Meu nome é Ninguém da Silva
estou à margem da sociedade
e à mercê da piedade
de algum irmão

Você que passa por mim
nalguma praça
além do pão
quero carinho
só um pouquinho de atenção

Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Eu mesma...nua)

sábado, 21 de agosto de 2010

Fazer poesia

Foto de Sandra Salgado



Fazer poesia é dar um significado
aos alaridos mudos da mente
num pulular infinito de emoções
expressas em letras num papel qualquer

É dizer o inaudito, o ininteligível
que incapacita o senso comum
de, simplesmente, sentir ou abstrair
o extraído das fibras vibrantes do coração

É harmonizar-se, pleno de vida,
com o esplêndido universo de Deus
recriando um mundo inédito, peculiar
que os olhos dispersos, apáticos,
dos tantos transeuntes, olham e não vêem

Fazer poesia é adentrar num estado de êxtase
é ouvir–se a si mesmo
e criar novos e belos acordes
para a dança dinâmica da vida

Simone Moura e Mendes

(Poesia Eu Mesma...nua)

Promessa de ressureição

Foto Delaide Scolni

Meus olhos reluziram
quanta palpitação!
encontrei-te nos meus desencontros
quando chorava por meus desencantos
vivendo em desilusão

Das trevas, da escuridão...
o sonho, a fantasia
traços, projetos... realização

Embora erva daninha
e ainda crueldade
fizeste-me uma rubra rosa
a mais linda de tua cidade

Se eras um caso acaso não sabia
se sonho, se poesia... ou excesso de imaginação
não, não refletia
fizeste-me companhia
tiraste-me da solidão

Muitos anos transcorreram
das sementes que plantamos
frutos floresceram
às vezes muito tormento
mas sempre muita emoção

Não sem dor, nem sem lamento
e embora desconexos
nos nossos cantos secretos
somos o côncavo e o convexo
promessa de ressurreição

Simone Moura e Mendes

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Transe

Foto do meu fotógrafo favorito

Ser poeta e sonhar
caminhar descalço
nas águas do mar

Desditar o amor perdido
escrever o nome na areia molhada
escorregar nas dunas
correr, gritar, cantar
sentir a respiração ofegante
ouvir o choá frenético das ondas

Fazer castelo com areia e lágrima
saborear o sal gosto do choro
deglutir a saliva amarga da sede
deixar o vento desalinhar os cabelos

Voltar, contar os passos
e ter novas recordações
ter loucas loucuras
ser o louco mais feliz do asilo da vida

Ter-te perdido e encontrado o sol
que nascera bêbado
com o meu hálito de ébrio
o ébrio das manhãs, das noites,
das madrugadas e de todos os dias

Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Incógnita)

sábado, 14 de agosto de 2010

Vacinação Infantil Contra a Poliomielite







Neste sábado, 14 de agosto de 2010, vários membros do Jeep Clube de Maceió e um casal representando o CLUPEAL, mais uma vez, embrenharam-se em locais pouco acessíveis, situados nos Municípios vitimados pelas últimas enchentes, com o objetivo de conduzir os agentes de saúde na Campanha de Vacinação Infantil Contra a Poliomielite.
Triste foi notar que a situação degradante ainda persiste, impondo cruéis e severas limitações materiais à população atingida. Famílias inteiras habitam em ambientes inóspitos. As necessidades são muitas e prementes. Sensibilizou, sobremodo, observar que, inobstante o estado de miserabilidade, crianças entregavam-se à fantasia das brincadeiras com alguma criatividade para improvisar brinquedos. Viu-se, por exemplo, um grupo de meninos jogando com tampinhas de garrafa pet como se fora um jogo com bolas de gude. Sorrisos não lhes faltavam, enquanto para o grupo de jeepeiros não havia senão uma emoção ao constatar como tão pouco poderia ser capaz de alegrar essas crianças.
A decisão foi, então, tomada pelos que estiveram nas adjacências de Branquinha: iriam conclamar seus pares para que a próxima campanha de arrecadação de donativos fosse, principalmente, voltada às crianças. Aliás, o Dia delas está próximo. Nada mais oportuno do que lhes doar brinquedos.
Por fim, aplauda-se o valoroso trabalho dos agentes de saúde, que conhecem cada recanto e cada pessoa por seus nomes e particularidades. Parabéns a esses bravos guerreiros! São eles os grandes responsáveis pelo sucesso dessas campanhas.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O mar de ontem



Foto de Sandra Salgado


Voltei àquele mar
que como rio de Heráclito
não era o mesmo mar
e nem podia sê-lo
não éramos nós os mesmos amantes
afogando-se, divisados ao longe

Como o mar
o amar, a paixão, a juventude...
evadiram-se sem marcas
somente lembranças adormecidas
em nossos corações indolentes

O sol, a lua, as estrelas...
toda a natureza, enfim
armara o mesmo palco, todos os dias
- incansavelmente –
a chuva, porém, retratou sua saudade

Já não há o mesmo mar
não há o mesmo cálido amar
já não são os mesmos amantes
somos, hoje, desejos falidos do ontem

Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)

Na contramão da existência


Foto de Sandra Salgado 

Qual estorvo na terra espirrado
com vida destinada à morte
desde o sempre existido
sem tino, sem propósito
sem um alvo a ser mirado

Não pinta, nem borda
nem encanta, nem canta
sem história contada
para o registro perpétuo
no arquivo do mundo

Nem sol, nem lua
um dia de cerração
indiferente qual pedra
dormente em pleno sertão

Não saca da viola
para uns acordes dedilhar
costura a vida com puídas linhas
que sequer acoberta um corpo
ao relento relegado

Ora, ora, ora!
resolvera fazer hora
engastar a palavra numa arte impopular
por mal traçados versos, seus reversos
talvez qualquer arte lapidar
sem ritmo, sem métrica, sem rima
exarar emoção, sem agitação dos sentidos

E o talento até a um verme prometido?
o Governante posto não cumprira
sua promessa de democratização
e o tal estorvo perambula errático
na contramão da existência

Simone Mourae Mendes
(Poesia inédita)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Meus Versos

Foto: Sandra Salgado/Ana Cláudia Costa

Arte, desastre
abate, embate literário
poluição visual
mera distração ociosa
efusão espiritual
comoção fatal,
factual...

Não sei mesmo o que
de meus versos exala
nem por que a mim concebo
produzi-los sem o saber

Enquanto, porém, os desenho
relutantemente, existo:
eis minha absurda certeza

Inculta, incauta, fausta
obscura, ultrajante
vil, beligerante
emérita ou quimérica
existo em cada fração
na síntese dos meus versos

Meu retrato caricaturizado
meus versos e reversos
meus versos, minha oração
a mim, a Deus, ao além
a ti
ao imponderável...

Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Eu Mesma...Nua)

Sem Pretensão de Saber

O cerne... procurei o cerne!
a essência, o substrato, a razão última
a verdade absoluta, a causa única
a matriz, a geratriz, o marco zero
seja lá o que for...
rebusquei-me e deixei a trilha

Esse segredo não se me revelou
e, sutil, ergui a bandeira da vida
relativizando o profano
para suportar o sagrado fardo
das imposições materiais
das normas e regras casuísticas
dos plantões oportunistas
que rezam e pregam o incrível

Assisto, na platéia (?), impassível
- sem vislumbrar a minha fatura -
aos martírios incongruentes
às devastações inconseqüentes
aos engodos, ao ganho pelo ganho
que a razão humana não sobrepujou

Não sei - e nem pretendo -
saber da minha força e aptidão
de ser, fazer e o sistema revolver
traduzo-me indefesa, pobre ignota
e, tal vítima cândida e submissa,
sigo palidamente ofuscada
diante do “supremo poder”
com vistas aos meus próprios ganhos

Simone Moura e Mendes

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Esboço imortal

Foto Delaide Scolni

 
Sou nada...
um esboço do Criador
à mercê de um sopro
poeira que se dissipa e vai... a esmo
ao sabor da onda do tempo
quem sabe aonde?

Versejando, velejo
conduzindo-me no ir e vir
em trilhas virgens
em caminhos distantes

No âmago dos meus versos
ouso redesenhar a minha história:
minha perdas e tantas glórias
toda a minha vida
que se finda a cada instante

Retrato nesses versos
as cadência das batidas inconstantes
do meu coração pulsante
enquanto vida

Assim sou consagrada... sou tudo
espírito imortal... um ser amante
convicta de que nos meus versos
transplanto um coração
pleno de efusivos sentimentos
que restarão eternos

Versejando...
sou mais que um esboço
sou ímpar... singular
um esboço imortal do Criador

Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Eu mesma...nua)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Catarse de mim

Foto Simone Moura e Mendes

Deixo-me lentamente sucumbir
aos valores vãos das planícies
escondendo-me do mestre que me criou
- o meu sábio mestre interior
que às montanhas aspirou galgar -
entregando-me à escuridão atroz
dos meus pensamentos impuros
que somente a mim carcome e corrói

Não me perco na magia do azul do mar
não mergulho nos mistérios de um olhar
sou automatismo... disfarço-me feliz
na concretitude dos meus ideais vazios
conduzindo-me a nenhum lugar

Sou a beleza que não se mantém
estou esgarçada pela tristeza
- como uma teia mal tecida –
sou vilã, algoz de mim mesma
conduzo-me à própria desgraça
da banalidade do meu existir

Se as águas fluentes das correntes
filtram-se, veementemente, por si
se o ar poluído se renova sozinho
hei, como criatura da própria natureza,
de neutralizar os efeitos da minha tristeza,
fazendo a catarse de mim mesma,
espargindo luz nos escuros túneis da vida
 
Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Eu mesma...nua)

domingo, 8 de agosto de 2010

Habitante de uma Estrela

Pai!
por onde vagas
agora que não mais te vejo?
em qual dessas estrelas repousas
esperando por mim?

Havia tanto para te dizer...
mas me calei
tanto havia o que de ti descobrir
mas não te indaguei
retive-me no meu egoísmo
nos mal suplantados dissabores
de nossa vida material em comum

Vivíamos sozinhos... em nós mesmos
vendo-nos... sem nos ver
remoendo mágoas
trocando farpas em nossa vã superficialidade
dominados por um coração selvagem

Não me fizeste a redoma que logrei
não te fiz os carinhos de que precisavas
ambos somos medíocres perdedores
desprovidos do amor paterno-filial
fomos, portanto, privados desse paraíso

Cedo foste habitar nalguma dessas estrelas
enquanto eu... cresci quase só nesse mundo
que ao invés de ter-me sido hostil
e repletos de ardilosos vilões
- de quem, decerto, me protegerias -
ofertou-me o herói que em sonho suplicava

É tarde!
de que nos adiantam remorsos e lamentos?
não há como regressar àquele tempo
em que eu era uma menina carente
e tu, um menino aprendiz de Pai

Mas, posto que somos imortais
ainda serei alvo de teu carinho paternal
e tu... do meu afago filial

Simone Moura e Mendes

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Paixão não é amor

A paixão é fugaz
verga-se nas intempéries da vida
deixa-se arrastar pelos açoites do vento
impetuosa e compulsiva
incongruente, irreverente
com o tempo é esquecida

O amor é perene
disciplinado e consciente
converge para uma ascensão recíproca
trava renhidas batalhas em busca da verdade

O amor vivifica e transforma
torna cristalina a alma do homem
a paixão é cega...
ilude, mumifica e destrói

Paixão não é amor
mas pode até vir a sê-lo!

Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Incógnita)

Busca do êxtase

Foto Delaide Scolni

Esquadrinho-me a fim de extrair o êxtase
que perdi em caminhos gramados
onde me deleitei entre borboletas multicoloridas,
gafanhotos, colibris e esperanças

Ornada de deslumbre incomensurável
tal criança fulgurante, tentei agarrar o arco-íris
que, magicamente, descortinava-se diante de mim
emoldurando uma cachoeira onírica

Eu era um anjo de asas reluzentes
sobrevoando essa paisagem colossal
e aterrissei com meus pés de plumas
sobre a grama regada de orvalho

Procuro o êxtase de quem nunca viu o mar
e banha-se e sente o gosto de sal,
toca as algas e nada entre os peixes

Procuro o êxtase inexprimível
de um recluso em solitária ao ver a luz do dia,
o movimento imperceptível dos girassóis,
os animais, livres, nas campinas

Procuro o êxtase de um orgasmo profundo
onde me fundo com o universo
e transcendo o meu eu de criatura,
em estado pleno de corpo e alma

Encontrando-me em mim
descubro êxtase de ser partícipe da vida
ser a própria vida, gerar vidas,
doar-me em vida...
no êxtase de amar intensamente

Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Eu mesma...nua)

Angústia de ser

Foto Delaide Scolni

Tudo se passa tão célere no tempo
meus pensamentos não apreendem significados
o que hoje é, já não o é decorrido este instante
e nada se abstrai do estado presente
nem mesmo da transição para o seguinte

O fluxo da existência nos consome
consome o desejo que não teve tempo de instalar-se
é assim que estou: imersa em divagações metafísicas
enquanto o mundo flui, inexoravelmente,
sem que se cogite o escoar da existência
para o abismo cruel da incerteza
de não sentir o quanto fluiu e o quanto ainda há

Minha busca converge para a estranheza
na perplexidade perene de ser e não ser
se estou, como estou no espaço e no tempo?
sou um conjunto de átomos em movimento
na órbita da vida, que clama um sentido,
ao caminho da ilusão – de verdades abstratas
que nada retratam – minam-se, destroem-se

A angústia vital se conecta na angústia mortal
enquanto os transeuntes cósmicos perseveram
num caminhar de passos apressados, fora de si,
com olhos de mundo, são rostos apagados
sem um ponto de luz a que chegar

Se o corpo perece, a alma segue no seu fluir
errática, circundante, sem um fulcro...
em mim, fragmento do universo,
cresce o pânico de jamais me encontrar
e cada vez mais me perder no equívoco de ser

Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Eu mesma... nua)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Quarenta anos!





Enfim... Quarenta anos!
onde está a maturidade anunciada?
há, sim, um corpo cansado, sovado pela labuta
arqueando-se, quedando-se, a mercê da força gravitacional
invólucro de um espírito irrequieto, vulcânico...
ávido por aventuras que a idade mais alto tributa

São quarenta anos!
onde está a placidez da paz vislumbrada?
se as montanhas não foram todas escaladas
se não desci corredeiras nem pilotei asas-delta
nem descobri os segredos guardados nas florestas
se não me tornei uma grande poeta?

São quarenta anos!
prazeres subornados por outros hábitos
batuques, noitadas, canções...
por recomendações maternais e orações
a gastrite aguda da cerveja pela crônica da coca-cola
o amendoim, o siri, as estridentes gargalhadas
pelo calor calórico do chocolate
-mecanicamente deglutido entre um e outro “telecine” –
a poesia, a fantasia, as aventuras, as heresias
pelas venturas calculadas em gaiolas mentais milimetradas

Quarenta anos!
justificando-se no temor de os filhos refazerem velhas trilhas
sem que saiam ilesos...
são deles, contudo, outras motivações
não há o romantismo de um casual encontro
seus programas são agendados pelo celular, “orkut”, “msn”...
não há um flerte contido, platônico
mas relações encartadas no descompromissado “ficar”

São quarenta anos!
troquei as travessias da lagoa em barquinhos artesanais
por cruzeiros em transatlânticos
os bailes interioranos, os carnavais pernambucanos
pela introdução dos filhos no “mundo dos adultos”
alinhado em padrões vetustos dos meus ancestrais

São quarenta anos!
comportam-se os domingos repetidos e repelidos
minutos após minutos compondo horas ansiosas
prenunciando outro primeiro “dia útil”
para o anúncio de um ser sensato e discreto
hermético, conformado em regras
- arremedo de responsabilidade, ditado pela sociedade –

Após esse marco, a vida prossegue!
ainda haverá mais tempo de chorar os tempo idos
inobstante sorrir pelos louros granjeados
de contemplar os alvéolos da laranja
de sentir o vento dobrar as curvas da estrada
de contar histórias aos meus netos
e, ainda, de dizer o que penso
sem recear perder meus afetos

Simone Moura e Mendes

Em busca do Quarto Crescente

Foto Delaide Scolni

Lua, lua!
com essa história de mudar de fases
é um tal de engorda e emagrece
que inspira cá embaixo as pobres criaturas
- principalmente as mulheres -
a viverem sempre penando
em busca de uma melhor escultura

Deixa disso, amiga lua!
sabes bem que quanto mais Cheia
mais exalas formosura

Já as pobres criaturas cá embaixo
submissas à tua luminosidade
embora alcancem seu Quarto Crescente
não terão jamais o brilho etéreo do teu prateado

Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)

domingo, 1 de agosto de 2010

Amigos psicológicos

Por essa estrada da vida, encontramo-nos
algo há em comum: uma opinião, um “insight”,
nossas energias, enfim...

Sejamos gratos a nós e ao universo bendito
por nos conceder “toda honra e toda glória”
de nos conhecermos, e ainda,
por todas as “incógnitas” que, juntos,
haveremos de desvendar

No “inconsciente coletivo”, na “simbologia dos sonhos”
na “figura e fundo”, no “condicionamento operante”
em nós mesmos... não importa
haverá sempre uma “incógnita”: latente ou manifesta,
mas circundante, interagindo conosco,
à espera de ser desvendada

Ao longo da caminhada
transformemo-nos em sábios poetas,
verdadeiramente, inspirados nas almas alheias,
e em nós, que somos seus reflexos
pela razão de sermos a razão de ser do mundo

“Nada acontece por acaso”
como nada, não se configura mero acaso
a chegada de minha “incógnita”,
quiçá uma faceta, uma conspiração do universo
no alvo do estreitamento de nossas amizades

Simone Moura e Mendes
(Poesia do livro Eu mesma... nua)

Nas horas apressadamente intranquilas

Foto Simone Moura e Mendes

Meu baú de incertezas me protege
das insídias dos caminhos bifucardos
minha ilusão me isola de uma realidade insípida
desse mundo estereotipado
meus desejos são contidos
pelo sensato e producente superego: o magistrado
Ah! Minha juventude se esvai desditosa
nas horas apressadamente intranqüilas

Recalquei, tantas vezes
tanta vida emudecida em poesia: espevitada vida!
tudo para não sair e me perder, combalida
da órbita imperativa do sistema
fui menina como precoce traduzida
fiz-me mulher sensivelmente embrutecida
Ah! Minha juventude se esvai desditosa
nas horas apressadamente intranqüilas

Pari muitas dores que desabrocharam
em penas multicores de gratos amores
transcendi-me em filhos, publiquei dois livros
e tantas trilhas desbravadas
muito do que aprendi se perdeu
num desses caminhos para outros adventos
Ah! Minha juventude se esvai desditosa
nas horas apressadamente intranqüilas

Construí um castelo de areia
para repositório das mágoas, das querelas inauditas
mas num castelo de granito
depositei as aquarelas das imensuráveis conquistas
eu me resumo uma menina inquieta
adolescente sagaz e mulher plenamente
Oh! É a vida que se esvai desditosa
nas horas apressadamente intranqüilas

Simone Moura e Mendes
(Poesia inédita)